Cultura

Anarquia nos Sex Pistols. Johnny Rotten perde caso contra a antiga banda

Depois de anos a lutar contra as convenções da sociedade, Johnny Rotten, vocalista dos Sex Pistols, luta contra os antigos membros da sua banda. Em causa estão os direitos das músicas do conjunto e se devem ou não aparecer na série Pistol, realizada por Danny Boyle e baseada no livro de memórias de Steve Jones, ex-guitarrista do grupo.


Outrora um dos pioneiros do movimento punk, nos idos anos 1970, os Sex Pistols, agora, não estão em guerra contra o sistema, mas sim uns contra os outros. O ex-vocalista da banda, Johnny Rotten, alter-ego de John Lydon, também conhecido por ter dado a voz aos Public Image Ltd, estava a tentar impedir o uso das músicas dos Sex Pistols na produção da série, Pistol, realizada por Danny Boyle, a mente por trás de filmes como Trainspotting ou Slumdog millionaire. Porém, o baterista Paul Cook e o guitarrista Steve Jones levaram o caso a tribunal e ganharam.

O argumento de Lydon prende-se com o facto das licenças para usar as músicas necessitarem sempre de ter o seu consentimento, algo que o vocalista que vociferou músicas como ‘God Save The Queen’ ou ‘Anarchy in the UK’, marcos da contracultura, considerar que na série de Danny Boyle a sua pessoa é retratada de forma «hostil» e «pouco lisonjeira».

Contudo, o antigo baterista e guitarrista do grupo, respetivamente, Paul Cook e Steve Jones, autor de Lonely Boy: Tales from a Sex Pistol (2016) – livro escrito pelo australiano Craig Pearce e o inglês Frank Cottrell Boyce que inspira o argumento de Pistol –, defendem que os Sex Pistols tinham um acordo, celebrado em 1998, segundo o qual as decisões sobre os pedidos de licenciamento das músicas poderiam ser determinadas por maioria.

Depois da derrota no tribunal, Lydon fez uma publicação no seu site oficial onde afirma que esta série irá «distorcer» a verdadeira história e legado dos Sex Pistols.

«Eu sou o vocalista, compositor, imagem, o que quiserem. Eu estive lá. Como é que isso não é relevante? É espantoso para mim. É tão destrutivo para o que a banda é», começa por escrever. 

«Temo que todo o projeto possa ser extremamente negativo. Como é que alguém pode pensar que este projeto pode prosseguir sem me consultarem enquanto lidam com a minha vida pessoal e os meus problemas, sem fazerem nenhum contacto significativo comigo antes do projeto ser anunciado ao mundo? Não acho que existam palavras para que possa explicar o quão falso tudo isto é», conclui o ex-vocalista, que já anteriormente tentou impedir o uso de músicas da banda, nomeadamente ‘God Save the Queen’ na série The Crown.

O ‘pirralho irritante’

Além deste desabafo, os representantes de Lydon publicaram no mesmo site um comunicado onde questionam a validade do acordo da banda. «É dececionante que um juiz do Tribunal Superior tenha decidido que John Lydon está vinculado por um acordo sem data assinado em 1998, que impõe aos Sex Pistols um acordo de regra de maioria em vez de um processo de tomada de decisão unânime que tem sido seguido há 23 anos. Olhando para o futuro, há uma grande incerteza sobre o que a abordagem da regra da maioria pode fazer para atenuar e distorcer a verdadeira história e legado dos Sex Pistols. O tempo vai dizer».

Num comunicado lançado em conjunto após a decisão, Jones e Cook afirmam que sempre pretenderam «trabalhar harmoniosamente» com os restantes membros da banda: «Congratulamo-nos com a decisão do tribunal neste caso. Traz clareza à nossa tomada de decisões e mantém o acordo dos membros da banda sobre a tomada de decisões coletivas. Não tem sido uma experiência agradável, mas acreditamos que foi necessário permitir-nos avançar e, esperamos, trabalhar em conjunto no futuro com melhores relações».

Apesar desta mensagem amistosa, Cook, que sempre mostrou alguma animosidade para com Lydon (chegou a descrevê-lo como «o pirralho irritante com a grande estrutura óssea que está sempre a pedir mais»), afirmou que o ex-vocalista «pode ser um personagem difícil e gosta sempre de sentir que tem controlo».

No entanto, há também «muitos elogios no livro», reagiu Jones, negando a afirmação do advogado de que se ressentia da proeminência e do perfil de Lydon, por ser o membro mais conhecido dos Sex Pistols.
Questionado diretamente sobre se não gostava de Lydon, Jones admitiu: «Acho que sim», lembrando que os dois não se falavam desde 2008, ano da última digressão de reencontro da banda.

Jones, que está em Los Angeles e por isso testemunhou via online, considerou natural haver desentendimentos entre os elementos da banda: «Acho que há muitas bandas que se ressentem», disse.

Trump é a única esperança

Formados em Londres em 1975, os Sex Pistols foram pioneiros da música punk em Inglaterra e, apesar de apenas terem existido oficialmente durante cerca de dois anos e meio, o seu impacto na música popular ainda é hoje sentido, desde os instrumentais minimalistas e rápidos até à atitude dos integrantes do grupo, nomeadamente Sid Vicious, icónico baixista do grupo, que morreu em 1979. Apesar de não ser o músico mais talentoso, o seu estilo foi imitado por diversas gerações de punks.

Agora, com os direitos das músicas assegurados, Pistol está pronta para continuar o processo de pós-produção. 
A série terá seis episódios e do elenco fazem parte, entre outros, Anson Boon (Rotten), Jacob Slater (Cook), Toby Wallace (Jones) e Louis Partridge, no papel do baixista Sid Vicious, que morreu em 1979.
Na série estarão ainda ficcionadas outras personalidades marcantes desta época, como o empresário Malcom McLaren, Nancy Spungen, namorada de Sid Vicious, o realizador Julien Temple e os músicos Billy Idol, Chrissie Hynde e Siouxie Sioux.

Nos últimos anos, Lydon tem parecido uma sombra das ideias que costumava defender, tendo aparecido no ano passado, durante as presidenciais norte-americanas, a defender o ex-Presidente Donald Trump no programa Good Morning Britain.

«Para mim, faz todo o sentido votar em alguém que fala para as pessoas como eu. O Trump não é um político. Nunca disse que o era. Isso é maravilhoso para pessoas como eu, da classe trabalhadora. Estamos fartos das ideias intelectuais da esquerda, que não percebe o que a população quer», disse, na altura, o antigo vocalista.

Durante a entrevista, depois da apresentadora do Good Morning Britain ter perguntado ao músico dos Sex Pistols qual era a sua opinião sobre a política de Donald Trump em relação à política internacional, Lydon fez questão de elevar o tom de voz: «Deixa-me acabar! Não faz nada por estas pessoas! Nada! E por nisso é que elas o apoiam de forma tão fiel, porque ele é a única esperança».

Esta não foi a única demonstração de apoio por parte do vocalista. Lydon, com 64 anos de idade, já foi capturado em fotografias a envergar uma t-shirt vermelha onde dizia ‘Make America Great Again’, o controverso slogan do ex-Presidente Donald Trump.