À Esquerda e à Direita

Um rico motorista

O nervosismo demonstrado por António Costa esta semana na Assembleia da República poderá revelar que está a perder a paciência. O primeiro-ministro ficou enfurecido com as bocas do PSD sobre o uso da bazuca na campanha eleitoral das autárquicas e usou de uma agressividade só comparável à de José Sócrates, quando este estava à frente dos Executivos socialistas. Será que as ‘guerras’ internas com Pedro Nuno Santos, o verdadeiro líder da Oposição, estão a deixar António Costa à beira de um ataque de nervos?


Há dias fui fiador do arrendamento de uma casa e cheguei quase a irritar-me com as burocracias que me exigiram e não fosse ser para um familiar e teria desistido. Primeiro queriam a declaração do IRS, depois o recibo do último ordenado, a seguir dos três últimos meses e já nem me lembro do que ainda me pediram. O arrendamento é de um ano e o valor mensal andará pelos 600 euros. Ah! E sem o Cartão do Cidadão válido o contrato não podia ser assinado, o que me levou a entrar no filme das filas intermináveis da Loja do Cidadão – já que por três vezes o meu agendamento foi anulado.

Vem esta conversa a propósito da notícia da SIC que revelou que o motorista de João_Rendeiro comprou um apartamento num condomínio de luxo por mais de um milhão de euros, mas que cedeu à mulher do ex-banqueiro. Segundo a mesma notícia, a propriedade situada no mesmo condomínio de luxo do patrão foi comprada a pronto pagamento. E aqui, confesso, fiquei banzado. Então eu para ser fiador de um arrendamento de 600 euros fui obrigado a mostrar toda a minha vida financeira e um motorista, com todo o respeito pela profissão, ‘saca’ de 1,15 milhões de euros e torna-se proprietário na Quinta Patino? Ainda de acordo com a mesma notícia, Florêncio de Almeida – seguramente o motorista mais bem pago do planeta – num contrato-promessa promete alienar o usufruto do apartamento a troco de 201 mil euros. Será isto normal? O antigo banqueiro dos ricos, antes de fugir à Justiça portuguesa, teve tempo para resolver a situação da mulher e ficar sem remorsos numa ilha paradisíaca, digo eu...

Mas esta história de João Rendeiro revela ainda outro dado curioso, em comparação com Ricardo Salgado. Se o antigo Dono Disto Tudo não pode ir a nenhum restaurante, dos finos, é claro, sem ser apupado, Rendeiro conseguiu continuar a viver no mesmo condomínio onde, penso eu, estão muitos dos seus ex-clientes. E aqui seria engraçado saber quem conseguiu levantar o dinheiro antes do estoiro. Afinal, o banco era de risco, mas o risco foi maior para uns do que para outros.

Ah! Será que Florêncio de Almeida tinha revelado na sua última declaração de IRS uma fortuna superior a um milhão de euros?

 

P.S. 1 – O nervosismo demonstrado por António Costa esta semana na Assembleia da República poderá revelar que está a perder a paciência. O primeiro-ministro ficou enfurecido com as bocas do PSD sobre o uso da bazuca na campanha eleitoral das autárquicas e usou de uma agressividade só comparável à de José Sócrates, quando este estava à frente dos Executivos socialistas. Será que as ‘guerras’ internas com Pedro Nuno Santos, o verdadeiro líder da Oposição, estão a deixar António Costa à beira de um ataque de nervos? Veremos nos próximos capítulos da novela rosa.

 

P.S. 2 – Notável a sinceridade de Marisa Matias numa entrevista ao Observador. A eurodeputada fez muito por pessoas que passam ou passaram pelos mesmo problemas. Matias não teve problemas em assumir como esteve debilitada física e mentalmente. «O que senti sempre mais foram sintomas físicos. E quando comecei, depois, em setembro, outubro, novembro, a ter sintomas desse género, de não conseguir controlar as pernas ou os braços, ou achar que estava toda dormente, ou ficar bloqueada, não conseguir andar porque tinha medo de não ter equilíbrio e de cair, isto é tudo surreal porque acaba por dominar todas as ações, todos os dias, todos os movimentos». E mais: «Nunca na minha vida me tinha passado pela cabeça consultar médicos para saber se me candidatava à Presidência da República. Na altura disseram que, se eu tinha vontade de o fazer, até era capaz de ser uma coisa positiva para eu própria voltar a poder ter uma atividade plena, com todas as dimensões».

vitor.rainho@sol.pt