Sociedade

A importância de parar de ‘viver como se o suicídio não existisse’

No Dia Mundial da Saúde Mental, importa referir que, todos os dias, em média, três pessoas morrem para o suicídio em Portugal. O que se pode fazer para ajudar a mudar este panorama?

(Da esq. para a dir.) Rogério Meireles, Sofia Santos Nunes e Afonso Borga
Sofia Santos Nunes na viagem que fez à Colômbia depois de o pai ter morrido
Kit do Círculo de Palavras da associação Sobre Viver Depois do Suicídio
Psiquiatra Henrique Prata Ribeiro Miguel Silva

Aos 23 anos, prestes a completar 24, Sofia Santos Nunes havia completado o curso de Psicologia há um ano. Apesar de saber que o divórcio dos pais aconteceria inevitavelmente, não pensou que o mesmo pudesse ter consequências tão drásticas. «O meu pai tinha depressão, não estava a ser acompanhado apesar de eu ser psicóloga clínica. E, por mais que insistisse, tinha muita reticência a tratamento psicológico e psiquiátrico também», explica a jovem.

Além disto, quando perdeu a mãe, em 2017, o homem «começou a desenvolver um luto patológico». Apesar de sempre ter sido muito ansioso, a situação agravou-se com esta perda e, quase simultaneamente, a separação ocorreu, pois a progenitora de Sofia entrou com um processo de divórcio porque esta concluíra o percurso no Ensino Superior. «Ele assinou os papéis do divórcio durante o dia e suicidou-se à noite. Foi uma lição de humildade para mim enquanto pessoa e psicóloga porque, quando as pessoas têm as mãos fechadas, é difícil ajudá-las. Isto deixou a minha mãe numa situação complicada», confessa, lembrando que, ainda que existissem divergências entre o casal, o pai geria um estabelecimento na área da restauração.

«Ele devia ter ido abrir o café porque a minha mãe entrava muito mais tarde do que ele e, curiosamente, estava muito calmo nos dias anteriores, como se estivesse preparado para uma nova vida. Só não pensámos que fosse para outra dimensão», diz, explicando que , ao contrário daquilo em que pensaram, em primeira instância, o adulto de 56 anos nunca chegou a dirigir-se ao negócio que dirigia. Muito pelo contrário: foi para casa da mãe e pôs termo à vida.

«Foi aí que começou a nossa jornada do ‘Porquê?’. Tinha trabalhado com a ideação suicida como profissional, mas nunca tinha olhado para esta área dos sobreviventes, das pessoas que perderam alguém para o suicídio», admite, lamentando que o padre que contactaram recusou celebrar a missa. O motivo? «Isto ainda é encarado como um pecado, uma escolha livre, mas é provocado por uma doença mental. Nunca ninguém diz, por exemplo, que um ataque cardíaco é pecado».

Procurando respostas para inúmeras perguntas, partiu para Santiago de Compostela, na Galiza, passou por um processo de psicoterapia, viajou até à Colômbia e fez «muitas coisas para trabalhar este luto». «Percebi que quando partilhava aquilo que sentia, a dor tornava-se mais leve. Não nos podemos esquecer de que cerca de 50% dos casos de suicídio não são reportados, são as tais causas de morte inespecíficas. Quando a minha avó morreu por causas naturais, toda a gente falava dela e dos bons momentos. Quando o meu pai morreu, quase que se evitava falar dele porque, de repente, parecia que só existia a causa de morte», refere a jovem adulta que, hoje, tem 27 anos, e refere-se ao facto de, em termos estatísticos, o suicídio ser raramente denominado devidamente, acabando por ser encapotado.

Esta posição é corroborada pelas docentes universitárias Rita Alexandra Manso Araújo, Zara Pinto-Coelho e Felisbela Lopes que no artigo ‘Representações do suicídio na imprensa generalista portuguesa’ escrevem que «o fenómeno do suicídio poderá estar sub-representado e o problema ‘deverá ser bem mais grave na Europa, e muito particularmente em Portugal, do que atualmente reconhecido’. Por contabilizar ficam, segundo os autores, as mortes por causa desconhecida e as mortes violentas de intenção indeterminada, para além de ‘suicídios mascarados’, como as mortes por acidente ou por overdose».

