Opiniao

As Ordens não estão às ordens

Este Governo lida mal com quem, como nós, coloca a nu as fragilidades de um SNS historicamente subfinanciado e desvalorizado.


Importa começar por esclarecer que há uma grande diferença entre todas as profissões reguladas. No caso dos enfermeiros, e ao contrário dos advogados, não existem estágios nem exames de acesso. No caso dos enfermeiros, e ao contrário dos médicos, os enfermeiros pagam a especialidade do seu bolso porque, apesar das várias tentativas da nossa Ordem, o Governo ainda não quis negociar o internato.

Poderia ficar por aqui, e nestes dois parágrafos estavam arrumados os argumentos do PS para alterar a lei-quadro das Ordens profissionais.
 
O PS sempre lidou muito mal com quem tem pensamento próprio e insiste em não ir com a corrente. Não é preciso recuar muito no tempo para recordar a sindicância à Ordem dos Enfermeiros. Este Governo lida mal com quem, como nós, coloca a nu as fragilidades de um SNS historicamente subfinanciado e desvalorizado.

Se o PS e o Governo estivessem verdadeiramente preocupados com a precariedade dos enfermeiros, estariam a contratá-los em vez de deixá-los fugir para o estrangeiro. Não é a Ordem que impede os enfermeiros de trabalhar, pois não somos nós quem os contrata. Quem dificulta o acesso à profissão é quem paga salários indignos e sujeita os enfermeiros a condições de trabalho desumano. Sobre isso, nem o uma palavra deste PS. Porque será?

A ideia socialista com esta iniciativa é a de colocar tudo no mesmo saco, baralhar os assuntos e dar de novo. Sob o pretexto de que o que está agora em causa são os estágios e as remunerações, o PS esconde a sua verdadeira motivação: calar as vozes incómodas das Ordens Profissionais e colocá-las refém do Estado.

Somos independentes e queremos continuar independentes. É por isso que não dependemos do erário público e os nossos dirigentes são eleitos, não são nomeados com a ajuda deste ou daquele cartão partidário.

Que fique claro: Não precisamos de uma espécie de polícia política, em modo de órgão de supervisão, nem tão pouco da entrada de curiosos no espaço da ação disciplinar. Os últimos dias deixaram clara a agonia de algumas pessoas neste país: são alérgicas a reguladores livres.