Cultura

"Ora Bolas!". Fascinante como só um Anglia pode ser

A Ford resolveu instalar-se na Europa ainda antes do início da II Grande Guerra. Em Inglaterra, mais propriamente. No dia 31 de Outubro de 1939 lançou o veículo mais pequeno da marca - o Anglia E04A. Vinte anos depois nascia o mais famoso de todos, o Anglia 105E, com o vidro cortado atrás e os olhos de sapo.


Quando J.K. Rowling resolveu pôr o seu famoso personagem, Harry Potter, a caminho da escola de feitiçaria de Howgarts voando num Anglia 105E (em Harry Potter and the Chamber of Secrets), a febre dos anos-60 em relação aos Fords construídos nas fábricas de Dagenham, em Inglaterra, despertou novamente as saudades de tantos que foram autenticamente fascinados por um modelo que, em Portugal, ganhou a alcunha de «Ora Bolas» (ou Fascinante) - as pessoas iam admirando as suas linhas elegantes de frente mas, chegando às traseiras, não reprimiam uma exclamação de desagrado ao verem os traços arredondados passarem, de repente, a riscos bicudos e ao vidro metido para dentro.

A verdade é que essa espécie de desilusão colectiva fez do 105E um ícone de todos os automóveis do mundo e, se hoje as crianças e os adolescentes o conhecem por carro do Harry Potter, os adultos suspiram de saudades do tempo em que eles ou os seus pais eram donos de um exemplar. Tal e qual aconteceu, aliás, com Rowling: o Anglia não entrou nos seus livros por magia; o pai dela teve um quando a escritora ainda era miúda.

Nascido em 1959, o Anglia 105E tem uma longa história familiar, iniciada vinte anos quando a Ford, em Outubro de 1939, nos primórdios da II Grande Guerra, resolveu fabricar automóveis no Reino Unido e apresentou ao público o mais pequeno de todos os Ford - o medelo E04A, cópia quase total do seu irmão americano, o Ford 7Y.

Não deixou de ser uma revolução. Os Anglia ficavam em conta para as famílias inglesas, tinham um design agradável, com o radiador escondido por uma grelha vertical e os faróis colocados sobre os guarda-lamas. O pneu suplente ficava nas traseiras, fora do chassis, de forma a ganhar espaço para a mala, e o modelo inicial resumia-se a duas portas. Quatro cilindros em linha ofereciam-lhe 993 centímetros cúbicos de potência e o emblema não deixava dúvidas sobre o local onde fora construído- Anglia. Nascera uma lenda, mas ainda ninguém poderia adivinhá-lo.

Curiosamente, ainda mais do que acontecera em Inglaterra, o E04A foi um fenómeno de consumo Down Under, isto é, na Austrália. Perante a popularidade do modelo, os engenheiros da Ford inglesa foram, ano a ano, aperfeiçoando a maquinaria.

O A5A4 era, basicamente, o E04A mas com quatro portas e com a grelha frontal diferente, assente apenas numa peça única. Foi apresentado em 1948 e tornou-se, também ele, um sucesso de vendas. Podia dizer-se, sem exageros, que o Anglia dera a volta ao mundo. E ainda faltava muito para se tornar no emblema que viria a ser.

Um ano mais tarde, o A5E4 crescia em volume e capacidade de carga. Era tão simples e concreto na sua estrutura que não foi por acaso que se tornou o carro mais barato de Inglaterra. A potência aumentou para 1172 cc e, até finais de 1953, foram vendidos 108,878 exeplares. Atingia os 90km/hora e tornara-se no que Adolf Hitler sonhara para o Volkswagen carocha - um indiscutível carro do povo.

Na Austrália, o fanatismo pelo Anglia também não abrandava e o país começou a produzir os seus próprios automóveis, dando-se ao luxo de fazer diversas alterações na carroçaria e abrir uma muito útil (sobretudo para os australianos) versão carrinha de caixa aberta.

Havia, ao dispor do consumidor, o A5E4 Sedan, o Tourer, o Coupé Utility, o Roadster Utility e por aí fora. Tal e qual acontecia em Inglaterra era dos carros mais baratos do mercado. E os dez anos que se seguiram à primeira apresentação pública confirmavam que era um automóvel fiável, seguro, que não dava problemas mecânicos.

O Prefect

Em 1953, a Ford sentiu necessidade de algo novo e completamente diferente. Mesmo correndo o risco de o novo Anglia não ser tão bem aceite com o anterior. A empresa de design Lacuesta Automotive deu ao mundo o Anglia 100E, mais conhecido por Prefect.