Se pesquisarmos os «óbitos por algumas causas de morte», na plataforma PORDATA, em 1960, o primeiro ano registado, o valor das mortes ocorridas por suicídio situava-se nos 0,8%. Em 1979, atingiu o 1%. O valor mais elevado, 1,2%, registou-se nos anos de 2004 e 2014.

Em 2005, 0,8% – percentagem mais reduzida do que aquela que foi apurada em anos recentes – das mortes registadas ocorreram por suicídio e o jornal Público, num artigo de 13 de março do ano passado, de Roberto Dores, noticiava que o suicídio no Alentejo tem a taxa mais alta no mundo, sendo que esta mortalidade atingia 24 em cada cem mil habitantes.

Em 2017, a taxa de mortalidade mais elevada registou-se no Chipre, na Grécia e em Malta. Em 2016, a título de exemplo, suicidaram-se 1450 pessoas (1092 homens e 358 mulheres), sendo que Portugal colocava-se em 20.º lugar da lista dos países com mais suicídios na União Europeia.

Em 2019, último ano com apuração de dados veiculada, o suicídio representou 0,9% dos óbitos. Ainda que não se conheça o impacto da pandemia de covid-19 naquele que é considerado, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), um «ato de deliberadamente se matar a si mesmo» – que inclui nos fatores de risco para o suicídio as perturbações mentais, como a depressão ou a esquizofrenia, o abuso de bebidas alcoólicas, e algumas doenças físicas, como perturbações neurológicas, cancro, e infeção por VIH-Sida. A OMS estima que, anualmente, haja cerca de um milhão de suicídios no mundo, é possível ter algumas luzes através da leitura de ‘Suicide in Portugal: spatial determinants in a context of economic crisis’.

Na investigação liderada pela investigadora Paula Santana, conclui-se que se verifica uma forte associação entre o suicídio e os períodos de elevada instabilidade económica. Por exemplo, o seu aumento, em território nacional, coincidiu, por vezes, com os resgates financeiros a Portugal do Fundo Monetário Internacional (em 1983 – de 0,9% em 1982 para 1% no ano seguinte. Em 2011, era de 1%, sendo essa proporção igual desde 2007). Santana percebeu igualmente que, em municípios com maior privação socioeconómica, o risco de mortalidade é 50% mais elevado.

‘É possível viver outra vez’

Foi na sequência da experiência pessoal aliada ao conhecimento académico e profissional, bem como à pesquisa autónoma, e da perceção dos fatores anteriormente referidos que Sofia santos Nunes decidiu criar a associação Sobre Viver Depois do Suicídio, dada a conhecer ao grande público neste verão. «Decidi criar esta ponte que não junta só as famílias como os profissionais e todos aqueles que queiram contribuir para esta causa. Os sobreviventes ficam com muito mais probabilidade de desenvolver depressão, ataques de ansiedade e até de morrer para o suicídio. Há muito mais do que sobreviver: é possível viver outra vez e ter uma vida plena», partilha, reconhecendo que «o luto é muito marcado pelo “e se?”, pela culpa e, portanto, chega a desestruturar a própria pessoa, os amigos e toda a comunidade».

Para combater o estigma associado ao suicídio, Sofia e os restantes membros da associação organizam grupos de apoio, designados de ‘Círculos de Palavra’, no qual, além de amigos e familiares das vítimas de doença mental, «também estão envolvidos psicólogos que perderam pacientes, maquinistas que assistiram à morte de alguém, etc.», desejando alcançar igualmente as forças de segurança.

«E depois temos apoio formal como jurídico, psicológico, psiquiátrico e qualquer pessoa pode ser voluntária. Fazemos eventos e pontos de encontro entre os sobreviventes. Temos a vertente da comunicação, queremos capacitar a sociedade para lidar com o luto. E queremos prevenir que outras histórias tenham este desfecho». Deste modo, a associação juntou-se a universidades e até à Campanha Nacional de Prevenção do Suicídio, uma iniciativa do Programa Nacional para a Saúde Mental/Direção-Geral da Saúde (DGS).

