Sociedade

Feytor Pinto (1932-2021). Um padre de pontes que insistia que a fé tem de deixar obra

Chegou à paróquia do Campo Grande em 1975 e tornou-se um fenómeno com as suas homilias de três pontos e missas cheias. Desaparece aos 89 anos para o “outro lado da porta”, como dizia, onde esperava ser recebido com um banquete de trouxas de ovos.


Quando chegou para ajudar o padre Armindo na paróquia do Campo Grande em 1975, com a missão de celebrar a missa das 19h, havia apenas sete pessoas na igreja. “Depois foi enchendo, enchendo, enchendo, foi preciso tirar uma parede da igreja e fazer um salão, depois mais três degraus e mais tarde, o salão que está hoje. E encheu sempre”, lembrava Feytor Pinto numa entrevista à agência Ecclesia em 2020. É esta imagem da igreja do Campo Grande, com o salão a estender o templo, sempre cheio até aos últimos degraus, que fica ligada aos seus anos como pároco no coração de Lisboa.

Outra imagem de marca eram as suas homilias sempre com três pontos, sem delongas. Apesar de ter sido em criança um aluno baldas, depois aplicou-se nos estudos, dizia que a matemática era uma forma de organizar o pensamento (como o latim, língua com que nunca foi à bola) e já na formação para sacerdote nessa disciplina de homilética foi muito bom, como viria a ser como comunicador. “Costuma dizer-se que esse é o modelo jesuítico, mas quando comecei a fazer assim não sabia que era. A melhor maneira de deixarmos às pessoas ideias claras é reduzir tudo o que queremos dizer a pontos concretos – e nunca mais do que três, porque depois o auditório dispersa-se”, contou na última entrevista ao i, em 2018, quando já tinha passado por alguns sustos de saúde.

Um ano antes, tinha feito um cateterismo e os problemas cardíacos já o acompanhavam. Depois, veio uma septicemia, que o deixou quatro dias em coma. “Marcelo Rebelo de Sousa, de quem sou muito amigo – presidi ao casamento do filho, batizei os netos – foi visitar-me, e não o deixaram entrar nas duas primeiras vezes que lá foi. Os médicos disseram-lhe: ‘Não sabemos se o conseguimos salvar’. E sabe uma coisa muito bonita? Nesta casa, na paróquia do Campo Grande, o atual pároco convocou toda a comunidade para rezar. Encheram o salão, estiveram das nove da noite às duas da manhã em oração intensa e, no dia seguinte, recuperei. Tinha recebido a Santa Unção nessa tarde. Isto é uma garantia de que Deus está na nossa vida”, lembrava ao Sapo numa entrevista nos últimos dias de 2019, na viragem para o ano que lhe traria ainda a provação da covid-19. Passou 40 dias internado mas superou a doença e faria agora um ano. “O SNS é fundamental. É a nossa salvação em termos técnicos, tive os melhores cuidados e de forma muito humanizada. É o serviço de todos os portugueses, não há exceções”, disse já recuperado, mostrando-se com vontade de continuar a viver. “Tenho 88 anos e uma vida longa à minha frente. Quero viver, quero lutar para se conseguir ultrapassar esta crise”, disse ao DN.

Mas a morte, ou o fim da caminhada por cá, não o inquietava. Foi nessa entrevista de 2019 que se saiu com uma das imagens ontem muitas vezes evocada, aquelas que traziam de imediato um sorriso, como dizia que muitas vezes as pessoas saíam do seu gabinete mesmo quando entravam a chorar. Não a rir, mas a sorrir. “São Paulo diz isto de uma forma muito engraçada: ‘A vida não acaba, apenas se transforma’. A morte é apenas uma porta: do lado de cá é o limite da natureza, do lado de lá é a ternura de Deus”.

Do lado de cá, para um homem de fé, importava que ficassem obras e isso foi algo em que insistiu ao longo da sua vida como pároco, sublinhando que o papel dos leigos não é apenas ir à missa, fazer as suas orações mas zelar para que não haja um divórcio entre a fé e a vida. Uma ideia de serviço que lhe vinha, como contava, de pequeno e do exemplo do pai e de um tio padre – viria a ser o sétimo sacerdote na família.

