Opiniao

Os Dois Mundos


Por António Manuel Paula Saraiva

Arquiteto paisagista

 

As caóticas e pungentes cenas de milhares de pessoas no aeroporto de Kabul, tentando um lugar nos aviões para sair do Afeganistão vieram trazer uma vez mais à baila o problema dos “refugiados”.

Infelizmente o problema não se limita aos refugiados de guerra – ainda que não haja guerras, o fluxo de migrantes não para (1). Homens mulheres e crianças não fogem só da guerra - fogem do desemprego, dos baixos salários, da falta de cuidados médicos, da corrupção, da falta de liberdade.

A verdade, a triste verdade, é que hoje o mundo está dividido entre o “Mundo dos Ricos” e o “Mundo dos Pobres”.

Uma empregada filipina chegada a Portugal (os portugueses de Macau trazem por vezes as suas empregadas filipinas quando vêm passar férias a Portugal), ao entrar no NorteShopping, disse que “os portugueses eram todos ricos”.

E de facto eu próprio vi nas Filipinas um grande armazém, que ocupava vários andares, com dezenas de empregadas todas jovens, bem vestidas e bem maquilhadas – só que não tinha clientes.

Ora esses dois mundos viviam separados, desconhecendo-se mutuamente - o Terceiro Mundo desconhecia os outros dois, e o “Mundo dos Ricos” só conhecia o dos “Pobres” a nível paisagístico e de ideias feitas. 

Mas hoje a internet, a TV, as viagens de avião, o conhecimento de línguas, puseram esses dois mundos em contacto.

E assim os habitantes do Terceiro Mundo procuram, mesmo com risco de vida - o mar Mediterrâneo tornou-se um cemitério - entrar no “Mundo dos Ricos”. E a TV mostrou imagens de homens a deixarem cair crianças do lado americano do muro que separa o seu país do México, na esperança que viessem a ser recolhidas e criadas como “americanos” ainda que para tal os pais se vejam separados dos seus filhos, e as crianças venham a ser criadas sem pai e sem mãe.

E a somar aos problemas de alojamento dessas massas de homens e mulheres – surgem protestos dos operários dos países ricos, que veem os seus ordenados baixar devido à entrada desses imigrantes pobres, dispostos a trabalhar por qualquer preço.

Assim pensou-se em criar formas de impedir – ou pelo menos controlar - a entrada desses milhares de migrantes nos “Países Ricos” – e multiplicaram-se os muros. Nos países mais democráticos lembram-se os “direitos” desses migrantes, pelo que a construção desses muros levanta problemas de consciência. Problemas que foram “resolvidos” pagando a outros para fazer o “trabalho sujo” Assim a União Europeia para impedir uma invasão maciça de migrantes da Síria e do Iraque, paga aos turcos, pouco preocupados com os tais direitos, para lhes travar o passo, mantendo-os em campos de refugiados (2) (3). Os Estados Unidos ameaçaram o México com a imposição de tarifas alfandegárias caso este país não tentasse deter o fluxo de migrantes (4).

Mas, em maior ou menor número, há sempre migrantes, refugiados de guerra ou da fome, a entrar no “Mundo dos Ricos” E para atenuar o choque da presença/vivencia de indivíduos de diferentes com culturas na Europa e na América, afirma-se que esses migrantes terão/serão “integrados”.

Só que a integração de povos com sua cultura própria noutra civilização não é assunto simples, (como se vê pela falta de integração de muitas comunidades muçulmanas na Europa) (5). E essa “integração, se quisermos ir ao fundo da questão, é até contra os “direitos humanos”: ainda há dias o governo do Canadá pediu desculpas públicas por ter tentado “civilizar/ canadaizar” os índios aborígenes, separando crianças do seu ambiente familiar e civilizacional e levando-os para escolas religiosas internas onde eram, ou se esperava que fossem, transformados em cidadãos “civilizados” e não dependentes da assistência social (6).

Desta forma parece estarmos perante um dilema: ou abrir as portas de par em par aos habitantes do Terceiro Mundo; ou fecharmo-nos na “fortaleza europeia” – uma vez que uma abertura parcial nunca “estancará a fome” das muitas centenas de milhões de habitantes dos países pobres que gostariam de viver no nosso Mundo.