«É necessário falar sobre isto, mas bem, com o vocabulário adequado. Viver como se o suicídio não existisse é permitir que pelo menos três pessoas morram, todos os dias, em Portugal», revela, adiantando que constitui também uma forma de fechar os olhos perante as «cerca de 6 a 10 pessoas que ficam traumatizadas diretamente». É por isso que a Sobre Viver Depois do Suicídio se dedica ao investimento na campanha de sensibilização de jornalistas para esta temática, explicando, a título de exemplo, que «o verbo cometer parece estar associado a um crime, por isso, devemos dizer que alguém morreu para o suicídio».

«E nem sequer se deve dizer algo como ‘foi um ato de coragem ou ato de cobardia’, na medida em que não se pode romantizar o suicídio. É um fenómeno complexo, multifatorial e em cada 9 a 10 casos são provocados por doença mental. As pessoas sentem que não há solução e que os problemas não vão passar», realça, enaltecendo a importância do ‘Prevenção do Suicídio: Manual Para Jornalistas’, documento onde, entre outras, podemos encontrar as recomendações dadas por Sofia, bem como outras. Apelando a que estes profissionais tenham cuidado com a linguagem utilizada, os autores escreveram tópicos como «não usar os termos ‘suicídio bem-sucedido’, ‘tentativa falhada de suicídio’ ou ‘malsucedida’ por implicarem que a morte é o efeito desejado» ou «não usar o termo ‘epidemia/pandemia de suicídio’ por não ser correto. Apesar de ter o intuito de dar maior importância ao tema, pode ler-se como alarmismo desnecessário».

Se os órgãos de informação seguirem estes passos e «as pessoas abrirem as mãos», Sofia acredita que o processo de entreajuda será muito mais facilmente agilizado. «Tem de haver uma perspetiva de esperança. Se a pessoa tiver uma ideação suicida estruturada ou semiestruturada, acompanhámo-la, mas reencaminhamo-la para serviços específicos. Por outro lado, nos círculos, temos muitas pessoas que estão estabilizadas. Queremos sempre um grupo que parta da esperança e, se houver algum membro muito desestruturado, isto não vai fazer bem ao grupo nem a ele», acrescenta, explicitando que já lidou com membros que dizem coisas como «Não gosto muito da forma como vivo agora» e, com tranquilidade, responde sempre «que ninguém gosta de sobreviver, mas sim viver. No entanto, sobreviver não tem de ser sempre a nossa experiência».

Neste momento, a associação conta com 30 voluntários, mas tem vindo a receber muitos pedidos desde que começou a surgir nos media, tendo até emigrantes portugueses que se encontram nos mais variados pontos do globo a colaborarem com a mesma. Existe um leque de funções distintas, pois «há pessoas que se dedicam à comunicação, algumas à revisão de textos, outras à responsabilidade social» e importa referir que, entre estas, encontra-se quem tenha vivido a depressão, com tentativa de suicídio, e, atualmente, opte por ser uma voz ativa na promoção da saúde mental.

«As pessoas podem contactar-nos por Facebook, Instagram e e-mail. Recebem uma resposta em menos de 24 horas. Se for uma situação muito urgente, reencaminhamos para linhas telefónicas como a Voz Amiga ou a Saúde24» para que as pessoas saibam que, do outro lado, há voluntários e profissionais preparados para fazerem intervenção em crise.

‘Não há problema em perguntar se tem ideias de morte’

Sabe-se que, em média, três pessoas suicidam-se por dia em Portugal. Será que este número continua atualizado? «O número que vejo mais é de 9 a 10 pessoas por cada 100 mil habitantes. No total do ano, dá quase três pessoas por dia, sim», começa por mencionar o psiquiatra Henrique Prata Ribeiro, de 31 anos, autor de crónicas acerca de temas como a ansiedade ou o desinvestimento na saúde mental na ‘Comunidade Cultura e Arte’.

