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Afirmações sobre a Galp em Matosinhos deixam primeiro-ministro debaixo de fogo

Afirmações sobre a Galp em Matosinhos deixam primeiro-ministro debaixo de fogo. “Em julho passado, o PS chumbou o nosso projeto para travar os despedimentos”, lembrou Jerónimo de Sousa.


António Costa está sob ferro e fogo – e nem levantar a cabeça pode, uma vez que as balas saem disparadas dos dois lados da barricada. Tanto a esquerda como a direita reagiram furiosamente às declarações em que prometia “dar uma lição exemplar” à Galp devido à “insensibilidade” demonstrada pela empresa no processo de encerramento da refinaria de Matosinhos. E os trabalhadores, 1600 – que, em vão, suplicaram pela intervenção do Governo –, dizem-se “estupefactos” pela tomada de posição do primeiro-ministro.

Quanto a críticas, a esquerda mune-se, sobretudo, da narrativa social no contexto da defesa dos trabalhadores e acusa Costa de hipocrisia. Já a Direita mune-se, sobretudo, da narrativa económica no contexto da defesa das liberdades empresariais e acusa Costa, também, de hipocrisia. Caso raro este em que, uma declaração – que muitos acusam de ser só uma ‘cenoura eleitoral’ para a cidade (que já é PS) – fez disparar as armas de todos os cantões da política nacional.

Vamos aos factos: o primeiro é que o Estado detém uma participação na refinaria da Galp em Matosinhos. O segundo é que, em maio, António Costa não lançou críticas tão duras sobre o encerramento da refinaria, considerando-o um ‘pau de dois bicos’: “[o encerramento] foi um enorme ganho para a redução das emissões, mas, também, um enorme problema pela necessidade de garantir emprego e todos aqueles que aqui trabalhavam”. A mesma posição manifestada pelo ministro do Ambiente. Em quatro meses, o encerramento da refinaria, que representava “um enorme ganho para a redução das emissões”, passou a ser uma gravíssimo crime laboral ao ponto de o primeiro-ministro ameaçar a empresa’: “Quem se porta assim tem de levar uma lição” – atirou Costa em Matosinhos.

Costa “adapta o discurso à audiência” No entender de Carlos Guimarães Pinto, economista e antigo líder do IL, o primeiro-ministro “adapta o discurso à audiência”: “Costa fez essas declarações porque estava em Matosinhos, certamente perante algumas pessoas que tinham perdido o emprego na refinaria. Se fosse em Lisboa, perante ambientalistas, dizia que tinha encerrado a refinaria por questões de transição energética”. Não é, aliás, a primeira vez que o faz, continua, referindo-se ao caso em que “em frente a uma plateia na Católica [na questão dos cursos de Medicina], deu os parabéns à instituição por ter conseguido combater as burocracias do próprio governo que chefia”.

Para Guimarães Pinto, é “inconcebível” a ideia de que “não tenha havido diálogo com o Governo sobre a forma como iria fechar a refinaria”. “Isto é típico António Costa: discurso eleitoralista em que vale tudo”, conclui.

Costa “descredibilizou a política” Saltando para a barricada esquerda do campo, ao i, a historiadora Raquel Varela considera as declarações de António Costa “profundamente oportunistas” e “descredibilizadoras da política”. Tal, deve-se ao facto de, no contexto do encerramento da Galp, “Costa ter tido oportunidade de atuar e não o ter feito”. É, por isso, “de um enorme oportunismo, agora, em campanha eleitoral, enquanto chefe de Governo, dizer isto”.

No entender da investigadora e professora universitária, é “evidente” que António Costa “tinha meios políticos para impedir que a Galp encerrasse com esta frieza e desrespeito pelos trabalhadores”, não deixando escapar um puxão de orelhas ao socialismo do primeiro-ministro: “Ainda se espera de Costa uma palavra sobre a renacionalização da Galp, pois essa é a resposta que se esperaria de alguém socialista. Este era um excelente momento para renacionalizar a Galp, e Costa não o fez”.

No entender de Raquel Varela, a “população está profundamente desmoralizada porque a política profissional se vai desacreditando com a falta de intenção de verdade, com o oportunismo e com a falta de ética”. Por fim, remata: “Tudo isto contribui para descredibilizar a política e estas declarações são naturalmente parte desse oportunismo”.

Costa é “papão dos empresários” Começando pelos partidos à direita, Francisco Rodrigues dos Santos, líder do CDS-PP, aconselhou António Costa a não ser um “papão” dos empresários: “Referia-se, em maio, ao encerramento da refinaria de Matosinhos como um grande exemplo da aposta nos desafios ambientais e hoje vem, qual papão dos empresários, dizer que é preciso dar uma lição exemplar à Galp”, disse. Numa arruada na Madeira, o líder centrista realçou ainda que, em vez de dar conselhos aos empresários, Costa deve “preocupar-se mais” com as empresas do Estado, como a TAP, cuja gestão diz ser “absolutamente ruinosa”.

André Ventura, juntando-se ao coro de críticas, acusou o primeiro-ministro de “hipocrisia”: “É uma grande hipocrisia do primeiro-ministro para com os trabalhadores, uma vez que a comissão de trabalhadores tentou sem sucesso falar com António Costa e o PS e agora ele diz que quer dar uma lição exemplar à Galp. Não o fez, nem o queria a fazer”. O líder do Chega adiantou, ainda, que o Estado poderia ter tido influência de forma a evitar o encerramento, encontrando no facto de o PS estar em campanha eleitoral a razão para o discurso do primeiro-ministro.

“Lágrimas de crocodilo” Quem também partiu em violento ataque a António Costa foi o líder do PCP, Jerónimo de Sousa. Evidenciando que o “Estado é o segundo maior acionista” da refinaria e que esta chegou a este estado devido à “passividade e cooperação do governo”, Jerónimo afirma que o primeiro-ministro “bem pode vir carpir mágoas sobre os trabalhadores” que estas não passam de “lágrimas de crocodilo”.

Em campanha em Odemira, Jerónimo de Sousa disse ainda que o primeiro-ministro falou “como se os grandes monopolistas tivessem coração em vez de um cifrão”, expondo outro elemento: “Em julho passado, o PS chumbou o nosso projeto para travar os despedimentos coletivos em massa [na Galp] e nunca acompanhou as medidas que propusemos para impedir o encerramento da refinaria de Matosinhos”.

Em Espinho, Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, ironizou a situação e acusou Costa de cinismo: “Estava a ouvir António Costa e pensava: ‘bem, se quem pensa assim fosse primeiro-ministro e tivesse votado a proposta do BE sobre os despedimentos…’”. A líder bloquista notou ser “estranho [que] a mesma pessoa que chumbou as propostas para defender os precários da Galp esteja agora chocada”, algo que se intensifica por o Estado que governa ser acionista da empresa. Assim, conclui, sem panos quentes: “A política não pode ser esse exercício de cinismo”.

Quanto à ”lição exemplar” prometida pelo primeiro-ministro, não foi concretizada. A empresa também não fez comentários.