Nada na sua concepção tinha que ver o que quer que fosse com o E04A. Com as versões de duas e quatro portas, o Prefect era uma espécia e caixa arredondada, como se tivesse sido construído por três peças coladas umas às outras, sendo a do meio, naturalmente, o habitáculo.

O banco da frente deixou de ser corrido, passando a ter uma separação em dois de forma a facilitar o intercâmbio com os passageiros que viajavam na retaguarda. As mudanças (só com três velocidades) deixaram de ser junto ao volante e passaram para o lado do condutor, algo que foi reconhecidamente um avanço na arte da condução.

O tablier tinha todas as informações práticas, desde o estado do óleo à quantidade de gasolina existente no depósito, havendo os extras opcionais de aquecimento interno e de rádio. Os anúncios sublinhavam que a máquina atingia os 113km/hora, que ia dos 0 aos 97km/hora em 29,4 segundos e que o consumo era uma pechincha: 9 litros aos 100km.

Os responsáveis pela Ford de Inglaterra não tiveram razão para se arrependerem do passo dado em frente em relação ao E04A. Talvez por isso nem olharam para trás quando resolveram deixar cair o Prefect para apostarem no verdadeiramente revolucionário e quase psicadélico 105E. O 100E vendeu muito.

Quando a fábrica de Dagenham terminou a sua produção, em 1959, o número de carros consumido pelo mercado registou um expressivo 345,841. Pelo caminho, e para satisfazer o cliente trabalhador, que necessitava do seu Anglia para transportes de mercadorias, produziram-se duas carrinhas cuja parte fronteira era idêntica à do automóvel simples.

A primeira chamou-se Thimes 300E e tinha bancos traseiros de frente uns para os outros; a segunda, Squire, tinha o toque requintado das faixas de madeira polida ao longo das laterais. Os Anglias estavam bem e recomendavam-se. Mas algo viria a alterar de forma definitiva a forma como os víamos.

O Fascinante

O 105E apareceu em 1959 e era, definitivamente, desenhado com fortíssima influência americana. O capot em declive, acompanhado por dois faróis proeminentes, a grelha cromada com ar de fera mal-disposta, o vidro traseiro oblíquo - para poder manter-se seco durante viagens à chuva, segundo os panfletos publicitários - os faróis traseiros em rabo-de-peixe, deixava no ar um toque de Ford Thunderbird ou de Studebaker, sem os gigantismo dos seus parceiros estado-unidenses, mas com uma personalidade tão marcante que só havia uma forma de olhar para ele: ou amando ou odiando.

Em Portugal, o 100E foi rapidamente alcunhado de «Ora Bolas!». No geral, as pessoas diziam que gostavam muito da parte dianteira mas ficavam desiludidas quando, de repente, se viam perante uma traseira que parecia não bater certo com o resto do veículo.

Na verdade, aquele curioso vidro de trás torto surgiu pela primeira vez num Lincoln Continental de 1958 e diz a história que se limitou a um erro de interpretação do construtor perante um designer mais confuso que tivera a ideia de como seria agradável ter uma vidraça na retaguarda que se abrisse nos dias de canícula. O vidro traseiro do Anglia 100E não abre - isso ficou para o Hilman Impala - mas tornou-se confortável para qualquer fulano com mais de 1m80 que viajasse na parte de trás e quisesse esticar o pescoço ao longo dele.

O motor também foi revolucionário: quatro cilindros em linha e uma válvula suplementar à qual deram o nome de Kent por teimosia do engenheiro-chefe da Ford inglesa, um tipo vaidoso chamado Alan Worters que vivia do outro lado do rio que passava ao lado da fábrica de Dagenham, já no condado de Kent.

A caixa de velocidades, por seu lado, começou por dar chatices, sendo continuadamente substituída nos carros que iam saindo para o mercado. De tal forma que, um ano mais tarde, a marca já anunciava com orgulho estarmos perante uma das mais fáceis de manusear alguma vez idealizada.

O sucesso deste carro, que também muitos conhecem por Fascinante, foi impressionante. Sobretudo em Inglaterra onde o Beatle George Harrison fez questão de ter um dos primeiros produzidos pela marca. Bem à inglesa, houve a necessidade de se recorrer a um expediente para diferenciar os Anglia absolutamente britânicos (com volante à direita) dos exportados (de volante à esquerda).

Os registos podem nem sequer sublinhar essa minúscula característica, mas fique o leitor sabendo que se tem um 105E de volante à esquerda, conduz um 106E - os ingleses não querem misturas...

Em Outubro de 1962, um golpe publicitário espontâneo deu ainda mais prestígio à marca. Um rapaz de 24 anos, de nome Tony Brookes, juntou um grupo de parceiros e conduziram um 105E alterado com um kit Performance produzido pela Ford (e vendido ao público por 13 Libras) e que servia para aumentar a potência do motor.