«Estes números têm tido uma tendência ligeiramente decrescente desde 2014, embora os atuais sejam mais elevados do que os da década de 90, por exemplo». O também assistente da unidade curricular de Psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa realça que «Portugal, apesar de ser o segundo país com mais perturbações psiquiátricas da Europa, só atrás da Irlanda, tem números relativamente baixos de percentagem de suicídios», salientando que «há quem atribua estes números baixos a questões metodológicas na contabilização. Tem é das taxas mais elevadas da UE de suicídio em idosos».

Quem é que demonstra mais ideação suicida? Os pacientes mais velhos, mais novos ou não se pode generalizar? «Aquilo que acaba por ser a minha prática clínica é um bocadinho a tradução dos grandes números. Portanto, já são alguns anos a trabalhar no hospital e a fazer urgências. Lá recebemos pessoas que fizeram tentativas de suicídio e sobreviveram» e, com base no caminho que tem trilhado, o jovem médico percebe que as mulheres tentam mais vezes, enquanto os homens são menos atendidos porque consumam mais vezes.

«Há uma tendência para que, com a idade, haja mais tentativas, mas o suicídio é muito importante na análise das causas de morte nos jovens, porque aparentemente já é a principal causa de morte para as idades compreendidas entre os 10 e os 29 anos», aponta o consultor em saúde mental que nutre interesse pelos direitos humanos e pela Psiquiatria Forense.

Numa entrevista dada à revista Visão, em 2019, o psiquiatra Carlos Braz Saraiva destacou que «o fenómeno tem-se verificado cada vez mais cedo. Agora, em vez de ser aos 55 anos, é a partir dos 45 que começam a aparecer mais casos», sendo que tal se justifica através da «perda de estatuto social, associada à crise económica» que «poderá estar na base do impulso dos chamados adultos tardios».

«Costumo dizer que a Psiquiatria também é física porque, apesar de não conseguirmos ver em pormenor os neurotransmissores em direto, digamos assim, estão a sofrer alterações. Na depressão, por exemplo, há áreas do cérebro que podem chegar a ficar atrofiadas. Ou seja, há alterações neuroquímicas, por vezes estruturais, do cérebro. É físico», elucida o mestre em Medicina pela Universidade de Coimbra que realizou o ano comum no arquipélago da Madeira.

«Quando pensamos em saúde mental, temos de nos focar não só na ausência de doença, mas também naquilo que é o bem-estar da pessoa como um todo e do seu papel na comunidade em que está inserida, sentindo-se útil e percebendo que a sua vida tem propósito», indica, evocando que «o cérebro é um órgão complexo, não conseguimos ter acesso à informação toda, mas as alterações estão a acontecer. A depressão, por exemplo, é muito associada à inflamação cerebral».

«Na maioria dos casos, as causas estão associadas a doença, sendo as mais frequentes a depressão e a doença bipolar. Para consumar o suicídio, no entanto, os principais fatores de risco passam por ser do sexo masculino – apesar de a depressão ser mais presente nas mulheres, os homens usam meios mais letais para porem termo à vida –, o estado civil, ser solteiro ou viúvo, a idade e viver em zonas rurais», expressa, julgando que a campanha internacional Setembro Amarelo, de consciencialização sobre a prevenção do suicídio, que abarca iniciativas formativas, culturais e desportivas, e que é levada a cabo no mês de setembro, com o objetivo primordial de captar a atenção de todos para o suicídio, tem dado frutos em Portugal.

«Uma das questões mais abordadas na área do suicídio é o facto de se dever falar sobre o mesmo. Quando alguém está deprimido, não há problema em perguntar a essa pessoa se tem ideias de morte. Já está provado, em vários estudos, que isso até é protetor porque pode ajudar a prevenir o suicídio e não aumenta a probabilidade de que esse passo seja dado», sintetiza o autor da obra ‘Urgências Psiquiátricas’, lançada pela editora Lidel em 2018, na ótica do qual «estas iniciativas são boas porque mostram às pessoas que há ajuda disponível, canais que podem utilizar e isso é muito importante, tal como saberem que há mais pessoas que já passaram pelo tipo de pensamentos pelos quais estão a passar». Por outro lado, ainda que não conheça nenhum estudo que infira uma causalidade direta, costuma afirmar «que os antidepressivos previnem suicídios – por curarem as pessoas da depressão. Muitas das vezes, são injustamente diabolizados».

