Opiniao

Tá Mar

Neste momento em que configuro, valer a pena não se ficar politicamente em terra, digo e repito Tá Mar


por Joaquim Silva Pinto
Gestor

Na reta final desta reflexão em três artigos, avancemos, como me comprometi, para o melindroso tema do perfil preferencial para líder do amplo movimento socio-liberal, que no atual contexto português corresponde a escrever sobre o novo presidente do PSD, liberto que seja o Partido do subjacente entendimento de Rui Rio com António Costa, traduzido na omissão de críticas de fundo ou mal escolhidos reparos. Tudo afinal favorável à preponderância socialista. A incapacidade de Rio de congregar o apoio dos que devia chefiar, cria não só desmotivação naqueles como a perplexidade de quem vence como consequência do adversário entrar na liça batido. Adivinha-se que perto de uma dezena de militantes se perfila para a sucessão em vésperas do congresso de janeiro, face ao resultado nas eleições autárquicas vendo crescer o Chega e o PS vitorioso na larga maioria das câmaras municipais e juntas de freguesia. Alguns desses pré-candidatos apresentam como justificação o haver sido preteridos nas listas eletivas, outros a fidelidade a Passos Coelho, argumentos só por si insuficientes para garantir eficácia no virar da página. Nessa medida, resulta tranquilizador elencar condições para autenticar o líder. Destacarei cinco para suscitar debate.

Em primeiro lugar, a exigência de assumir convictamente o liberalismo sustentado, que implica a conjugação, nem sempre de concretização fácil na hora das opções concretas, entre liberdade, iniciativa, competitividade, meritocracia, ambição e criação de riqueza, com parâmetros de cariz social e resguardo ambiental. O liberalismo sustentado corresponde, em clima de globalização, ao que foi a social-democracia como solução conciliadora entre crescimento e justiça social, levando a objetivos de desenvolvimento. Aceite-te se, embora, a tendência económico-social do liberalismo reformista em lugar da preferência socioeconómica da lembrada Esquerda nórdica, porque vingou a prioridade atribuída ao comércio livre promotor da redução de défices a nível mundial, acentuando embora a disparidade entre ricos e necessitados no âmbito nacional, porque a economia tem os seus segredos.

Depois, há que ser intransigente na fronteira entre sócio liberalismo e Direita reacionária, como na Esquerda Soares, enquanto lúcido, sempre soube separar as águas em relação ao socialismo estatizante, valorizando com isso o PS, património que Costa delapidou. Mal andariam os que no centro-direita viessem agora promover ‘geringonças’ correspondentes, mesmo que com os parafusos melhor apertados. O renovado PSD não pode ser companheiro do Chega no Governo, nem colar-se-lhe numa aliança parlamentar global. Deve sim dialogar caso a caso, pois as boas iniciativas valem por si, ou seja, sem preconceitos.

A terceira condição essencial consiste, quanto a mim, no firme compromisso de uma gestão competente e austera. Impõe-se a proclamação de que o Governo não terá mais de 30 elementos, desencadeando a partir daí a redução de gastos, o apuramento do equilíbrio entre custo e benefício, a sistemática eliminação de conflitos de competência positivos ou negativos, bem como de alongados circuitos burocráticos frequentes no seio do provocatório Governo de 70 membros da atual corte luso-marajá. Num exercício académico, na companhia de dois especialistas, revista a Administração Pública com a clarificação de atribuições, setor por setor, chegámos ao número de 28 membros do Governo com dez horas de trabalho diário como é próprio desse nível de responsabilidades, remuneração e mordomias. Evitar-se-iam, obviamente passeatas em grupo com o pretexto de martelada propaganda de terceiro mundo. A sedução do voto pela transparência de objetivos e processos, a ética republicana a sobrepor-se à ganância deslizante para a corrupção, a começar pelo amiguismo cúmplice. Sócrates foi causa, mas também vítima, do socratismo.

