Internacional

Talibãs e a repressão

Apesar de prometerem uma maior moderação, os talibãs continuam a implementar leis repressivas e a responder com violência aos protestos dos cidadãos.


Além da tensão com a comunidade internacional, o Afeganistão continua emerso em conflitos internos entre talibãs e a sua população, que tem realizado protestos para condenar as novas medidas implementadas pelo grupo insurgente, que responde com violência, tendo provocado pelo menos quatro mortes, esta sexta-feira.

Segundo a porta-voz da União Europeia, Ravina Shamdasani, os talibãs usaram munições, chicotes e bastões para desimpedir o protesto, levando ainda a cabo atos de violência contra membros da imprensa. Foi relatado que um jornalista, enquanto levava pontapés na cabeça, era ameaçado por um grupo de talibãs que lhe gritava que tinha sorte em não ser decapitado.

«Pedimos aos talibãs para pararem imediatamente com o uso de força e com as detenções contra aqueles que estão a exercer o seu direito de protestarem pacificamente e aos jornalistas que estão a cobrir as manifestações», disse a porta-voz europeia.

Os protestos têm proliferado especialmente após o anúncio do novo Governo dos talibãs. O grupo insurgente tinha prometido que o gabinete iria apostar numa maior diversidade e propostas mais inclusivas, no entanto, este foi formado exclusivamente por homens e as medidas até agora implementadas não revelam qualquer tipo de moderação, muito pelo contrário.

Esta semana, os talibãs anunciaram que era proibido efetuar manifestações e exibir slogans que não fossem aprovadas pelas autoridades.

Esta é a primeira lei decretada por Sirajuddin Haqqani, o novo Ministro do Interior, que é procurado pelo FBI, após ter fundado o grupo ‘Haqqani Network’, que combatia as tropas ocidentais no Afeganistão.

Haqqani alertou que os opositores devem solicitar uma permissão antes de organizarem protestos ou enfrentarão «consequências legais graves», cita o Guardian.

A medida foi oficializada após vários confrontos violentos entre talibãs e manifestantes em diversas cidades afegãs desde que o grupo chegou ao poder.

Esta terça-feira, em Herat, durante um protesto, enquanto tentavam reprimir a manifestação, os talibãs fizeram duas vítimas mortais e oito ficaram feridas, informou à AFP um médico que pediu anonimato.

A par da proibição das manifestações, logo nos primeiros sete dias de governação dos talibãs, foi banida a música ao vivo, uma lei que já datava ao primeiro Governo deste grupo, entre 1996 e 2001, com o Instituto Nacional Afegão da Música a ser encerrado enquanto os seus estudantes foram obrigados a devolver os seus instrumentos com medo de sofrerem retaliação.

Segundo a lei talibã, as únicas exceções a esta regra são as canções da religião islâmica.

Foi ainda anunciado que as mulheres estão proibidas de praticar desportos uma vez que isto pode abrir a possibilidade de o seu corpo ou rosto ficar exposto.

A proibição inclui o críquete, a principal modalidade do Afeganistão, algo que coloca em risco o futuro da seleção deste país.

«Não acho que as mulheres possam jogar críquete porque não é necessário. É possível que, em certos momentos, o rosto e corpo estejam expostos. O islamismo não permite que as mulheres sejam vistas desta forma», disse o responsável pela comissão cultural do Afeganistão, Ahmadullah Wasiq.

 «Na era dos media em que vivemos, em que há fotos e vídeos de tudo, as pessoas iriam assistir a isso. O Islão e o Emirado Islâmico não irão, por isso, permitir que as mulheres joguem críquete ou qualquer outro desporto em que possam surgir expostas», explicou Wasiq.