Cultura

Uma visão menos negra do inferno

Visões de Dante. O Inferno segundo Botticelli, na Gulbenkian, oferece a oportunidade rara de ver como um artista maior do Renascimento interpretou o maior poema da Idade Média.


Não é todos os dias que temos oportunidade de ver em Lisboa uma obra saída da mão de Sandro Botticelli, um dos artistas fundamentais do Renascimento italiano. Essa oportunidade rara surge agora que se comemoram os 700 anos da morte de Dante, na exposição Visões de Dante. O Inferno segundo Botticelli, patente no Museu Calouste Gulbenkian até 29 de novembro. 

António Filipe Pimentel, que inaugurou a sua primeira exposição temporária no papel de diretor do museu, apresentou-a como «um pequeno concerto que é um grande concerto», «uma pérola». E, de facto, se o nome de Botticelli evoca pinturas célebres como A Primavera ou O Nascimento de Vénus (ambas na Galeria dos Ofícios, em Florença), o que temos aqui são dois desenhos em pergaminho. Nada dos azuis e verdes que associamos ao pintor, nada das suas subtis modulações de tonalidade, apenas a linha despojada.

«Pegando nas palavras do nosso diretor, diria que isto seria um concerto de música de câmara, com poucos elementos, mas extraordinários», descreve João Carvalho Dias, vice-diretor do museu e curador da exposição. A mostra «parte de uma oferta da Biblioteca Apostólica Vaticana, no sentido da comemoração dos 700 anos da morte de Dante Alighieri. E para assinalar essa efeméride fazia sentido convocar Sandro Botticelli. A Biblioteca Apostólica Vaticana tem sete desenhos desse conjunto que Botticelli executou, deixados inacabados, os restantes 85 estão na Kupferstichkabinett [Gabinete de Gravuras] de Berlim», explica.

Estas duas folhas fariam parte de um manuscrito singular, encomendado ao artista por volta de 1480,+ por Lorenzo de Pierfrancesco de Medici (um primo de Lourenço de Médicis), o mesmo mecenas que lhe encomendou os já mencionados A Primavera e O Nascimento de Vénus. O artista inovou até na forma como o livro devia ser manuseado. «Ao passo que num livro convencional folheamos as páginas da direita para a esquerda, o livro que Botticelli fez folheava-se de baixo para cima», esclarece o curador.

«Sandro Botticelli traz um elemento de ruptura à forma como a visão de Dante podia ser interpretada. Ele expande essa visão, porque incorpora elementos seus, não vai ilustrar os cantos ipsis verbis seguindo as palavras de Dante, vai acrescentar a sua própria visão», continua.

Esta visão, note-se, não é evidente à primeira. Embora Botticelli seja habitualmente um pintor de uma clareza cristalina, aqui a primeira impressão é de um caos primordial. Afinal, estamos a falar das entranhas do Inferno.

‘Como entrar num quarto escuro’

Um olhar mais desatento ou apressado terá dificuldade em destrinçar nas folhas de pergaminho as linhas traçadas a ponta de prata e chumbo pelo mestre florentino.

«A dificuldade de interpretar os desenhos é como entrar num quarto escuro», compara João Carvalho Dias. «Quando entramos num quarto escuro não vemos nada. Mas se nos dermos tempo – cinco, dez minutos – tudo se revela. Estes desenhos exigem de nós esse tempo. Um tempo que deixámos de ter no aqui e agora». Há pois que desacelerar o ritmo para apreciar devidamente estas obras.

«Os desenhos têm relação entre si», prossegue. «Botticelli constrói um livro com uma narrativa pictórica que vai seguindo, um pouco como a banda desenhada. Os elementos que estão num fólio seguem para o próximo».

Aproximando-nos, conseguimos ver um centauro a apontar uma flecha aos condenados. É o episódio de Flagetonte – um rio de sangue tão quente que borbulha, onde se afogam os violentos – e os Centauros.

