Carta de Wall Street

Lusitânia, quo vadis?

A vossa geração está a crescer com uma multiplicação de histórias de ‘distopia’. Esta foi uma palavra que aprendi com vocês! E não faltam cenários nesta tragédia: mudanças climáticas, privacidade perdida, substituição de empregos por robots, possibilidade de a Inteligência Artificial extinguir a humanidade e, para completar a festa uma pandemia.


Por Pedro Ramos

Nova Iorque, outubro 2021

Queridas Filhas,

Deus os abençoou e lhes ordenou: «Sede férteis e multiplicai-vos! Povoai e sujeitai toda a terra; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todo animal que rasteja sobre a terra!». 
Genesis, 1:28

Quando cresci estava rodeado de um otimismo contagiante e uma confiança que o futuro seria melhor do que o passado. O 25 de Abril estava para trás e a democracia consolidava-se A convergência com a Europa era o caminho pela frente. Os meus avós diziam-me que os meus pais viviam melhores que eles, que eu viveria melhor que os meus pais e que os meus filhos viveriam melhor do que eu.

Todos sonhavam com as possibilidades do futuro. Exploração espacial? Biotecnologia? Computadores? Robots? Não faltavam projeções otimistas e cenários de utopia.

A vossa geração está a crescer com uma multiplicação de histórias de ‘distopia’. Esta foi uma palavra que aprendi com vocês! E não faltam cenários nesta tragédia: mudanças climáticas, privacidade perdida, substituição de empregos por robots, possibilidade de a Inteligência Artificial extinguir a humanidade e, para completar a festa uma pandemia. 

Claramente a verdade estará entre os dois cenários extremos. Pessoalmente, prefiro inclinar-me mais para o lado otimista acreditando que a humanidade continuará, apesar de obstáculos, a ser fértil e multiplicar-se como até agora.

Mas ambos os extremos têm a virtude de pensar a longo prazo e desafiar-nos a ver as consequências no futuro das ações que tomamos hoje. Esta ligação entre o presente e o futuro é muito clara quando se estuda a demografia de países. Nesse aspeto temos razões para estar alarmado quanto ao futuro de Portugal. A Figura 1 mostra que a nossa população está a diminuir e assim continuará pelo menos até ao fim do corrente século. Em 2100 estima-se que a população de Portugal seja de apenas 7 milhões.

As más notícias não ficam por aqui. A Figura 2 mostra que Portugal tem uma população muito envelhecida. Mesmo começando hoje, esta tendência demorará mais do que uma geração para inverter. Vemos que a faixa mais populosa são os portugueses dos 40 aos 50 anos (nos quais me insiro). Infelizmente já dificilmente estes portugueses poderão contribuir muitos bebés (com muita pena minha). Depois temos uma queda abrupta do número de portugueses dos 20 aos 30, que estarão na idade mais comum de construir família. E finalmente uma segunda queda na população dos menores de 20 anos.

Este gráfico da Figura 2 é chamado de pirâmide etária. Isto porque em populações estáveis e em crescimento, tende a ser uma pirâmide com a base maior do que as faixas etárias mais avançadas. Mas como vemos, em Portugal o gráfico é mais uma árvore do que pirâmide. A partir dos 40 anos é que se vê a pirâmide. Quer isto dizer que a partir da minha geração (inclusive) os casais portugueses optaram por ter menos do que 2 filhos em média. 

So What? Quais as implicações de tudo isto? Para além da ilustrada pela Figura 1, há implicações sérias. Aqui estão 3:

1. Cada ano vamos ter mais pessoas a reformar-se do que a entrar na população ativa. Isto quer dizer que a carga de impostos e contribuições para a segurança social dos que trabalham terá que aumentar para financiar as reformas e cuidados de saúde dos mais velhos se nada mais se alterar. 

2. Por muito que as gerações mais velhas (incluindo a minha) gostem de se queixar da falta de ambição e capacidade de trabalho das gerações mais novas, a falta de jovens leva a uma ossificação da cultura e da economia. Os jovens trazem novas ideias, perspetivas, coragem e ambições que as gerações mais velhas carecem. E Portugal tem cada vez menos jovens. 

3. A população mundial continua a crescer e prevê-se que atinja quase 11.000 milhões em 2100. Com apenas 7 milhões de portugueses estimados para esse ano, Portugal responderá por apenas 0,06% da população mundial. O nosso peso político e cultural será perto de insignificante. Que pensamos disto? 

Imagino que os meus concidadãos tenham escolhido o conforto de ter menos filhos e viver uma vida mais folgada. Não somos os únicos no mundo. Mas as implicações como vimos acima são sérias. Merecem uma reflexão nacional. Muitos países estão agora a incentivar a natalidade com bons resultados. Ser mãe ou pai nunca foi fácil. Mas os avós e família alargada davam mais apoio do que dão hoje, em que muitas famílias trabalham mais longe geograficamente (incluindo a nossa) e a família nuclear se tem desmembrado. Os pais precisam de ajuda. A família precisa de ajuda. Se nada for feito, Portugal vai perder. As iniciativas que vejo na política familiar tem-se focado no aborto e na eutanásia. Lusitânia, Quo Vadis?