Sociedade

Otimismo prudente no regresso à normalidade

A última fase do desconfinamento arranca hoje, 578 dias depois de serem confirmados os primeiros casos de covid-19. Vacinação dá conforto, mas prudência deve manter-se, defende infeciologista. “O vírus continua por aí”. ECDC prevê que em países com elevada cobertura vacinal, como é o caso de Portugal, o outono não comportará riscos elevados.


A normalidade chegou aos poucos – vê-se nos encontros a serem marcados como dantes, no trânsito, nos elevadores mais cheios, nas máscaras, álcool-gel e testes covid-19 a preço de saldo – uma caixa de 50 máscaras que chegou a custar 40 euros vale hoje menos de 2 euros. Mas esta sexta-feira chega oficialmente e torna-se um dos marcos simbólicos da história da pandemia no país, com o levantamento da maioria das restrições. Pela primeira vez desde março de 2020, volta a ser possível entrar numa loja de rua sem máscara e as discotecas, o setor que permaneceu fechado há mais tempo, começaram a reabrir na última noite.

Foi a 2 de março de 2020 que foram confirmados os primeiros casos no país e passam 578 dias, com a epidemia a manter-se controlada nas últimas semanas depois de um verão marcado por um aumento de infeções e mais mortes associadas à covid-19 do que no verão do ano passado, mesmo com a população mais vulnerável já 99% vacinada.

Ao contrário das previsões mais otimistas, o segundo ano da pandemia que agora entra na reta final acabou por ser pior do que o primeiro, com um inverno que levou o Serviço Nacional de Saúde a ocupações nunca registadas na história do país nos cuidados intensivos, com mais 1300 doentes críticos internados nos hospitais ao mesmo tempo, um máximo de 900 com covid-19, quando antes da pandemia no país os hospitais tinham 500 camas de UCI. Num inverno normal, o habitual era passarem pelos cuidados intensivos 190 a 200 doentes com diagnóstico de gripe, doença que desapareceu do mapa no último inverno.

Agora, com otimismo em relação ao controlo da epidemia, é o regresso de outros vírus e a pressão que isso pode causar nos serviços de saúde que preocupa quem está no terreno. “Neste momento temos a maioria da população vacinada e portanto o momento, do ponto de vista epidemiológico, autoriza que se avance para um maior alargamento das medidas de desconfinamento e uma maior permissividade”, diz ao i Fernando Maltez, diretor do serviço de infeciologista do Hospital Curry Cabral, que em março de 2020 foi o primeiro hospital em Lisboa a ser ativado para responder à covid-19, como hospital de referência nesta área a par do S. João e do Santo António, no Porto, onde se confirmaram os primeiros dois casos.

“Mas esta permissividade deve ser uma permissividade expectante”, continua o médico, sublinhando que não há certezas absolutas sobre como vai evoluir a transmissão da doença no inverno a par da circulação de outros vírus. “Tem de ser uma liberdade feita com grande responsabilidade, não abandonando a 100% as medidas, continuando a usar a máscara com critério, respeitando distanciamento sempre que houver indicação para o fazer. Não podemos entrar em excessos até porque estamos a fazê-lo numa altura em que se avizinha um período invernoso em que poderão aparecer outros vírus respiratórios a circularem e que não sabemos que impacto poderão ter na incidência do SARS-Cov-2 e nos quadros de doença. No ano passado não tivemos essa experiência porque as restrições estavam em vigor e por isso neste momento não sabemos se isso pode potenciar em termos clínicos outras manifestações do SARS-Cov-2 e da covid-19”.

Território desconhecido

Esta é uma das grandes incógnitas para os próximos meses, numa altura em que o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças prevê que em termos de covid-19, países com maior cobertura vacinal, como é o caso de Portugal, não estarão sujeitos a uma pressão elevada até ao final de novembro, recomendando no entanto que se mantenha a vigilância epidemiológica e a sequenciação do vírus.  No ano passado, começou a falar-se do risco de haver uma dupla pandemia, que os anglosaxónicos cunharam de twindemic, mas não houve a gripe, o que este ano, a verificar-se, significará território desconhecido – em 2019, o vírus começou a circular já no fim da época gripal, e na altura com uma expressão muito reduzida, mesmo tendo em conta que só se apanhavam uma franja dos casos, com os testes limitados a quem tinha sintomas e vinha da China ou Itália. Sabe-se que uma pessoa pode estar infetada com vários vírus ao mesmo tempo e que a gripe enfraquece o sistema imunitário, o que pode aumentar a suscetibilidade a outras infeções. A diminuição da imunidade conferida pelas vacinas, em particular nos mais idosos, é outro fator na equação do segundo inverno da pandemia ou da transição de pandemia para endemia, quando o vírus deixa de ter um crescimento exponencial e passa a ter cadeias de transmissão limitadas. O reforço com a terceira dose ainda não está fechado, aguardando-se o parecer da Agência Europeia do Medicamento nos próximos dias.

Por agora, o RT – o indicador que dá uma perceção sobre a força do contágio – tem-se mantido perto de 1 e depois abaixo de 1 desde julho – sinal de que a epidemia está com uma tendência descendente, nas últimas semanas acompanhada por uma descida dos internamentos. A transmissão nunca esteve tão controlada sem medidas restritivas mais apertadas em vigor, notaram os peritos nos última reunião do Infarmed, mas entretanto já voltou a registar um ligeiro aumento. E uma das regras repetidas desde o início da epidemia mantém-se: o impacto do levantamento das restrições, como o da abertura das escolas a meio do mês, só será mais percetível duas semanas após ter acontecido. “Neste momento não sabemos o que vai acontecer, se vamos ter gripe, se vamos ter mais infeções e tudo isto deve levar-nos a avançar com prudência. O RT e a incidência têm mantido uma tendência favorável mas não podemos deitar tudo abaixo por excessos e sabemos que o vírus vai continuar por aí”, diz Fernando Maltez.

Para o virologista Pedro Simas, investigador do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, as restrições já poderiam ter sido levantadas há mais tempo  e considera que o país está já numa fase de endemia, o que nunca duvidou que seria o desfecho do novo coronavírus isolado em Wuhan e que agora se sabe que começou a correr o mundo no final de 2019. Quase dois anos depois, falta perceber a origem – a Organização Mundial de Saúde quer fazer novas investigações e ter mais dados da China –  mas a ideia de que a imunidade de grupo seria alcançada com uma vacinação elevada tem sido descartada pela comunidade científica, dado que as atuais vacinas não previnem infeção a 100% e existem casos de reinfeção. Na história contemporânea, foi possível erradicar apenas um vírus por via de uma campanha de vacinação, a varíola, erradicada a nível mundial em 1980.

O poliomielite está quase erradicada (Portugal teve o último caso em 1986) e o sarampo chegou a ser declarado eliminado de Portugal, mas surtos a partir de casos importados voltaram a gerar cadeias de transmissão, embora seja uma doença para a qual uma cobertura de vacinação acima dos 95% em Portugal garantiu aquilo a que tecnicamente se chama a imunidade de grupo. “Temos de nos mentalizar que o vírus vai circular mesmo na população vacinada e isso é essencial para a ecologia do vírus e para ir criando imunidade, temos de transmitir às pessoas que isso é o normal, sendo necessário manter a vigilância dos mais vulneráveis, mas neste momento podemos falar de voltar à normalidade”, disse ao Nascer do SOL o investigador.