Nasce a 6 de março de 1932 na freguesia de Santo António dos Olivais, em Coimbra, e quando tinha seis meses a família muda-se para Castelo Branco, onde o pai e a mãe fundaram o colégio Instituto de Santo António. Se não quis estudar no colégio do pai, pedindo para ir para o seminário aos dez anos por uma vocação que sentiu aos cinco, o pai foi a sua primeira escola de vida. “A maneira de me realizar dependeu muito da família, sobretudo do meu pai. Foi membro das Conferências de São Vicente de Paulo, desde que entrou na Universidade até aos 93 anos, e viveu sempre esse voluntariado com uma paixão enorme”, lembra na entrevista-livro A Vida é sempre um Valor, publicada em 2014 pelas edições Paulinas. “Quando eu tinha 4 ou 5 anos, já o acompanhava nas visitas aos pobres, todos os sábados. Esse virar a vida para os outros impressionava-me e marcou-me profundamente. Embora sendo eu muito afirmativo e gostando de dizer o que penso, a preocupação pelos outros veio muito daí”. Já as primeiras vezes que ajudou na missa foi pela mão do tio Zé, padre. “Esta dupla balizou muito a minha maneira de ser padre. É isto que S. Tiago diz na sua carta, no capítulo segundo: ‘A fé sem obras é morta’. A religião sem o serviço aos outros não tem sentido.”

Rosto do concílio Vaticano II

Foi ordenado sacerdote a 10 de julho de 1955, um dia que recordava bem. “Levantei-me às 6 da manhã e, curiosamente, na véspera tinha estado a preparar-me na oração, e estava uma manhã lindíssima, a desafiar o sol que ia chegar. Acordei com uma pomba a picar o vidro da minha janela. Olhei e pensei: de facto o Espírito Santo está a querer chegar nesta hora. Recordo profundamente. Olhei e vi aquela pomba depois a esvoaçar”, contou à Ecclesia em 2020. Como memória desse dia ficou também uma pergunta feita por uma tia: dos três votos – pobreza, castidade e obediência – qual seria mais difícil. “‘A obediência’, respondi. A pobreza e a castidade não têm qualquer dificuldade, agora, a obediência é pormos a nossa mão na vontade de outros, no caso, na do nosso bispo. E digo-lhe: em tudo cumpri a vontade do meu bispo, do bispo a quem sirvo”.

Ainda assim, o que fez desde os primeiros anos como padre, que apanharam a revolução do Concílio Vaticano II, foi aprofundar a Igreja de diálogo, considerando-se um homem de pontes: que sentiu que a Igreja precisava delas e que as fez. “A minha marca é o Concílio Vaticano II. Estudei, estudei muito. Depois, fiz a licenciatura em Teologia e o mestrado em Bioética, mas nada disso foi tão importante como a minha marca do Vaticano II. Até porque, durante quase cinco anos, andei a pregar o Concílio, aqui em Portugal, em todas as dioceses. Inclusivamente, tive a oportunidade de orientar um retiro para os bispos, em 1968, cuja temática era o Concílio Vaticano II”, conta na entrevista em livro. Chega a dizer que se não fosse o concílio Vaticano II, a sua vida como padre não teria vingado, lembrando os primeiros anos, pré-conciliares, como tempos de incómodo. “Associei-me muito aos que efetivamente se interrogavam sobre a presença da Igreja no mundo da política, na altura. (...) Criei uma grande relação com algumas pessoas que estavam opostas ao regime de então. Tínhamos serões muito interessantes para poder conversar sobre todas as coisas. Soube depois que, quando foi o 25 de Abril, o governador civil entregou a minha ficha à PIDE. Interessante. Nessa altura eu senti que a minha vocação brigava no meio daquele conflito. Eu sentia que a Igreja tinha de ser de comunhão, não de tensão. Nessa altura pedi, profundamente, ao bispo que me deixasse ir para Roma”.

Em Roma, acompanhou então as duas últimas sessões do concílio, com D. Manuel Vieira Pinto, com quem trabalharia depois na divulgação em Portugal no movimento Por Um Mundo Melhor. Apontava o documento Gaudium et Spes (Alegria e Esperança), a quarta das constituições saídas do concílio, como o elemento crucial de clarificação do papel da Igreja: “Tem o essencial da relação da Igreja com o mundo: defender a dignidade humana, constituir a comunidade humana e promover a atividade humana. Tem toda a presença da Igreja naquilo que é a ordem temporal: a família”.

Assume a liderança na Pastoral Juvenil (1971-1980) e na Pastoral da Saúde (1982-2013). Aqui, sublinha que um dos primeiros impactos tinha sido deixar de haver uma pastoral dos doentes para haver uma pastoral da saúde. “Uma revolução que, todavia, ainda está por aplicar na generalidade da Igreja. Precisamos de saber cultivar a saúde, defender a saúde. A pastoral da saúde tem de insistir na educação para a saúde: educação para a maneira como nos alimentamos, para a maneira como dormimos, para o stress, para a vida sexual, tudo isto tem de ser alvo de educação.”

