Falar Baixinho

"Perdi anos atrás daqueles ecrãs"

Sou avessa a proibições vindas de fora, mas por outro lado acho que têm de existir limites estipulados pelos pais dentro de casa – e claramente isso não está a acontecer. Se os jovens passam 6, 8, 10, 12!! horas por dia a olhar para um monitor ou crianças de dois, três, quatro, cinco anos brincam com tablets, é porque alguém permite.


Esta semana a China decretou que os menores só podem passar um máximo três horas por semana, divididas igualmente por sexta-feira, sábado e domingo, a jogar videojogos. A decisão tem dado que falar e, naturalmente, as opiniões dividem-se.

Se por um lado sou absolutamente avessa a proibições, por outro confesso que já não me sinto tão sozinha em relação a este assunto. É que se se chegou a este ponto, não terá sido, com certeza, por os jovens dedicarem um tempo razoável a este tipo de entretenimento. E essa realidade está longe de acontecer só na distante China. É um problema  generalizado e cada vez mais sério. Sobretudo porque é subestimado.

Como dizia sou avessa a proibições vindas de fora, mas por outro lado acho que têm de existir limites estipulados pelos pais dentro de casa – e claramente isso não está a acontecer. Se os jovens passam 6, 8, 10, 12!! horas por dia a olhar para um monitor ou crianças de dois, três, quatro, cinco anos brincam com tablets, é porque alguém permite. E se os pais continuam a permitir sem se aperceberem das consequências é porque a informação não está a chegar onde devia.

Ainda esta semana comentava como a realidade do mundo gaming é assustadora e mais do que uma moda entre os mais novos, tornou-se um vício bizarro. Fecham a porta e os estores de forma a não verem nenhuma luz além da do computador e dos leds que espalharam pelo quarto, colocam uns phones enormes que os impedem de ouvir o exterior, um microfone tipo piloto aéreo, e sentam-se numa cadeira suficientemente cómoda, comprada para o efeito, para poderem passar 24 horas confortáveis. E ali ficam, inertes, totalmente alheados do mundo e absortos numa realidade que alguém criou para eles.

Infelizmente há cada vez mais jovens que, sem se aperceberem, trocam a vida pela vida do jogo. Passear, ouvir música, jogar à bola, estar com os amigos, comer e mesmo dormir, passa tudo para segundo plano e apodera-se deles uma indiferença perante tudo o que não seja jogar. E como é uma realidade tão consensual, alguns pais acham que faz parte dos novos tempos e não interferem. Alguns ainda oferecem alguma resistência, mas nem sempre têm paciência ou disponibilidade para entrar nesta guerra.

Uma vez uma amiga dizia-me com alguma tristeza que o filho mais velho lhe confidenciou que todos os amigos achavam que ela era uma mãe má porque lhe impunha limites no jogo. É preciso algum sangue frio e alguma clarividência para nos mantermos fiéis às nossas convicções mesmo quando parecemos andar contra a corrente. Os jovens que acompanhei no hospital, totalmente rendidos aos jogos, talvez me tenham dado uma visão mais abrangente daquilo com que podemos estar a lidar.

A propósito deste assunto, um dia um amigo contava-nos como quando estava em casa da mãe, que não lhe impunha limites, ele jogava até não poder mais. Os amigos iam chamá-lo mas ele preferia ficar no quarto. E quando tinha um jogo novo avisava logo que não valia a pena irem chamá-lo nos próximos dias. Após esta descrição uma amiga concluiu: ‘E afinal foi só uma fase e não fez mal nenhum, não é?’. Ao que ele respondeu: ‘Uma fase? Passei a minha adolescência fechado num quarto enquanto os meus amigos andavam na rua a divertir-se. Perdi anos atrás daqueles ecrãs. Achas que não fez mal nenhum?’.