Falar Baixinho

Trabalhos forçados para crianças

A ditadura dos T.P.C. não parte só dos professores


Com o início do ano letivo voltaram os malfadados T.P.C.. Depois de sete a nove horas na escola, quando finalmente saem, os mais pequenos têm vontade de ir a um parque, à praia, jogar à bola ou ir para casa brincar, estar com os irmãos, com os pais, ou simplesmente ver televisão, mas trazem ainda muitas vezes na mochila mais uns trabalhinhos para fazer em casa. ‘São pouca coisa e fazem-se rapidamente’, poderão dizer. Bom, nem sempre e o tempo que vão demorar a fazer essa pouca coisa vai depender da disponibilidade e vontade que têm para lhe dedicar. Já vi trabalhos que se fariam em dez minutos serem feitos numa hora. Mas agora pergunto eu, se são só uma coisinha pequenina, será assim tão importante trazê-la? Para que criem hábitos de estudo, podem argumentar. Com seis anos? Com sete? Com oito?

O tempo que as crianças passam na escola é superior ao que muitos pais passam no trabalho. O tempo que passam sentados, quietos e calados em sala de aula é enorme. Muito mais do que seria adequado e desejável para as suas idades. A maioria das crianças, depois de um dia inteiro na escola, desejam chegar a casa para estarem à vontade e fazerem aquilo que mais lhes apetece. Além de que estão cansadas e o seu tempo de concentração para as matérias da escola já se esgotou há várias horas. Pedir a uma criança que chegue a casa – muitas vezes depois de ir ao parque, à natação ou ao futebol – e se sente numa cadeira para fazer mais umas coisinhas é não só absurdo, como contraproducente. Muitas vezes os pais queimam tempo precioso a obrigar crianças cansadas e moles, que já escorregam pela cadeira abaixo, a escrever umas palavrinhas ou a fazer umas continhas, quando a cabeça e a vontade delas está noutro sítio. Simplesmente não funciona! São trabalhos feitos sem vontade, sem prazer. São trabalhos forçados! E o objetivo de consolidar matéria, de criar hábitos de estudo, sai completamente furado. Estes minutinhos, que se podem transformar em horas, muitas vezes não passam de uma tortura para pais e filhos que só cria rancor em relação à escola, à matéria e a quem está ali ao lado a tentar ajudar. Se esse tempo fosse usado para uma brincadeira entre ambos, seria muito mais produtivo e benéfico para todos.

Mas a ditadura dos T.P.C. não parte só dos professores. Muitas vezes são os pais nas reuniões ou em privado que perguntam por eles ou mesmo algumas crianças mais aplicadas desejosas de deveres que não encontram nada de melhor para fazer em casa do que repetir o que já fizeram na escola. E parece haver uma resistência em aboli-los, simplesmente, sem dó nem piedade. Por isso a maioria dos professores acaba por tentar encontrar um compromisso que não passe uma imagem de incúria e ao mesmo tempo não seja demasiado exigente, passando só ‘uma coisinha’. Acontece que mesmo escrever uma frase que seja, não traz vantagens a ninguém. Nas três ou quatro horas que as crianças têm desde que chegam a casa – a que tem de se retirar ainda o banho, o jantar e o deitar – a ocupação tem de ser outra. A escola ficou lá atrás e volta no dia seguinte de manhã. Vão ter muito tempo para as aprendizagens escolares e esta só é produtiva se for feita com vontade e disposição. Há uma série de outras formas de aprendizagem e de coisas a fazer que são tão ou mais importantes nestas idades e o tempo que lhes é dedicado já é escasso. Não lhes vamos roubar isso.

Pareceria sensato a alguém pedir a um corredor para, cinco minutos depois de terminar exausto a prova dos 1500 metros, correr mais uns 100 metrinhos? Não! Pareceria um absurdo. Pois com os trabalhos de casa passa-se exatamente o mesmo.