Portugal encontra-se em quinto lugar, no universo da OCDE, dos países onde estes fármacos são mais prescritos, mas o médico observa que «ao longo dos anos, tem sido feito um trabalho da retirada das benzodiazepinas da medicação crónica. São os chamados ansiolíticos».

Refletir sobre o Baixo Alentejo

Sabe-se que o Alentejo é a região que regista as taxas de suicídio mais elevadas, sendo que urge conhecer os contextos social e cultural em que tal fenómeno decorre. Para elaborar a tese de mestrado ‘Representações do Suicídio no Alentejo’, Joana Costa inquiriu 271 adultos residentes nos distritos de Portalegre, Évora e Beja, questionando-os acerca daquilo em que o suicídio os faz pensar e sentir, confrontando-os igualmente com perguntas sobre as pessoas que se suicidam. Assim, «dos dados recolhidos (…) conclui-se que os alentejanos têm a representação de que o suicídio se encontra associado a perturbações psicológicas e fortes emoções negativas (…) No que respeita à imagem que têm das pessoas que cometem suicídio, divergem entre a coragem e o egoísmo».

Em ‘Cultura Suicida no Alentejo’, Sónia Cândido esclareceu que «estima-se que morrem, em Portugal, por suicídio cerca de 18 pessoas por cada 100.000 habitantes, sendo que no Baixo Alentejo, a taxa média de suicídio, na última década, é de 30,2». A autora acrescentou também que «a fraca perceção de suporte social assume uma elevada significância no fenómeno suicida do Alentejo, sendo que esta variável explica 82,3% da variância da ideação suicida e 74,4% da variância dos resultados da Desesperança». Já na obra ‘Alentejo Prometido’, o investigador e escritor Henrique Raposo esclareceu: «O Norte de Portugal, que representa 35% da população, sofreu 43 suicídios em 2009, 48 em 2010 e 38 em 2011. O Alentejo, que conta apenas com 7% da população, sofreu 144 suicídios em 2009, 113 em 2010 e 105 em 2011. A diferença é avassaladora».

Os últimos dados oficiais, publicados em 2017 pelo Instituto Nacional de Estatística, mostram que, nesta região alentejana, há 54,2 mortes por suicídio por 100 mil habitantes, opondo-se às 22,4 no restante território. O fenómeno abrange, principalmente, os homens (43,6 óbitos por 100 mil habitantes no Alentejo; 17,4 no resto do país).

Existe uma predisposição cultural para a conduta suicida na população do Alentejo e, para além desta característica psicológica, a desertificação, o isolamento, a pobreza e a falta de sentido para a vida constituem os fatores promotores para causar a própria morte de forma intencional. Curiosamente, ao contrário daquilo que defendia o sociólogo Émile Durkheim, teórico do suicídio no século XIX, parece que os laços sociais não estão mais protegidos em ambiente rural.

Se recuarmos até ao estudo da investigadora Paula Santana, conseguimos entender que, tendo por base o mesmo, percecionamos que esta região do país apresenta um dos PIB per capita mais baixos da União Europeia. Em 2008, o PIB per capita no Alentejo foi de 11.6 mil euros. Este valor, especificamente no Baixo Alentejo, era de 10.5 mil euros. Tal contrasta com os 24.847 mil euros, no mesmo ano, do PIB per capita de todo o território nacional. Estes números podem ser encontrados em ‘Alto Alentejo. Caracterização Socio-económica’, da autoria de Conceição Leitão.

Concordando com estes fatores, Henrique Prata Ribeiro assume que existe «um desinvestimento crónico na área da saúde mental» que afeta Portugal de Norte a Sul, mas, no Baixo Alentejo, «grande parte da população preenche todos estes critérios», porém, em determinadas situações, «a religião acaba por ser um fator protetor porque, durante muitos anos, na cultura judaico-cristã, o suicídio era punido. O Alentejo é uma região tipicamente comunista e, culturalmente, poderá haver um peso menos importante da religião».

