Pátio das Cantigas

Um 'pau para toda a obra'… e um 'bico de obra'

Essa assumida ignorância valeu-lhe ser nomeada diretora do Museu do Aljube, fundado com o propósito de fixar a «memória do combate à ditadura e à resistência em prol da liberdade e da democracia». Percebe-se logo que o cargo lhe ‘assenta como uma luva’… Quem não sabe o que foi a repressão em massa exercida sobre milhões de pessoas nos Gulags soviéticos está perfeitamente indicada para dirigir um museu com a vocação do Aljube.


Num partido fortemente envelhecido como é o PCP, onde cerca de metade dos militantes têm mais de 64 anos, João Ferreira tem sido o recurso omnipresente para contrapor a essa tendência, projetando a imagem de um comunista jovem e bem-falante, sem as mãos calejadas da geração operária ainda representada no topo por Jerónimo de Sousa.

Em vez da rudeza comum ao operariado, Ferreira é um biólogo que sabe ser polido, já afeiçoado à alcatifa em proveitosas experiências, desde a ‘alta roda’ do Parlamento Europeu até à vereação do município lisboeta, à qual volta a candidatar-se, depois da humilhação sofrida nas presidenciais, que lhe valeram quase um terço do resultado obtido por André Ventura, que ficou em 3.º lugar, à sua frente.

Membro do comité central do PCP, Ferreira é um ‘falcão’ disfarçado de ‘pomba’, de voz suave e boas maneiras, que parece estar deslocado num partido estalinista, e que tanto serve para eurodeputado, como para vereador, deputado, ou candidato do partido a Belém. É ‘pau para toda a obra’, e, aparentemente, não se importa.

Não está sozinho nessa aposta no ‘rejuvenescimento’ comunista. Mais nova, mas não menos ortodoxa, Rita Rato foi uma discreta deputada comunista, até deixar muita gente boquiaberta ao não fazer a menor ideia do que foram os Gulags. Para uma licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais é mau demais.

Mas essa assumida ignorância valeu-lhe ser nomeada diretora do Museu do Aljube, fundado com o propósito de fixar a «memória do combate à ditadura e à resistência em prol da liberdade e da democracia».

Percebe-se logo que o cargo lhe ‘assenta como uma luva’… Quem não sabe o que foi a repressão em massa exercida sobre milhões de pessoas nos Gulags soviéticos está perfeitamente indicada para dirigir um museu com a vocação do Aljube.

O paradoxo não incomodou o PCP, nem muito menos Fernando Medina enquanto presidente do município, quando esta decisão foi tomada no pelouro da Cultura.

Embora sem saber o que foram os campos de concentração da antiga URSS (haja alguém que lhe ofereça O Arquipélago Gulag, a obra de Aleksandr Soljenítsin) – ou o que é, ainda hoje, a soberania totalitária em Cuba, Venezuela ou Coreia do Norte –, bastou um ano de atividade para Rita Rato traçar o novo perfil do Museu do Aljube, lançando a ideia de uma ‘ponte’ entre a ditadura e os direitos LGBTI.

À primeira vista não se entende o que tem a ver a luta antifascista com as comunidades gay, cujos direitos a nova diretora exalta, sem perder tempo a inteirar-se do pesadelo e do terror vividos nos Gulags soviéticos.

Mas, para Rita Rato, essa ‘ponte’ faz todo o sentido, porquanto «a autodeterminação de género e LGBTI […], e educação antirracista são matérias muito presentes, fenómenos com origens e causas antigas».

Indiferente ao facto de a sua nomeação ter sido contestada por reputados historiadores, Rita Rato já desenhou os novos e luminosos caminhos para um bom comunista.

Trata-se de matérias muito inovadoras no discurso do PCP, ausentes contudo no programa da Festa do Avante!, que voltou a realizar-se esta semana, com o beneplácito da DGS, como se a pandemia já estivesse resolvida.

Longe vão os tempos em que os ‘seguranças’ da Festa expulsaram do recinto da Quinta da Atalaia ‘duas pessoas do mesmo sexo’ alegadamente envolvidas, segundo o PCP, num ato sexual «em pleno espaço público». Claro que este episódio, ocorrido em 2015, será tão estranho a Rita Rato como a existência de Gulags.

É provável que a diretora do Aljube não aspire a grandes voos, ao contrário do seu camarada geracional João Ferreira, mas parece decidida a dar um contributo original ao centenário do seu partido, que nunca ‘morreu de amores’ pelas causas que animam a ex-deputada…

Tanto que ‘riscou do mapa’ Júlio Fogaça, que foi líder do PCP e rival de Álvaro Cunhal, com um histórico de 18 anos passados nas cadeias do anterior regime, entre as quais o Aljube. Perdeu-se para os comunistas na memória do tempo, anatemizado pela sua homossexualidade. Talvez Rita Rato o queira reabilitar no Museu que dirige…

Com cem bandeiras desfraldadas, alusivas à efeméride redonda, a ‘Festa do Avante!’ terá servido para compensar o rombo nas finanças do partido, de que se queixou Jerónimo de Sousa, por causa da pandemia.

Enquanto Jerónimo sobe a fasquia para viabilizar o OE para 2022, Marcelo Rebelo de Sousa, na sua vertente de comentador, já vê António Costa de ‘malas aviadas’, quando terminar a presente legislatura.

Mas se Costa tem sido pródigo em nomear herdeiros, Jerónimo mostra-se cauteloso. Muito se especulou sobre quem estará na calha para lhe suceder. João Ferreira é um deles. Mas, para os comunistas, temperados na clandestinidade, o segredo ‘é a alma do negócio’.