Essencial também que o líder interiorize sincero respeito e até orgulho na cultura portuguesa. Fomos forjados por uma História de grandes eventos, que nos valoriza sem prejuízo de no catecismo de hoje algumas atitudes gostássemos de terem sido diferentes. Contudo, somos referência nos manuais escolares da maioria dos países, como responsáveis por notáveis avanços no conhecimento da navegação, geografia e ciências naturais, incrementando ao mesmo tempo relações entre povos; passámos de condado a país independente com a bênção papal; definimos as fronteiras não só de Portugal, mas do Brasil, Angola, Moçambique, hoje nações porque a língua lusíada o justifica; levámos no século distante a Europa ao Japão; a China não esquece o que representou Macau. Os imigrantes, refugiados, visitas não nos devem considerar um mero local de destino, porque somos Pátria. O liberalismo defensor da globalização não se opõe, antes valoriza a identidade própria.

Por último, o líder, exatamente por ser assumidamente português, tem a ganhar em possuir por curriculum o perfil cosmopolita de atualizado cidadão do mundo, que faltou a Salazar, que não a Caetano, ganhando maior expressão com Soares e gradualmente Cavaco, Sampaio, Guterres, Durão e Passos. Assim se evitarão nítidas situações de embaraço patentes com Sócrates e Costa, sendo certo que, a nível de menor responsabilidades, ganharam pontos Constâncio, Gama, Portas, Centeno e Maria Luís Albuquerque, esta especialmente querida junto dos meios decisórios alemães. Nesse aspeto, o PSD tem indiscutivelmente quadros credenciados. Saliento o que de muito bom se pensa de Moreira da Silva na OCDE, a cujo elenco diretivo ascendeu por concurso. Não se menospreze o prestígio na UE de Moedas e Rangel, nem o determinante papel de Pedro Reis como ativador da diplomacia económica à frente da AICEP. Com isto ficarão comparativamente desfavorecidos candidatos mais ligados aos meandros parlamentares e partidários. Contudo, o mais importante será evitar o predomínio dos que, gostando de se ouvir, atrasam passar do discurso à ação. O guterrismo na sua boémia oratória não é exclusivo da Esquerda.

Seja como for, tenho a convicção de que estamos em maré de profundas alterações no tecido partidário na Esquerda e no Centro. Daí o título que escolhi para esta série de artigos lembrando o começo de vida ativa, quando desempenhava funções de subdelegado do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência no distrito de Leiria. Durante ano e meio, até vir exercer importantes funções em Lisboa, onde nascera e medrara, passava semanalmente duas noitadas na Nazaré. Tinha em 1959 vinte e três anos, estava solteiro, dispondo de carro próprio e algumas economias recolhidas no apoio a escritórios de advogados, enquanto estudante. Convivi então com numerosas famílias de pescadores num período severo onde com frequência não havia condições para a pesca, do que resultavam carências dramáticas, que não esqueci, a partir de 68, como subsecretário de Estado das Obras Públicas com o dossier do porto de abrigo, depois como secretário de Estado e ministro responsável pelo seguro social.

Ora, na Nazaré da minha saudade, se a madrugada fazia acreditar poderem-se formar as campanhas para se enfrentar riscos com suficiente confiança passava-se, de porta em porta, o aviso com a força de uma convocação: Tá Mar. Nunca havia a certeza do regresso tranquilo, contudo era o alvoroço do repto, o pão a vir para a mesa sem necessidade de recorrer ao crédito, a alegria do vira das mulheres das sete saias, a oração à Senhora do Penedo, onde o almirante de Afonso Henriques se salvara, enquanto crente, nas brumas da lenda.

Neste momento em que configuro, valer a pena não se ficar politicamente em terra, digo e repito Tá Mar. Não esqueço convictos e honrados socialistas tão legitimamente incomodados com as hipóteses da sucessão de Costa, recentemente apontadas pelo próprio. Todavia focalizo-me, no âmbito do liberalismo sustentado, em válidos candidatos disponíveis no PSD, que confio venham a harmonizar-se em equipa. Seria estúpido não reconhecer os indícios de uma nova fase da vida portuguesa mais participativa, epistocrática (eleição seletiva) e europeia até pela influência dos ventos provenientes da União com reforçada pronuncia alemã. Reputados analistas começarão a considerar como não distante a IV República. Efetivamente, os ditames do PREC foram-se esvaindo em razão do tempo, mas também do modo.