Cultura

José-Augusto França. O homem que nunca na vida se aborreceu

Mais de sete décadas de atividade, cerca de 100 livros publicados. José-Augusto França foi um nome essencial
na divulgação e crítica cultural e o fundador do primeiro curso de História de Arte. Faleceu no sábado, aos 98 anos.


Aos 90 anos, numa entrevista no Jardim da Estrela (local onde passou muitas manhãs, mesmo no inverno, a ler, a escrever ou a receber amigos) disse ao semanário Sol que os cigarros já lhe tinham deixado de saber bem. Mas interrogado sobre a última vez que fumou, respondeu (com sentido de humor) que tinha sido há meia hora atrás: “Um cigarro sentimental por causa desta envolvência”, explicou.

Escrevia sempre à máquina, riscava e escrevia por cima, acreditando que os cortes e acrescentos ofereciam ao texto “um grafismo involuntário” que o transformava. Só lia imprensa estrangeira e, apesar de um amigo lhe ter oferecido um computador, não era amante das novas tecnologias: “Deram-me um computador, eu agradeci, mas está desligado. Não lhe mexo!”, admitiu.

Preferia passar os dias entre as estantes de livros, entre os filmes franceses (que nunca eram de mais) e os passeios na sua “propriété” de três hectares, em França, onde vivia com a mulher, a historiadora de arte francesa Marie-Thérèse Mandroux: “Estou levantado e pronto de pequeno-almoço tomado por volta das dez, dez e meia, vou para a biblioteca, fico à espera do correio que chega pela janela – estou no rés-do-chão e o carteiro traz-me as cartas à janela, por consideração especial. De manhã escrevo, leio, anoto coisas – televisão não, de manhã jamais! –, oiço música, evidentemente, e passeio, quando está bom tempo”, descreveu José-Augusto França. “E depois, o resto do dia, vejo programas de televisão sobretudo do Maigret, do Simenon. É simplesmente genial!”, acrescentou, admitindo que via dois filmes, um atrás do outro. Quando o relógio marcava a meia-noite e meia, deitava-se e lia até às duas da manhã. “Enfim, é uma vida pacata, como vê, nonagenariamente pautada”, afirmou em 2016.

Infelizmente, esse vigor foi abalado dois anos depois, quando França sofreu um acidente vascular cerebral. Depois do acontecimento, foi operado e permaneceu na casa de saúde de Jarzé, até ao passado sábado, dia em que nos deixou, aos 98 anos. “Nunca na vida me aborreci. Aborreço-me com a vida, na vida não! Quando há interesses – ou oiço música ou vejo filmes, ou leio, escrevo… – uma pessoa não se aborrece”, dizia.

E não nos admiramos. Como haveria de se aborrecer um homem que foi historiador, sociólogo, professor catedrático, crítico e argumentista de filmes, galerista, editor de revistas e escritor e co-empresário teatral? Como haveria de se aborrecer aquele que é considerado uma das maiores referências culturais e da História da Arte portuguesa dos séculos XIX-XX? A sua vasta obra atravessa todos os géneros, do ensaio à ficção e o seu legado enriquecerá para sempre a história de um país: além da sua obra literária, histórica, crítica e memorialística, José Agusto França, deixa um arquivo pessoal e parte da sua coleção de arte – que permanecem com um zelo quase desconhecido no país e sistemicamente confiados a instituições como a Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, a Biblioteca Nacional, a Imprensa Nacional e o “núcleo de arte contemporânea” que tem o seu nome em Tomar (a sua terra-natal) – destacou-se também com uma grande atividade no ensino, criando os primeiros mestrados na área da História da Arte no país.

 

A caminhada académica e os primeiros passos na literatura

O historiador cuja ligação à arte era “quase respiratória” nasceu na província do Ribatejo (Tomar) a 16 de novembro de 1922. Filho de um contabilista, acabou por se mudar para a capital prematuramente, já que o seu pai conseguiu emprego na Companhia das Lezírias: “Hoje Tomar é para mim uma lembrança histórica”, contou na mesma entrevista.

Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1944, partiu para Paris como bolseiro do Estado francês, em 1959, onde permaneceu até 1963, realizando estudos com o conhecido sociólogo e historiador Pierre Francastel. Lá, obteve os graus de doutor em História pela Universidade de Paris em 1962, com Une Ville des Lumères: la Lisbonne de Pombal, que viria a ser publicado em Portugal como Lisboa Pombalina e o Iluminismo, e fez o doutoramento em Letras pela mesma universidade em 1969, com Le Romantisme au Portugal.

Na capital francesa, a que acabou por manter-se sempre ligado apesar de considerar a maior parte dos franceses “chauvinistas”, “bebeu” dos intelectuais portugueses ali exilados, como António José Saraiva e Joaquim Barradas de Carvalho, tendo conhecido e privado também figuras destacadas da cultura francesa, como o filósofo e crítico literário Roland Barthes, o poeta André Breton, o mentor do Maio de 68 Daniel Cohn-Bendit e o galerista Daniel-Henry Kahnweiler, que lhe contava histórias sobre Picasso.

