Opiniao

Viva a República

por Nélson Mateus e Alice Vieira


Querida avó,

A República comemora, este dias 5 de outubro, 111 anos.
Quem não souber o que é a Implantação da República, e queira saber um pouco da História de Portugal dessa época, aconselho vivamente o teu livro, Diário de um adolescente na Lisboa de 1910. O primeiro livro escrito por ti que eu li, e que é recomendado pelo PNL.

Nessa obra -- que te deu uma trabalheira, pois os factos diariamente relatados no livro acontecerem na realidade – José Joaquim (nome do poeta Cesário Verde, de quem o pai era um fervoroso admirador) é um jovem lisboeta de 14 anos em 1910. Pai republicano, avó monárquica, criada com namorado da Carbonária, e aluno de um dos homens que mataram D. Carlos e D. Luís Filipe... Facilmente se compreende a confusão que vai na sua cabeça.

O diário de José Joaquim é o registo bem-humorado desses dias de sobressalto que vão dar ao 5 de Outubro.

Nada melhor para ser lido por toda a família, e assim fazerem uma ‘viagem ao passado’.

Por falar nisso, será que muitos sabem a origem do Busto da República?

Embora a política continue a ser dominada por homens, o símbolo da nossa República é feminino.

Ilda Pulga, alentejana, costureira de Arraiolos a trabalhar numa camisaria em Lisboa, tinha 16 anos quando pousou como modelo para o busto.

A escultura apresenta-nos uma jovem com o pescoço e os ombros descobertos, o peito envolto por um manto com a esfera armilar ao centro e a cabeça coberta por um barrete frígio. Um rosto severo e confiante com espigas e foice como sinónimo de abundância.

Curiosamente, nós que passamos a vida a falar de envelhecimento, sabias que só em 1993, com 100 anos, Ilda Puga revela a história numa entrevista à RTP? Então contou que posava sempre na companhia da mãe e que o escultor apenas lhe moldava o rosto. Ilda Pulga viveu até aos 101 anos.

Boa semana querida avó e viva a República!

Bjs

 

Querido neto,
Sou de uma família visceralmente republicana.
O meu tio Joaquim (o tio-avô que me criou) passava o tempo a arregaçar as calças para mostrar as cicatrizes que tinha por ter participado, em miúdo, nos confrontos do 5 de Outubro na Rotunda.

E todos os anos, no dia 5 de Outubro, andava para lá e para cá no corredor da nossa casa a cantar:

«Portugueses é chegado/

O dia da redenção/

Caem dos pulsos algemas/

Ressurge livre a nação…».

E por aí fora, que o hino nunca mais acabava. (Se quiseres eu depois canto-te todo, esse e outros, que em hinos ninguém me leva a palma…).

Não sei se a miudagem hoje sabe o que foi o 5 de Outubro. Lembro-me sempre de um miúdo numa escola a quem eu perguntei o que tinha sido o 25 de Abril e ele, depois de pensar muito, respondeu «eu acho que o 25 de Abril foi a 5 de Outubro». E logo a seguir: «é feriado e isso é que interessa».

Claro. O feriado é que interessa. (Daí o que se barafustou quando o Cavaco Silva – que não devia ter muito em que pensar – quis acabar com alguns feriados, não sei se te lembras disso).

E para quem vive aqui na Ericeira, o 5 de Outubro tem ainda maior significado: foi daqui que a família real partiu para o exílio, «perante o silêncio respeitoso da multidão», como se lê na placa que assinala o lugar da partida. Apesar de tudo a viagem para o exílio não deve ter perturbado o apetite da Rainha D. Amélia: uma outra placa, num prédio ali perto, informa que foi ali que a Rainha tomou uma refeição, antes de partir.

 Mas claro que não ia lá muito bem-disposta. Conta-se que, quando um capitão lhe deu a mão, para a ajudar a entrar para o barco, terá dito: «agora é que aparecem? Vocês é que são os culpados disto tudo!».

Mas apesar de a República estar bem implantada em Portugal, ainda existe um Partido Monárquico, mas que normalmente só dá sinal de vida em tempo de eleições.

E por que será que tantos fadistas são monárquicos?

Vê se descobres.

Bjs