Viver para contar

Escrever para a História

Após a publicação da trilogia sobre o Estado Novo, recebi testemunhos que confirmam dois episódios que descrevi ao arrepio da história oficial.


Na trilogia que publiquei recentemente sobre o Estado Novo, apresentei versões diferentes da história ‘oficial’ sobre, entre outros, dois acontecimentos: a queda de Salazar da cadeira e a atuação de Marcello Caetano quanto às colónias africanas. No primeiro caso julgo que provei, sem margem para dúvidas, que não houve qualquer queda da cadeira; no segundo, defendi a ideia de que Marcello Caetano tentou, sem sucesso, promover em Angola e Moçambique independências brancas.

Na sequência da publicação do livro – e de referências na comunicação social a seu propósito – recebi dois testemunhos importantes que vieram corroborar o que escrevi.

O primeiro foi de Maria Teresa Burnay da Costa Pessoa, cujo pai, Henrique Owen Pinto de Barros Costa Pessoa, era amigo pessoal de António Vasconcellos Marques, o médico que operou o hematoma de Salazar. Ele era visita corrente da casa, e passava lá vários serões a conversar. 

Ora, lendo n’O Diabo um artigo que contestava a minha versão sobre o acidente sofrido por Salazar, Teresa Burnay – que eu não conhecia – fez questão de me contactar dizendo que, nas conversas em sua casa, Vasconcellos Marques «nunca falou em ‘queda da cadeira’ mas sempre em ‘queda na banheira’». E adianta: «O António era um homem que gostava de viver à noite. Muitas vezes operava à noite. E quando ia a nossa casa ficava até tarde a conversar. Nós, as mais jovens, íamos andando por ali e ouvindo as conversas. Nunca se referiu à queda de uma cadeira.»

Acrescente-se que, em declarações públicas que citei no meu livro, feitas um tempo depois da operação a Salazar, o cirurgião afirmou que um hematoma com aquelas características não poderia ser provocado pela queda de uma cadeira.

Este episódio, não tendo uma grande importância histórica, tem um interesse evidente. Primeiro, não é irrelevante saber como ocorreu o acidente que acabaria por afastar Salazar do poder. Depois, trata-se de corrigir um mito, pois a ‘queda’ de Salazar da cadeira assumiu um indiscutível valor simbólico.

Do ponto de vista histórico, porém, a outra questão tem mais importância.

Em fins de 1973, Marcello Caetano estava encurralado: os dois chefes máximos das Forças Armadas, Costa Gomes e Spínola, mostravam-se contrários à política colonial, muitos oficiais fustigados por sucessivas comissões em África encaravam com sérias reservas nova mobilização para a guerra, e os oficiais do quadro permanente estavam revoltados com um decreto que favorecia o acesso dos milicianos à carreira militar. O chefe do Governo via-se à beira de não ter exército para fazer a guerra.

Por outro lado, Marcello Caetano recusava-se a negociar com os movimentos africanos que lutavam pela independência, contra as nossas tropas: era uma questão de princípio. Assim, em desespero, tenta uma última cartada: incentivar os governadores de Angola e Moçambique a declararem a independência unilateral, à semelhança do que acontecera com o Brasil. Assim, Angola e Moçambique seriam os ‘novos Brasis’ que Marcello em tempos defendera como solução a prazo. 

Pois bem: há 15 dias, na sequência da publicação neste jornal da conversa com Miguel Caetano, onde se falou deste assunto, o leitor João Moura, engenheiro de profissão, contactou-me. Tinha revelações sobre o tema. Encontrámo-nos num café perto de Algés, e ele desfiou as suas memórias. 

Contou-me que era bisneto do general Gomes da Costa. Que depois do 25 de Abril, entre 1978 e 79, esteve em Caracas, na Venezuela, como diretor técnico do consórcio de construção luso-venezuelano Evelusa, onde habitou com a mulher numa moradia onde também vivia Fernando Santos e Castro, o último governador-geral de Angola antes do 25 de Abril, que era muito amigo de seus pais. Santos e Castro representava na Venezuela o empresário Manuel Boullosa. E entre o jovem engenheiro, então com 30 anos, e o ex-governador, com 56, houve muitas conversas. 

«Naturalmente que foi entre nós estabelecida uma saudável relação de amizade e respeito – começa a dizer-me João Moura. – O ex-governador contou-me que, em finais de 1973, Outubro ou Novembro, durante uma sua visita a Lisboa, houve uma sugestão de independência por parte do então primeiro-ministro. No relato do eng.º Santos e Castro, Marcello Caetano, em conversa de automóvel a sós entre os dois durante o chamado naquela época ‘passeio dos tristes’, entre Lisboa e Cascais, sugeriu que o governador, natural de Moçâmedes, assumisse a independência de Angola.

Para Marcello Caetano, a situação dos portugueses no Ultramar era uma enorme preocupação e não via melhor solução que aquela».

E o meu interlocutor prossegue: 

«Passado muito pouco tempo, em Fevereiro de 1974, em nova visita a Lisboa do governador-geral, Marcello Caetano disse-lhe que a situação se tinha degradado muito, e que a declaração da independência tinha que ser abreviada. 

Em minha casa tenho um documento que em tempos me fizeram chegar, escrito nos anos 80 pelo punho do antigo ministro Rui Sanches, cujo título é: ‘Plano para a independência de Angola em 15 de Agosto de 1974’.

Nele vem referido que esse anúncio seria feito na vila de Massangano, que foi a primeira capital de Angola. E o álibi que justificaria a declaração de independência seria a não autorização, por parte do Governo de Lisboa, da construção de uma refinaria de petróleo em Angola. Perante a recusa, o governo local soltava o ‘grito do Ipiranga’. Entretanto, o Governo daqui assegurava a não intervenção das forças militares estacionadas em Angola.» 

Note-se que esta revelação não é totalmente nova. No meu livro, refiro essa conversa no carro entre Marcello Caetano e Santos e Castro. Mas esta é mais uma confirmação do episódio, ouvida pelo meu interlocutor da boca do próprio Santos e Castro e não contada por terceiras pessoas.

Mas João Moura descreveu-me outro facto extraordinário, este sim totalmente novo. 

No dia seguinte ao 25 de Abril, depois de ter sido demitido de governador de Angola, Santos e Castro – certamente recordando a conversa com Marcello Caetano – propõe-se declarar a independência da colónia. 

Mas há que assegurar uma condição: o apoio da África do Sul, que tinha também um governo da minoria branca, chefiado por Pik Botha, e cuja cumplicidade era decisiva neste processo. 

Santos e Castro telefona então a Botha, que mostra abertura mas pede um tempo para falar com os americanos. E a resposta que umas horas depois chegará de Washington será:

– Não se metam nisso.

Depois é o que se sabe. O MPLA ocupará Luanda, o governo português fará a transmissão do poder, é declarada a independência e iniciar-se-á uma sangrenta guerra civil que só terminará em 2002. 

A história poderia ter sido diferente? Talvez. O problema é que, ao contrário do que acontece nos trabalhos científicos, a História não permite que se volte atrás para repetir a experiência.