O outro desenho é talvez de ainda mais difícil decifração, embora se distingam sem dificuldade os indícios de uma floresta cerrada. «Esta vegetação vai estar no canto XIII, que representa os danados que cometeram crimes sobre si próprios e acabam por ficar apanhados e engolidos pelas árvores, depois de terem estado a serem perseguidos por cães vadios e por harpias que tentavam picar-lhes a cabeça», esclarece João Carvalho Dias.

Na vitrina central, onde a Biblioteca Apostólica Vaticana exigiu que figurassem apenas obras da sua coleção, juntam-se livros como «o primeiro comentário integral da Divina Comédia, de Jacopo della Lana», homem de letras bolonhês que terá vivido entre 1278 e 1358, ou aquele que é conhecido como ‘Dante del Boccaccio’ . «Boccaccio tem um papel central na divulgação da Divina Comédia, ele próprio recitou a Divina Comédia nas ruas de Florença, era um encargo que a República lhe tinha dado».

Como notou John Took, biógrafo de Dante e professor emérito de Estudos de Dante no University College de Londres, em entrevista ao SOL em julho: «É Boccaccio quem, no seu comentário escrito em meados do século XIV, lhe chama ‘Divina’. E também é frequentemente assim referida durante o Renascimento. Dante nunca usa essa palavra, chamou-lhe apenas ‘Commedia’. E Comédia aqui não significa ‘ah, ah’, mas um percurso de dificuldades com um final feliz. Isto está numa carta que Dante escreveu a Cangrande della Scala. Se a tragédia é o relato de uma descida gradual e agonia da experiência humana, a comédia é o relato da ascensão gradual. É isso que temos na Divina Comédia: uma ascensão em direção ao auto-reconhecimento, auto-reconfiguração e auto-transcendência. Inferno, Purgatório e Paraíso», disse então o especialista.

A labareda invertida e a faca de papel

João Carvalho Dias chama ainda a atenção para o fac-símile («o original não sai do Vaticano») do ‘Dante Urbinate’, uma encomenda que Federico da Montefeltro, duque de Urbino, fez a Gugliemo Girardi. O contraste é notório: «Enquanto o Dante Urbinate é um livro convencional, de raiz medieval, em que a ilustração é subordinada ao texto, em Botticelli essa relação é equitativa», aponta o curador.

Há mais livros na exposição com histórias para contar. Mas as obras que se destacam são sem dúvida a escultura de Rui Chafes, «uma labareda invertida» (na parede oposta exibe-se um desenho do mesmo artista intitulado ‘Inferno (a minha fraqueza é muito forte)’, de 2011) e duas outras obras pertencentes ao museu.

A primeira é uma escultura de Auguste Rodin, de 1884, que originalmente representava o casal de amantes Paolo Malatesta e Francesca da Rimini, que Dante coloca no Inferno por terem cometido o pecado do adultério (Francesca era casada com o irmão de Paolo). «Inicialmente foi pensada como um elemento para a Porta do Inferno, em que Rodin estava a trabalhar», explica João Carvalho Dias. Mas, dado que os amantes «estavam demasiado felizes e não eram adequados à porta do Inferno», Rodin acabaria por transformar a escultura na bem mais optimista Eterna Primavera.

A outra peça notável, ainda que de pequenas dimensões, é uma faca de papel de marfim criada por René Lalique. Mostra «um livro aberto de onde saem todos os monstros que habitam este percurso dantesco».
Separados por mais de quatro séculos, os desenhos de Botticelli e a faca de Lalique partilham a mesma elegância da linha, mas também o mesmo sentido de decadência moral.

Visões de Dante. O Inferno Segundo Botticelli é acompanhada por um programa de ‘Conversas em torno de Dante’, que contou ontem com uma palestra do cardeal Tolentino de Mendonça e encerra com ‘Ler Dante’, por Alberto Manguel, a 24 de novembro. A programação completa, que inclui ainda um concerto de música do tempo de Dante (10 de novembro), pode ser consultada no site da Fundação.