A sexualidade era de resto uma das áreas em que acreditava que a Igreja tinha falhado, não falando de afetos, e foi o tema da sua tese de mestrado em Bioética. Na última entrevista ao i, assumia que alguns padres ainda tinham medo de falar de sexo. “Temos de ultrapassar isto, sempre na perspetiva de que a sexualidade é um valor, um dom de Deus, uma riqueza extraordinária que permite colaborar com o poder criador”. O tema valeu-lhe polémica e até uma denúncia no Vaticano por parte de um grupo católico em 2005, por admitir o uso de preservativo na luta contra a sida – o que Ratzinger já tinha feito em 1994, respondeu. Viria a privar com diferentes Papas, tendo organizado a visita de João Paulo II a Portugal em 1982. E estava ao seu lado, no santuário, na tentativa de assassinato durante a procissão das velas do 12 de maio. “Vi o homem a pegar na faca. Não houve tempo para me passar nada pela cabeça. A intervenção dos guardas foi fulminante. Foi no momento”, contou à Notícias Magazine em 2016.

‘Não preciso de pôr um capote para ser Igreja’

O trabalho nas margens, onde o preto e branco mais radicais não captam tudo, deu-lhe outra experiência que acabaria por o marcar e ligar a personalidades da vida política nacional, de vários quadrantes. Em 1992, é nomeado alto-comissário para o Projeto Vida, o projeto interministerial que deu o pontapé de saída da passagem do dossiê das toxicodependências do foro da Justiça para o campo da Saúde. “Quando eu aceitei ser alto-comissário do Projeto Vida, a pedido de Cavaco Silva, pedi licença, como faço sempre, ao meu bispo, então, o cardeal Ribeiro. Ele respondeu: ‘Aceita, porque é um campo em que a Igreja deve estar presente.’ Mas sei que alguns bispos estranharam e até lhe disseram: ‘Como é que permitiu isto, um cargo destes?’”, lembra em 2014 na entrevista publicada em livro pelas Paulinas, recordando o caminho que se seguiu até à descriminalização da droga. “Quando José Sócrates pediu outra vez para falar comigo e me disse: ‘Queremos descriminalizar a droga: o que pensa disto?’; a minha resposta foi: ‘Penso que é um bom caminho, mas gostava que falasse com o Patriarca.’ Telefonei ao D. José Policarpo e ele recebeu-o no dia seguinte. Quando houve as grandes discussões sobre o estatuto dos capelães hospitalares, a propósito da regulamentação da Concordata em 2004, também pedi, ao ministro de então, que conversasse com o Patriarca sobre tão importante assunto”, continuava. “Ser ponte, ser ponte. Eu não preciso de pôr um capote para ser Igreja: agora, estou num trabalho público, visto o fato; agora vou para a missa, ponho a alva. Não, a mesma pessoa olha para a sociedade. Eu sei que a Igreja tem de estar metida dentro do mundo, portanto eu tenho de servir a Igreja, servindo o mundo. E, aí, o meu grande vade-mecum é a Gaudium et Spes: dignidade humana, comunidade humana, atividade humana e família, vida económico-social, cultura, política, paz. É muito simples: os grandes valores estão sempre cá dentro, não posso sacrificá-los, nunca”.

Da relação com a política, contou ao Sapo em 2019 outra história, mais recente. “Eu falava com os ministros, não lhes escrevia cartas. E dou-me bem com eles, quase a tratar por tu. De qualquer partido. A Maria de Belém, o António Correia de Campos... O Paulo Macedo foi o meu último ministro, quatro anos. Um dia telefona-me: “O padre Vítor gosta de lampreia?” “Gosto imenso”. “Então não se importa de ir almoçar comigo?” Lá disse o sítio onde era e fui. Cheguei mais cedo e ele chegou depois com os secretários de Estado, os chefes de gabinete todos e, quando nos sentamos, digo-lhe isto: “Senhor ministro, o jantar tem de certeza de ser pago, porque não há jantares de graça”. Responde: “Tem toda a razão, quero pedir-lhe uma ajuda: estamos com grandes dificuldades em obter sangue, e queríamos pedir à Igreja para, em todas as paróquias, promover a dádiva de sangue”. E assim foi e resolvemos o problema. Fantástico”.

Mas para quando chegasse a hora de seguir o caminho para o outro lado da porta – que o levou ontem, 6 de outubro, a mesma data em que morreu Amália Rodrigues, uma mulher que admirava pela fé e cultura, o pedido do Padre Vítor, como todos o tratavam, era outro, se não fosse pedir muito: “Só tenho uma coisa de que gosto muito, que é trouxas de ovos [ri]. É a minha tentação. Quando morrer espero ser recebido no céu, no banquete eterno, com trouxas de ovos”.