Politica

Votos nulos, insultos e "darwinismo eleitoral"

Dirigente do PAN sugeriu no Twitter que votos com desenhos de árvores à frente do partido fossem validados. Criou escândalo e apagou. Ao i, diz que tudo não passou de “ironia”.


Ao cair da noite de quarta-feira, Bebiana Cunha, deputada eleita pelo PAN e recente candidata ao Porto pelo mesmo partido, tweetou a seguinte frase: “Nos apuramentos eleitorais constatamos que vários eleitores PAN desenharam árvores à frente do seu voto no PAN. Têm sido considerados nulos, mas a expressão de apoio criativa e ambientalista não devia ser assim tratada”. Bebiana apagou o tweet passadas umas horas. Contudo, como tem sido recorrentemente provado, o que vai parar à internet, fica na internet. Este caso não foi exceção.

Duas ilações se retiravam do tweet: a primeira é que houve alguns eleitores a desenharem árvores em vez de desenharem uma cruz no quadrado do PAN; a segunda é que Bebiana achava que essa “expressão de apoio criativa e ambientalista” não deveria ser considerada nula – esses votos, no seu entender, deviam ser contabilizados. A primeira ilação confirma-se. Mas a segunda é desmentida ao i pela deputada: trata-se, “evidentemente”, de “ironia”. Bebiana revela ter apagado o tweet não por se ter arrependido mas por este se ter tornado numa plataforma de ódios aos eleitores do PAN.

 

A ironia que ninguém percebeu

Ao i, Bebiana Cunha garante que “a segunda parte do tweet” era, “evidentemente”, irónica: “Fui irónica. Posso não ter sido feliz, devia ter posto um alerta, mas fui irónica”. Segundo a deputada, a sua intenção era a de “trazer à discussão”, no seu “espaço pessoal” – não obstante o seu perfil ser aberto e o Twitter ser uma das ferramentas políticas mais poderosas da atualidade –, “esta questão dos votos nulos” e “passar uma mensagem de que houve alguns votos pontuais onde as pessoas, por via da criatividade, desenharam uma árvore à frente do voto do PAN e lançar um debate em torno desta questão”.

Questionada sobre a sua ironia ter algum tipo de “fundo de verdade” e, por consequência, defender mudança na maneira como se expressa o sentido de voto, a deputada rejeita: “Não acredito que haja aqui mudanças a fazer. O ato eleitoral tem de ser uma vontade expressa de votar em determinado partido”. O que se pretendeu, explica, foi “alertar para a questão que estes votos são considerados nulos. O statement é esse, através da ironia”.

 

O tweet que fez dos eleitores do PAN “burros”

Embora admita ter sido “um pouco provocatória”, Bebiana critica o banho de ódio que o seu tweet gerou, sobretudo de “membros do IL e de alguns do Chega”.

Segundo a deputada, o tweet levou a que “várias pessoas se organizassem em manada para criticarem e insultarem” os eleitores do PAN. “As pessoas do PAN nem sequer sabem participar num ato eleitoral, são burras”, exemplifica Bebiana. Foi, explica a deputada, precisamente esta onda de ódio e de troça que a terá levado a apagar o tweet (quando podia apenas ter bloqueado estes utilizadores, algo que “não [lhe] passou pela cabeça”). “Quando dei conta dos insultos que estavam a surgir aos eleitores do PAN por eu ter dito que havia o seu apoio expresso através do desenho de árvores, isto serviu para se criar um insulto generalizado – e eu não aceito isso: uma coisa é insultarem-me a mim, que já estou habituada, outra coisa é os nossos eleitores”.

 

“Darwinismo eleitoral”

Um dos críticos do tweet foi Tiago Mayan Gonçalves, antigo candidato presidencial, recém-eleito presidente da União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, e, também, a cara do IL no Norte. Sendo Bebiana a cara do PAN na região, poder-se-á dizer que estamos não só perante disputa política de partidos de dimensão idêntica, como também perante disputa local.

Mayan, que escreveu no Twitter que desenhar árvores em vez de cruzes tratava-se de “Darwinismo eleitoral”, fala ao i na “dimensão do ridículo” e sublinha que o PAN parece "conter dentro de si as semementes da sua própria destruição”. “Parece-me ser um sintoma daquele bloco de eleitorado do PAN que não tem noções do que é o ambientalismo e que defende coisas que não são ambientais ou anticientíficas. Não defendem o sério, mas sim o fantasioso”. Para Mayan, este tweet “denota infantilidade de informação e condescendência com um bloco de eleitorado”, assim como se trata de um sintoma “de profunda infantilidade na abordagem política geral das causas que defendem”.

Mayan rejeita também a ironia de Bebiana. Não obstante, admitindo-a por um segundo, utiliza-a para colocar a portuense entre a espada e a parede: “Ou aquilo é profundamente genuíno – e isso é pessoa que eu conheço, algo que aprecio, sem ironia – e denota os sintomas do que estou a dizer, ou então estamos a ver uma Bebiana Cunha que não conhecíamos, que exerce sarcasmos e ironia dirigidos contra os seus: algo altamente surpreendente”. Ambos os casos, para Mayan, são um “problema”. Contudo, concede:_“Toda a gente tem direito ao arrependimento e o facto de ela ter apagado o tweet em pouco tempo denota isso. Vale o que vale, é um tweet. Também não dou uma relevância extrema, só achei curioso e comentei”.

 

Votos Nulos são um “não problema”

Para Mayan, assim como, pelo visto, para Bebiana, “não há nada a discutir quanto ao assunto de votos nulos”. O liberal até admite haver outros assuntos – “como a possibilidade de exercício de voto que não num boletim em papel, ou seja, online” – a discutir. Mas não os votos nulos: “O facto de um voto ser nulo e o porquê de o ser não é o menor dos problemas: é um não problema”.

Nas últimas eleições houve 79.185 votos nulos, que representam 1,58% dos que se dirigiram às urnas. Desde escárnio visual – “um pénis na cara do Ventura” – a insultos – “ladrões, ide roubar ao caral*o” -, muitas são as formas que os eleitores encontram de traduzir as suas frustrações nos boletins de voto. Há, contudo, algumas situações menos felizes: como votos nulos de “velhinhos que tremiam e então a sua folha estava cheia de riscos”, como nos descreve uma voluntária que esteve numa mesa de voto no Porto. Nestes casos tenta-se sempre validar os votos. “Desde que consigas perceber perfeitamente qual é a intenção de voto não andamos com picuinhices. Se estiver mesmo fora é uma coisa, desde que esteja minimamente dentro do quadrado é válido”, revela um jovem que esteve numa mesa de voto em Guimarães. Quando a luta é renhida, a tolerância é ainda maior: “Aqui na junta, como foi tão renhido, qualquer voto faz a diferença. Nem precisa de ser uma cruz. Basta ser um traço. Desde que haja uma clara intenção a cruz nem precisa de ser perfeita. Desenhos é que não aceitamos: tudo o que não seja no espaço da cruz ou seja gozo ou brincadeira consideramos nulo”, revela ainda outra jovem voluntária de Guimarães.