O mundo em calções

O rapaz e o seu peixe

Chegou ao Restelo decidido como nenhum outro. Trazia uma boga num saco de plástico, mas Rummenigge ficou longe demais


Em fevereiro de 1983, Portugal venceu, finalmente, a Alemanha com um golo de Dito (1-0), numa noite fria de vento e chuva. Tinha havido uma tranquibérnia, daquelas do costume no futebol português, e Benfica e Sporting recusaram-se a emprestar os seus jogadores à seleção comandada por Otto Glória, com os dias contados no cargo, limitando-se a ceder um ou outro só para não ficarem mal vistos de todo. Eu estava no Estádio do Restelo nesse noite de Inverno quase insuportável. Com o meu velho irmão José Manuel Mesquita, com o Mário Ramires, com o Gelateiro e não me lembro se também com o Rui Veloso, não o meu amigo Rui Veloso músico de eleição, mas o Rui Veloso da Cidade Luanda, lote 483. Perto de nós, sentado na bancada, estava um rapaz de cenho franzido e ar decidido. Trazia na mão um saco de plástico. Acabou por revelar-nos o que tinha lá dentro: um peixe com mau aspeto, mole, tamanho médio e identidade desconhecida, talvez uma boga. Depois soltou uma frase entredentes, raivosa: «Vou dar com este peixe na tromba do Rummenigge!».

A boga fez-me lembrar um colega da Escola Primária, em Benavente, que levava sempre para as aulas, enfiada no bolso das calças, uma boga metida num pão para comer ao intervalo. Certa vez a boga caiu-lhe para o chão no meio de uma dissertação da professora, coisa que lhe valeu umas valentes achegas da mestra palmatória. O peixe ficou ali, abandonado, até que uma contínua o veio pescar, ou melhor, apanhar desajeitadamente para um balde de lixo. O meu colega ficou sem almoço e com as mãos vermelhas e a latejar e eu pensei se uma simples boga valeria uma dose tão acesa de violência. O miúdo não chorou. Manteve-se orgulhosamente com as lágrimas a brilharem-lhe nas pálpebras sem as deixar cair. Havia nele a tristeza e a revolta. Uma mistura de sentimentos com certa dose de confusão. Fiquei com pena de não trazer também no bolso das calças um papo-seco com uma boga dentro para compensar a sua perda. Mas eu não era daqueles que comia pão com bogas nos intervalos das aulas. Estava muito longe de ter a sua determinação. Ele era um homem; eu era um fedelho. Ficámos amigos. Ele tinha chumbado três vezes na quarta classe e detestava letras e números, os comboios de linha reduzida do Vale do Vouga, Vale do Tua eVale doSabor, o ramal de Trofa a Fafe, as capitais de Província, os 16km2 de Macau, Taipa e Coloane, os grupos de ilhas de Barlavento e Sotavento de Cabo Verde e os 2.963 metros de altitude do Pico Ramelau, em Timor, ponto mais alto de um Portugal que ia do Minho a Timor. Repartíamos a carteira. A boga não. Eu era suficientemente burguês para preferir pão com marmelada.

Olhando para trás, tanto o rapaz da boga, em Benavente, como o rapaz da boga do Restelo eram metáforas.Metáforas de teimosia e persistência. Em Belém, ouvíamos a personagem murmurar por entre dentes: «Ele vai ver! Ele vai ver!». E não conseguíamos perceber a que se devia aquele ódio aoRummenigge que o terá feito vir lá de Alcântara, ou da Amadora, ou de Odivelas, ou do diabo que o carregue, a sacolejar nos autocarros com o saco agarrado com firmeza para que o peixe não saltasse à primeira oportunidade. Mas que ele tinha alguma coisa contra Karl-Heinz, lá isso devia ter.

O meu colega da Escola Primária em Benavente não tinha nada contra ninguém. Era um pachola. Maior do que os outros todos, claro. Nós tínhamos oito ou nove anos e ele já ia nos catorze. Devia ser por isso que a professora o escolhia impreterivelmente para dar uso à maldita palmatória que, nos ditados, entrava em funções ao fim de três erros de ortografia ou dois acentos ou vírgulas fora do lugar. Ele apanhava, cerrava os dentes, engolia a injustiça com a soberba de um príncipe e, com as mãos debaixo dos sovacos, para mitigar a dor, voltava ao seu lugar sem uma palavra.

No final do jogo do Restelo, uma multidão de gente juntou-se à beira do autocarro que iria conduzir a seleção alemã ao aeroporto. Os jogadores saíam dos balneários e do corredor que dava para o parque de estacionamento um a um, de caras fechadas. Nem num jogo a feijões os alemães gostam de perder. Cá fora, a malta, impiedosa, assobiava-os e soltava larachas que, por muita graça que tivessem, eles não compreendiam. De repente, por entre a multidão, um peixe voou. Falhou a cabeça de Rummenigge por pouco. O rapaz do saco de plástico falhou o alvo. Sobrou-lhe uma inevitável frustração. O peixe viajou em vão para falhar o seu destino. Rummenigge e a boga nunca se encontraram. O rapaz do peixe voltou a casa cabisbaixo: Portugal ganhara e ele não.