Retratos Contados

Retratos de uma vida

Depois, como diria o outro “vamos andar por aí”. Vamos onde nos quiserem receber. Acima de tudo pretendo partilhar com todos a tua gargalhada, que ajuda a salvar tantos. 


Querida avó,

Nestes primeiros dias de Setembro termina a Exposição Retratos Contados de Alice Vieira, na Ericeira. Como Comissário da Exposição não podia estar mais feliz. Esta Exposição retrata um pouco do muito que é a tua vida e obra.

Quem visita esta Exposição, pode ver fotos da tua infância, alguns dos momentos que mais te marcaram nos jornais onde trabalhaste, fotos de família, várias fotos  tuas com a tua amada máquina de escrever e muito mais. Tudo isto acompanhado por textos escritos por ti, que complementam a Exposição. 

Não posso deixar de referir a linha do tempo, com todas as capas dos livros que escreveste até agora. Com principal destaque para a capa da 1ª edição do livro “Rosa minha irmã rosa”, foto tua a autografares o 1º livro e, como não podia deixar de ser, a linha do tempo termina com a capa da do livro, Diário de uma avó e de um neto confinados em casa, o teu mais recente livro. 

Fico muito feliz por esta Exposição se ter realizado na Ericeira, a terra que chamas de “pátria”. Foi um sucesso desde o dia da inauguração. Com a presença do Presidente da Câmara Municipal de Mafra, Dr. Hélder Silva, o teu filho, nora e netos, muitos amigos teus, não só da Ericeira, como outros que se deslocaram de longe para estar ao teu lado neste momento tão especial.

É tão bom observar como as pessoas gostam de ti. É maravilhoso ver a tua felicidade, e perceber que o sorriso da menina das primeiras fotos da Exposição é transversal até aos dias de hoje. Agora está na altura de pegar em tudo e mudar de local. Próxima paragem: Casino Estoril.

Depois, como diria o outro “vamos andar por aí”. Vamos onde nos quiserem receber. Acima de tudo pretendo partilhar com todos a tua gargalhada, que ajuda a salvar tantos. Sei que não gostas de falar de ti. Mas também sei que momentos como estes são muito importantes para ti.

Que balanço fazes de tudo isto?

Bjs

Querido neto,

Já fizeste os agradecimentos e eu assino por baixo. Foi realmente uma ótima experiência. Mas agora falemos de outra coisa. 

Estou muito feliz pelo facto de a exposição ir para o Casino do Estoril. Não que eu seja frequentadora do Casino—que não sou—mas porque nunca falto a uma peça dos Irmãos Feist, que assentaram arraiais no Auditório.

Os irmãos Feist são “os meus meninos”, conheço-os praticamente desde que nasceram. O Luís Feist, pai deles, foi meu colega na Faculdade de Letras de Lisboa. Além de colega era meu amigo. Muito meu amigo. Tão meu amigo que era a única pessoa a quem eu passava o meu carro para as mãos.

Bastava ele chegar ao pé de mim, no Anfiteatro de Letras e murmurar “precisava que tu…” para eu enfiar a mão na carteira, tirar de lá as chaves e entregar-lhas. Enfiava-as no bolso e dizia apenas “às 5 horas está à porta.” Ou às 3, ou ao meio-dia, a hora que lhe desse jeito.

E a essa hora em ponto o meu carro azul estava à porta da Faculdade. Com o ar inocente de quem nunca tinha saído dali. Por onde terá andado, que aventuras  terá vivido --não faço a mínima ideia, nunca perguntei ao Luis. Depois o tempo passou, cada um seguiu a sua vida.

Soube que tinha casado com a Manuela Paulino, locutora da televisão, que tinha tido dois filhos. Ainda cheguei a ver o mais velho, bebé, num dia em que o encontrei diante da casa onde então viviam. Lembro-me de os ver, ainda miúdos, a cantarem no Passeio dos Alegres, do Júlio Isidro.

Quando o Luis morreu, eu nem queria acreditar. Eu conhecia um irmão mais velho dele e liguei-lhe, incrédula – e ele confirmou. E eu, que nem sou de enterros, fui ao velório e ao enterro. E lembro-me de o irmão me dizer “ele gostava muito de si”.

A partir daí o Nuno e o Henrique entraram na minha vida. E nunca perdi um espectáculo deles. Que ideia maravilhosa a tua de levares a Exposição para o Casino. E agora, meu neto, mãos ao trabalho!

Bjs