Politica

Motores já roncam na grelha de partida do PSD

Seja qual for o resultado das autárquicas (não se prevendo grandes resultados para os sociais-democratas), a disputa interna pela liderança do PSD é inadiável. Rangel e Moreira da Silva já estão a afinar as máquinas.


Se a corrida fosse de automóveis, dir-se-ia que a grelha de partida já está sinalizada e que os competidores começam a ocupar os seus lugares, sendo já bem audível o roncar dos motores. Tratando-se do PSD, e uma vez que há umas eleições autárquicas dentro de duas semanas, as coisas são um pouco diferentes.

Nos cenários traçados por fontes sociais-democratas e reproduzidos na semana passada, esta semana houve vários protagonistas a darem, mesmo assim, alguns passos em frente.

Se Rui Rio só baixará os braços no caso de uma catástrofe eleitoral igual à de 2017 – e a fasquia é a mais baixa de sempre porque o PSD obteve então o seu pior resultado de sempre, ficando a 50 câmaras do PS –, nos últimos dias ficou a saber-se que Paulo Rangel será com toda a certeza candidato, como ficou claro na entrevista à SIC, e que Jorge Moreira da Silva também tem reunidas todas as condições para protagonizar uma   candidatura, como resulta da cerimónia de lançamento do seu último livro (cujo título, sintomaticamente, é Direito ao Futuro) e da entrevista, no dia seguinte, à RTP.

Voltando à linguagem automobilística, se já há quem vá tomando lugar na grelha da partida, esta ainda está bem longe de ficar fechada. Por um lado, como também noticiou o Nascer do SOL na sua última edição, Miguel Pinto Luz voltará a entrar na corrida. E também a máquina que apoiou Luís Montenegro nas últimas diretas está preparada para responder a um sinal do antigo parlamentar confirmando a ida a jogo.

Mas, nesta semana, foram as entrevistas de Paulo Rangel ao programa Alta Definição, de Daniel Oliveira, na SIC, e de Moreira da Silva à Grande Entrevista, de Vítor Gonçalves, na RTP, que animaram as hostes sociais-democratas.

Entre os apoiantes de Rui Rio, se já havia reações negativas com o facto de Rangel avançar, nesta semana estenderam-se às iniciativas de Moreira da Silva, que reuniu ‘pesos pesados’ do partido (só ex-líderes foram quatro, se contarmos com a videochamada de Marcelo Rebelo de Sousa, já que estiveram presentes Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho e Marques Mendes) e não só (a apresentação do partido esteve a cargo do ex-líder do CDS_e vice-primeiro-ministro do último Governo PSD-CDS, Paulo Portas).

 

‘Direto’ para o futuro

O antigo ministro de Passos Coelho foi à Gulbenkian apresentar o seu livro – Direito a Futuro –, no qual argumenta estarmos a «viver a crédito» e a «hipotecar» o futuro das gerações vindouras (por variadas razões, como as alterações climáticas, a dívida pública e os problemas demográficos). E tudo na cerimónia fez aumentar a convicção de que Jorge Moreira da Silva está preparado para se apresentar como cajndidato à liderança do partido no breve prazo. Convicção que se reforçou no dia seguinte, com as respostas do sucessor de Passos Coelho na liderança da JSD, nos anos 90, na entrevista à RTP.

Aliás, com a argúcia que o caracteriza, Paulo Portas não deixou de afirmar a certeza do contributo político de Moreira da Silva «naquele que parece ser um tempo de vésperas».

Tomando essa liberdade de interpretação e associando-a ao facto de Moreira da Silva ter lançado um livro e marcado presença na Grande Entrevista da RTP – tudo na mesma semana –, a estrutura do PSD fez a leitura imediata: Moreira da Silva candidatar-se-á à liderança do partido.

Nessa entrevista, questionado diretamente sobre uma eventual candidatura, o engenheiro não diz «nem sim nem sopas»’. Rejeita abordar o assunto – «não por não ter uma resposta, mas por não querer dar um resposta» – atenta a sua condição de militante e o facto de estarmos em plena recta final da campanha para as próximas eleições autárquicas.