Primeiro, atravessaram a Mancha e guiaram até ao autódromo de Monthlhery, nos arredores de Paris. Na prova amealharam seis recordes internacionais na categoria C, alcançando uma velocidade média 134,33 km/h. Foram sete dias e respectivas noites percorrendo no total entre 15.000 e 20.000 quilómetros. A resistência e durabilidade do Anglia permitiu percorrer essa distância sem que fossem necessárias reparações, sendo apenas necessário mudar pneus.

Guiar um Anglia Fascinante é isso mesmo: fascinante. Eu, que já tive dois, posso muito à vontade escrever umas linhas sobre o assunto e gabar-lhe não apenas a fidelidade como também ampla visão dianteira. Nesse tempo, enquanto o aparecimento dos Austin e Morris Mini davam ao universo automóvel uma concepção totalmente diferente do que era o tamanho de um automóvel - «Small is beautiful!» - o 105E e o Triumph Herald conquisatavam os compradores pelo arrojo inusual do desenho.

O preço de mercado do 105E começou por ser de 589 Libras. Não tinha luxos como guarda-luvas, tapetes ou retrovisor para o passageiro mas, por mais 21 Libras podia ter acesso a isso tudo e ainda cromados sobre os faróis dianteiros e a todo o tamanho da grelha. Tudo bastante em conta, mesmo em tempos difíceis de uma Europa arrasada e que obrigou ao encerramento das fábricas de Dagenham durante o ano de 1942.

Era de tal forma a preocupação dos criadores do Fascinante que foram levadas a cabo uma série de experiências por todo o mundo para testar a sua resistência às diferenças climáticas: protótipos do 105E percorreram mais de 800 mil quilómetros desde as estradas geladas do Alasca aos caminhos enlameados do Quénia para que houvesse a certeza de que o comprador não teria razões de queixa.

No leste de África, o Anglia foi sujeito a testes de altitude e a provar a sua resistência sob temperaturas acima dos 35º. Mais de trinta veículos foram utilizados nesta experiência, com uma única chatice: na Alemanha, a polícia desconfiou que o carro estava a servir para tráfico de droga e só ficou descansada quando fiscalizou, um a um, os 30 quilos de areia em sacos colocados na mala para que se fizesse o teste ao peso que o 105E era capaz de suportar.

Quando, no dia 23 de Setembro de 1959, numa cerimónia com tanta pompa e circunstância capaz de entusiasmar o próprio Elgar, no Crystal Palace, de Londres, o 105E foi exibido ao público pela primeira vez, uma enorme faixa resumia o orgulho do seu fabricante; «World’s Most Exciting Small Car!».

Num salão de enormes dimensões, o Fascinante era a estrela que brilhava até cegar numa amostra ambiciosa da Ford que mostrava ao públicos não apenas os anteriores modelos da Anglia como, igualmente, carros icónicos da marca, a começar pelo velhinho Ford T.

Mas a campanha não foi apenas de glamour. Foi de combate. A certo momento, um filme foi exibido, em estilo cómico, no qual um proprietário de um Volskwagen carocha descobria, ponto por ponto, que o seu carro era inferior ao Anglia de tal forma que se decidia a trocá-lo.

Um dos jornalistas convidado a conduzir um Anglia nesse dia, resumiu: «The new gearbox is a delight to handle and the exciting ‘oversquare’ engine has an exceedingly light throttle to which it responds admirably». O elogio à nova caixa de velocidades não caiu em saco roto.

Seria, após os problemas iniciais, uma das características mais elogiadas do novo 105E. Por seu lado, a unidade motriz escolhida pela Ford para esse Anglia foi um motor de 1,0 litro de capacidade (997cm3) que debitava 39 cavalos de potência. Uma revista britânica testou as prestações do Anglia 105E. A velocidade máxima registada foi de 118,8 km/h e a aceleração de 0 a 97 km/h era efectuada em 26,9 segundos.

Para além disso foi testado o consumo médio, e o valor final foi de 6,86 litros por 100 quilómetros. O Ford Anglia 105E ensaiado pela revista Motor custava 610 Libras. Logo em 1960, saíram de Dagenham 191,752 viaturas.

Em 1961, o construtor criou um modelo Anglia com um motor mais potente com 1,2 litros de capacidade. Chamou-lhe Super Anglia 123E. Com estofos em couro e a capota pintada de uma cor diferente da do chassis, era decididamente virado para a vertente desportiva e participou em vários rallies, sobretudo no mítico Monte Carlo. Continuava Fascinante como só um Anglia é capaz de ser....