Talvez tenha também sido por essas partilhas de conhecimento que acabou por ser considerado responsável por estabelecer um cânone na historiografia da arte do século XIX e XX. Marcos desse cânone – numa obra que se estende por mais de meia centena de títulos e décadas de trabalho e de investigação – são A Arte em Portugal no Século XIX (2 vols.), A Arte em Portugal no Século XX, O Retrato na Arte Portuguesa e o 3.º volume do Dicionário da Pintura Universal, publicado pela antiga editora Estúdios Cor, inteiramente dedicado à ‘Pintura Portuguesa’, que coordenou com Mário Chicó e Armando Vieira Santos. Além do seminal Lisboa Pombalina e o Iluminismo.

 

O amor pelas artes visuais

O seu interesse pela pintura manifestou-se em 1946, na sequência de viagens a Espanha e Paris, seguidas de viagens à Europa e às Américas até se fixar em Paris, em 1959. Como autor de referência, na área das artes visuais e da cultura, entre as suas obras destacam-se igualmente os estudos como História da Arte Ocidental 1780-1980 (que considerava o seu livro menos conseguido), Do Romantismo 1824, Antes e Depois, Os Anos 20 em Portugal ou o ensaio dedicado ao pintor flamengo do século XVI Hieronymus Bosch, autor das Tentações de Santo Antão, Bosch o Visionário Integral.

Entre 1947 e 1949, participou nas atividades do Grupo Surrealista de Lisboa, tendo tido um papel polémico de oposição ao neorrealismo e aos seus protagonistas. Na década de 50, assumiu a defesa do abstracionismo, tendo organizado o primeiro salão português, dedicado a esta expressão, na Galeria de Março – surgida na sequência da mostra surrealista na antiga Casa Jalco, ao Chiado –, que dirigiu entre 1952 e 1954 (em parte com Fernando Lemos). “Ora essa! Pintei e até expus no primeiro Salão Surrealista em 49. Os quadros eram maus, só com alguma imaginação, mas eu não tinha técnica nenhuma de pintura. Durou dois ou três anos, não tem importância. Mas a minha ligação à arte é de necessidade. Respiratória, digamos”, respondeu ao Sol, interrogado sobre se alguma vez tinha pegado num pincel para pintar um quadro.

Publicou os seus primeiros artigos de crítica de arte no Horizonte, Jornal das Artes, primeiro de muitos jornais e revistas de especialidades onde viria a destacar-se. Ao mesmo tempo, escreveu monografias sobre artistas como Amadeo de Souza-Cardoso e Almada Negreiros, Rafael Bordalo Pinheiro, António Carneiro, Columbano, José Malhoa, António Pedro e foi um dos maiores especialistas em Maria Helena Vieira da Silva, com quem privou.

No domínio da ficção, publicou um primeiro romance em 1949, Natureza Morta (inspirado na experiência que viveu na África colonial) seguindo-se, em 1958, um livro de contos. Depois, fez um prolongado interregno, voltando a publicar com mais regularidade, lançando obras como Buridan em 2002, A Bela Angevina, em 2005, José e os Outros, em 2006, Ricardo Coração de Leão, em 2007, João sem Terra, em 2008 e A Guerra e a Paz, em 2010.

José Augusto França foi também professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa, desde 1974, onde criou os primeiros mestrados de História de Arte do país. Esta ramificação da carreira aconteceu após a Revolução de 25 de Abril, quando deixou para trás a certeza de integração no Centro Nacional de Investigação Científica de França (CNRS, na sigla original). O professor foi também presidente da Academia Nacional de Belas Artes, membro do Comité Internacional d’Histoire de l’Art e presidente de honra da Association Internationale des Critiques d’Art.

 

A Memória do historiador

Em 1991, recebeu as insígnias de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique; um ano depois a Medalha de Honra da Cidade de Lisboa e a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública; em 2006, a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e em 2012 a Medalha de Mérito Cultural, do Governo português.

“Numa época em que a arte portuguesa tem vindo a alcançar o reconhecimento internacional há muito devido, é justo lembrar o muito que devemos a quem incansavelmente produziu um discurso crítico e histórico sobre as artes em Portugal. E ninguém o faz com mais intensidade, sabedoria e distinção do que José-Augusto França”, escreve Marcelo Rebelo de Sousa na nota de pesar publicada na página da Presidência.

Por sua vez, o primeiro-ministro sublinhou o perfil pioneiro do historiador e crítico de arte, assim como a investigação que desenvolveu sobre a cidade de Lisboa: “Historiador e crítico de arte portuguesa, autor de estudos pioneiros que continuam a ser obras de referência, José-Augusto França dedicou a sua vida à cultura. Era um notável olisipógrafo, que tive o privilégio de conhecer”, escreveu António Costa na sua conta oficial no Twitter. Já o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, descreveu José-Augusto França como “um homem notável que permanecerá enquanto uma referência na História e na Cultura nacionais”.