Estas duas alternativas são ambas más. Nós, europeus, não teremos direito a ser quem somos? (no caso das Américas poderia ser diferente, pois foi um continente, desde os Descobrimentos, habitado por diversos grupos étnicos). Será que a Europa, com independências arduamente conquistadas, se vai transformar numa amálgama indefinida?

Por outro lado: será razoável fecharmo-nos no nosso Mundo? Não teremos de suportar o “fardo do homem branco” como o nomeou Rudyard Kipling? (7). E, ainda que não queiramos assumir compromissos morais (o que, para uma visão religiosa da vida, não é aceitável), o Mundo defronta-se com problemas - crise climática, crise sanitária, poluição - para os quais tem que haver soluções globais.

Existe no entanto uma terceira alternativa, a que é apadrinhada pela União Europeia: lançar programas de apoio aos membros mais fracos da União de modo a desenvolve-los in loco e assim tornar desnecessárias as migrações, pois os povos passarão a encontrar, no seu próprio país, o nível de vida a proteção social, os serviços e as infraestruturas que só existiam nos mais avançados.

Infelizmente – tal como sucedeu em Portugal com os fundos da União Europeia – (mas em maior grau) muitos desses fundos acabam em mãos de privados, não cumprindo o fim social para o qual tinham sido gizados. Com o que caímos na necessidade de não nos limitarmos a enviar fundos para os países do Terceiro Mundo mas destiná-los a programas/projetos concretos e acompanhar a sua execução. Um procedimento que a China está a seguir em relação a África.

Mas não seria este procedimento uma forma de neocolonialismo? Para mais essas ajudas vêm quase sempre acompanhadas da necessidade de esses países aderirem a determinados princípios e práticas – e uma imposição da vontade de outrem é vexatória – daí a “incompreensão” face aos colonizadores de que Kipling se queixava.

Enfim, para terminar deixarei aqui o meu espanto para que um assunto tão sério, de tão graves implicações, seja discutido só a um nível superficial, ou aplicando adjectivos a quem pensa de forma diferente. As Universidades não servem apenas para dar canudos ou ensinar técnicas, nem os governos para fazerem promessas e cobrarem impostos.

 

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(1)   Para citar um exemplo doméstico e bem conhecido - a emigração dos anos sessenta de Portugal para França, que despovoava aldeias inteiras, não resultou de nenhuma guerra, nem sequer de episódios de fome (embora nas aldeias a alimentação fosse parca e limitada a certos produtos).

(2)    A União Europeia concordou em fornecer 6 bilhões de euros à Turquia destinados a assistência humanitária, educação, saúde, infraestruturas municipais e apoios socioeconómicos para refugiados sírios na Turquia entre 2016 e 2019.

(3) A Turquia recebe pagamentos do orçamento da UE como apoio de pré-adesão, atualmente 4,5 mil milhões afetados para o período 2014-2020 (cerca de 740 milhões de euros por ano).

 (4) Já nos países menos livres os muros não são sequer contestados, e os “emigrantes ilegais” são expulsos sumariamente, como sucede em Macau e Hong Kong em relação à emigração não autorizada proveniente da China continental. Essa imigração tem vindo alias a decrescer, face ao aumento do nível de vida na China.

(5)   A integração dos portugueses em França levantou alguns problemas – sobretudo quanto aos hábitos de higiene – mas as civilizações não eram muito diversas, e com o tempo as diferenças quase desapareceram. Na segunda ou terceira geração os descendentes de portugueses já são “franceses” - o futebolista Griezemann, neto de portugueses, joga pela seleção francesa.

Já a integração de argelinos e marroquinos em França levantou graves problemas. A primeira geração ainda estava grata à França, que os tinha tirado da miséria, e dado chorudos abonos às famílias numerosas. Mas a segunda e terceira gerações já pensam de maneira diferente. Não experimentaram a pobreza como seus pais, e sentem-se discriminados por viverem em bairros económicos e terem empregos secundários.

(6) Estas escolas existiram entre 1831 e 1996. Calcula-se que, ao longo destes anos, foram frequentadas por 150 mil crianças.

(7) “O fardo do homem branco”, um poema datado de 1899, de autoria do escritor inglês Rudyard Kipling, em que se afirma ser obrigação do “homem branco” defender e melhorara vida de outros povos, sem esperar senão incompreensões. Actualmente é geralmente mal visto, por se considerar ser um hino ao colonialismo.