Quem sempre lidou de perto com este fenómeno é Luísa (nome fictício), de 48 anos, que nasceu na Alemanha mas veio para Portugal com apenas cinco anos. «Viemos para Moura, em Beja, porque o meu pai era do Alqueva e, quando tinha 10 anos, para Lisboa. O meu avô era de Olhão, no Algarve, mas nunca o conheci». Tal aconteceu porque o homem suicidou-se quase há 70 anos. «Os meus familiares romantizam um bocadinho a questão do suicídio e para mim não faz sentido. Aquilo que me contam é que ele apanhou tuberculose e, como era altamente contagiosa, não a queria transmitir a ninguém».

Uma das filhas do homem é a mãe de Luísa, hoje com 78 anos, mas a sofrer devido à doença bipolar há muito. «A primeira imagem de que me lembro, de uma tentativa de suicídio da minha mãe, foi quando tinha cerca de 5, 6 anos. Tínhamos saído todos para uma festa e ela foi parar ao hospital. Fizeram-lhe uma lavagem ao estômago, veio para casa».

Todavia, a patologia viria a agravar-se cada vez mais. «Os meus pais eram donos de uma pastelaria e tínhamos um quarto para fazer sestas. Ela, para tentar novamente, pegou num cinto e não me recordo de muito mais porque gritei e o meu pai apareceu logo», declara, em retrospetiva, dizendo que um dos dois irmãos, atualmente com 52 anos, começou a ter comportamentos diferentes quando cumpriu o serviço militar.

«Inicialmente, achou-se que ele tinha esquizofrenia e, depois, entendeu-se que tem bipolaridade, mas muito mais extrema do que a da minha mãe. Nunca tive ideação suicida. E tenho outro irmão, de 59 anos, que também nunca teve», expõe a terapeuta holística, especificando que a última tentativa de suicídio da progenitora ocorreu há dois anos. «Estava em casa. Tirei fotografias para ter provas. Chamei a polícia e os bombeiros e eles vieram, mostrei-lhas e ela negou que tinha tentado. Habituei-me a lidar com isto. O meu pai faleceu há muitos anos, mas não noto que ela tenha ficado pior, a doença continua grave como sempre».

Depois de um AVC e de um cancro da mama, Luísa nota que a idosa tem estado mais calma. «Não é que quase todas as semanas não diga que se vai matar, mas parece-me que já não tem força para tal», repara, adiantando que esta chegou a contactar a Segurança Social fazendo uma queixa de maus tratos, alegando que não tinha um quarto digno para dormir ou comida suficiente para se alimentar. «Vieram técnicos confirmar tudo e perceberam que não correspondia à verdade. Disseram-lhe que não pode fazer queixas sem fundamento porque é crime. Temos de ter sangue frio para reagir».

«O meu irmão é casado e, de vez em quando, a minha cunhada liga-me porque ele desaparece, fecha-se na arrecadação, pega nas caixas dos medicamentos... Ele é seguido em Psiquiatria, enquanto a minha mãe nega a pés juntos que precisa de ajuda», constata, declarando que já passou com ambos pelas urgências de Psiquiatria e com «o Serviço Nacional de Saúde ajuda com medicamentos para ‘desenrascar’», mas não achou que o impacto na vida dos doentes fosse muito maior do que esse.

«A minha mãe não consegue ter uma conversa positiva, vive com o negativismo. O meu irmão não fala com ela. Ele não conta, mas há algum trauma que ele teve com ela, alguma situação que ele viu e, automaticamente, afasta-se. Quando a minha mãe foi operada, ele nunca foi vê-la. Nem quando teve o AVC», declara, lastimando que a progenitora encare o neto de 21 anos, com quem vivem, como «alguém que não presta».

«Os familiares destas pessoas têm de procurar apoio e não se esquecerem deles mesmos. Pedir ajuda não tem mal nenhum e não é sinal de fraqueza: muito pelo contrário», começa por finalizar. «A campanha Setembro Amarelo tem pouca divulgação e, infelizmente, vou dizer isto com muita tristeza, mas o ser humano está cada vez mais egoísta, julga e critica constantemente. Não entendo o porquê».