Opiniao

As indignadas

Estas indignadas, para além de se rebelarem contra um texto escrito há dois mil anos, por se revelarem incapazes de assimilar o contexto da época, acordaram agora para a realidade actual da secundarização da mulher no mundo islâmico


Uma moçoila, cujo único feito de reduzida relevância ao longo da sua ainda curta vida tem sido o de se evidenciar em telenovelas, arte a que alguns apelidam de representação, aproveitou a suposta notoriedade que o seu emprego lhe confere para, através das redes sociais, se insurgir contra uma passagem na Bíblia, a qual terá escutado numa missa televisionada.

A sua revolta assenta num texto de S. Paulo, em que é referido o papel da submissão da mulher perante o homem.

É claro que os fracos horizontes cognitivos da rapariga em questão não lhe permitem compreender a parábola da afirmação que lhe causou náuseas, pois, caso se tivesse dado ao trabalho que ouvir com atenção toda aquela Epístola, poderia ter entendido que a submissão, para além de a Deus, é de todos perante todos.

De imediato se juntaram a este protesto de indignação mais umas quantas alegadas vedetas, mais ao menos conhecidas do grande público por diariamente se pavonearem nos diversos canais de televisão, dos quais recebem generosas contribuições financeiras por se prestarem a esse serviço, reclamando do que consideram o desdém com que o catolicismo trata as mulheres em geral.

A nossa decrépita sociedade vive deste expediente, nos tempos que atravessamos: as pessoas são conhecidas por aparecerem na televisão, ao contrário de outros tempos, não muitos distantes, em que se ia à televisão por se ser conhecido.

E a concorrência não tem como base a distinção de quem prova ser intelectualmente superior, mas sim de quem debita mais asneiras.

É a completa inversão de valores, imagem de marca deste moderno mundo.

E estas criaturas das novas passereles não se cansam de opinar sobre tudo e sobre nada, arrastando nas suas cruzadas uma legião de inocentes almas que se deixa endeusar por quem lhes entra diariamente pela casa adentro, aprovando todos os disparates que saem daquelas ocas cabecinhas.

Estas indignadas, para além de se rebelarem contra um texto escrito há dois mil anos, por se revelarem incapazes de assimilar o contexto da época, acordaram agora para a realidade actual da secundarização da mulher no mundo islâmico, derramando lágrimas de crocodilo perante o futuro sombrio a que estão condenadas todas quantas não conseguiram escapar do terror afegão.

Esquecem-se, no entanto, de uma crua verdade: não são apenas os talibãs do Afeganistão que maltratam as mulheres, mas também todos aqueles, disfarçados com outras designações, que se espalharam pelo mundo fora, muitos dos quais detendo o poder efectivo em diversos países vistos pelos ocidentais como amigos.

A hipocrisia da política reinante nos Estados da actualidade, pelo menos na grande maioria deles, leva a que se feche os olhos às constantes violações dos direitos das mulheres nos países aos quais o Ocidente está economicamente vinculado, canalizando-se toda a cólera somente para aqueles que fogem ao controlo da alta finança internacional.

Mas, pior ainda, estas indignadas estão sempre na linha da frente na defesa da honra dos talibãs que se têm infiltrado em solo europeu, acusando de xenofobia e racismo, para além de outros piropos bem mais ofensivos, todos aqueles que se insurgem contra a invasão das hordas que progressivamente vêm subvertendo a ordem institucional e pondo em causa a milenar civilização cristã, em cujos alicerces foi construída a nosso sociedade, procurando-a substituir pela da qual provêm.

Em diversas regiões europeias, nas quais as forças de segurança locais nem ousam sequer pôr os pés, as mulheres são reduzidas à condição a que estão submetidas as que vivem no Afeganistão, não se vislumbrando qualquer clamor de revolta, ou simples denúncia, por parte de quem agora chora uma simples passagem de um texto bíblico.

Estas indignadas recusam-se a encarar a verdade dos factos, assente na destrinça abismal entre as duas sociedades em causa, a cristã e a islâmica: na primeira as mulheres há muito que alcançaram uma plena igualdade de direitos em relação os homens, enquanto que na segunda continuam a ser por estes escravizadas.

Mas, claro, o machista é o S. Paulo e o passo seguinte será o de se proibir as missas na estação pública de televisão, em nome do absurdo de uma suposta igualdade religiosa.

As Corridas de Touros já foram à vida, a palavra de Deus será a próxima a ser silenciada.

E tudo na prossecução de um objectivo há muito delineado pelos poderes ocultos que nos governam: a imposição do pensamento único!

Pedro Ochôa