Até 26 de Setembro,  tem apenas «interesse de que o PSD vença as autárquicas» e acredita que «qualquer resposta que possa dar não está em linha com o dever de reserva que deve existir» dentro de um partido. Embora rejeite que o livro seja «um manifesto eleitoral», aceita que possa ser uma «tomada de posição». Afinal, «toda a gente que  tem ideias tem obrigação de as apresentar», mais ainda quando há «escassez de alternativa, de pensamento próprio, de densificação de conceitos», explica Moreira da Silva.

Ao Nascer do SOL, fonte ligada à direção do PSD explica que Moreira da Silva «tem vontade de ser candidato». Apesar de se dizer que Moreira da Silva só move quadros, a mesma fonte garante que o antigo ministro, apesar de «não ter nenhuma distrital, tem alguma tropa e aparelho», razão pela qual poderá «fazer estragos».

Note-se que Moreira da Silva arregimenta apoios na ala passista e conservadora do partido, que esteve essencialmente com Luís Montenegro nas últimas diretas.

E a dúvida nas hostes sociais-democratas é se Luís Montenegro será ou não candidato nas próximas diretas, uma vez que o ex-líder parlamentar se tem mantido em absoluta reserva desde o célebre desafio a Rui Rio em janeiro do ano passado.

Saliente-se que, não obstante essa reserva e silêncio de Montenegro, os seus principais apoiantes não deixaram de trabalhar as bases do partido.

 

A ‘antecipação’ de Rangel

Paulo Rangel, por seu lado, fez o que já se esperava quando a SIC anunciou a sua ida ao programa de Daniel Oliveira, Alta Definição. Tratando-se de um programa intimista, em que os entrevistados falam de si próprios, da sua vida pessoal e dos aspectos mais familiares e até da sua intimidade, cedo se percebeu que Paulo Rangel iria ao programa para afastar as ‘campanhas negras’ de que já se falava estarem a ser preparadas contra si nos bastidores. Ao jeito de uma jogada de ‘antecipação’. E confirmou-se. Rangel abriu a porta da sua vida íntima.

A entrevista, elogiada por uns e criticada por outros, foi vista de forma unânime dentro e fora do partido: Rangel está pronto assumir a candidatura à liderança do partido, agora sem telhados de vidro aos quais possam atirar-lhe mais pedras.

Nas estruturas do partido, as fontes ouvidas pelo Nascer do SOL garantem que o principal problema de Paulo Rangel, agora, é conseguir reunir consenso ou até unanimidade entre os opositores internos de Rui Rio.

Num cenário em que PSD recupere em número de câmaras relativamente ao PS (ganhando câmaras mesmo que pequenas e beneficando da perda de outras pelo PS para o PCP, por exemplo, na margem sul do Tejo), Rio poderá não ser fácil de apear face ao seu peso no aparelho e de alguns dos seus mais próximos seguidores.

E, por isso, é mesmo determinante esperar pela clarificação de quem, afinal, vai mesmo estar na grelha da partida, no dia seguinte às eleições autárquicas do próximo dia 26.

Rio, Rangel e Moreira da Silva já revelaram as suas intenções, ainda que não de forma expressa e formal, e Miguel Pinto Luz também está posicionado. Só falta saber o que fará Luís Montenegro e em que medida é que uma sua decisão poderá fazer reverter a decisão de algum ou de alguns do((s) outro(s).

No meio de tudo isto, o PSD assistiu ainda nesta semana a uma declaração de Pedro passos Coelho – na Fundação Gulbenkian, por ocasião da cerimónia de lançamento do livro de Jorge Moreira da Silva – desfazendo as dúvidas daqueles que sonham com um seu regresso à liderança do partido no curto prazo.

E outro antigo líder do PSD, Luís Filipe Menezes, também lançou a sua última obra, Homo Lider, com revelações e histórias vividas pelo próprio com todos os outros líderes do partido, de Francisco Sá Carneiro a Rui Rio, voltando a fazer agitar as águas já bem turbulentas dos sociais-democratas.