Pátio das Cantigas

O psicodrama do Orçamento…

Com a sistemática recusa de negociar à direita, o PS ficou refém dos parceiros da ‘geringonça’, enquanto o Presidente agita a possibilidade de eleições antecipadas...


A mercearia tomou conta do Orçamento de Estado. O regateio dos partidos à esquerda do PS, serve não só a teatralidade em cena como de chantagem para viabilizar o documento que vai acomodar o país no próximo ano. Não é sério.

Com a sistemática recusa de negociar à direita, o PS ficou refém dos parceiros da ‘geringonça’, enquanto o Presidente agita o ‘papão’ das eleições antecipadas, persuadido de que assusta as esquerdas, após o revés das autárquicas.

O aparente impasse, não sendo novo, oferece alguns ingredientes inéditos, com o PCP e o Bloco a ‘esticarem a corda’, e a aumentarem a parada, ‘adubando’ o preço do seu voto.

A razão é simples. Após o recuo eleitoral, as esquerdas comunistas precisam de fazer ‘prova de vida’, para se distanciarem de um governo em queda livre, disposto, contudo, a promover ‘saldos de fim de estação’. 

A coreografia, embora repetida, visa dramatizar o documento fundamental, que se fica na abordagem pela rama, explorando soundbites para consumo mediático, em lugar de um amplo debate sobre as suas possíveis virtudes e defeitos. 

A turbulência artificial criada à volta do OE, foi sentida, no entanto, como uma janela de oportunidade por Rui Rio, que tentou ainda o adiamento das eleições internas e a clarificação da liderança. 

Saiu-se mal. Perdeu, mas, ‘picado’, resolveu ‘ir a jogo’.

O volte-face de Rio enfrenta, porém, um pequeno ‘óbice’. A verdade é que há muito se percebeu, dentro e fora do partido, que quem não foi capaz de ser oposição e andou de ‘braço dado’ com o Governo, também não tem perfil para primeiro-ministro. 

Rio não está sozinho à direita, nesse esbracejar de sobrevivência. Francisco Rodrigues dos Santos é outro acossado e, até, Ventura não escapa às disputas intestinas. 

O outono promete. E Marcelo Rebelo de Sousa já intuiu que o calendário do seu segundo mandato não inclui apenas selfies e charme, por muito que lhe custe exercer a autoridade que a Presidência lhe confere. Ou de ser forçado, a ‘contre-coeur’, a dissolver o Parlamento. Daí o psicodrama.

É a hora dos eurodeputados inconformados com os líderes dos seus partidos. No PSD, Paulo Rangel aceitou o desafio de apear Rio. E no CDS, Nuno Melo quer fazer o mesmo a Rodrigues dos Santos.

Os dados estão lançados e ambos parecem apostados em dar razão a Cavaco Silva, cujo diagnóstico, num artigo cirúrgico, é frio e, em larga medida, irrefutável, abanando as esquerdas.

Cavaco tem esse condão. Sabe escolher o timing e escrever de forma a que toda a gente entenda o que lhe vai na alma, com o lastro do professor de economia, habituado aos números e às projeções, que apontam inexoravelmente para o empobrecimento do país – um fatal candidato à ‘liga dos últimos’ –, graças ao seu crescimento anémico, medíocre, inferior à média da União Europeia. Uma decadência anunciada. 

A realidade é esta: em vinte anos de governação socialista, e desbaratados muitos milhares de milhões de euros de fundos comunitários, Portugal não passou da ‘cepa torta’, com a dívida pública em máximos insuportáveis, e com empresas altamente deficitárias no perímetro do Estado, desde a CP à TAP, dois cancros.

As lendas do défice zero e da ‘página virada da austeridade’ não duram sempre e a batota começa a ficar visível, e a gerar um nervosismo destemperado no primeiro-ministro. 

A irritação crescente de António Costa – como se viu no último debate parlamentar – é um mau sinal. A derrota inesperada de Medina em Lisboa trouxe-lhe um duplo ‘amargo de boca’. Perdeu o Município emblemático e deu asas ao seu principal opositor no partido. 

O Governo – um dos mais numerosos e incompetentes em democracia – está desgastado. Apesar disso, Costa tem evitado remodelá-lo, talvez por saber que lhe escasseiam as alternativas.

Mas não se subestimem os talentos do chefe do Governo. A arte do ilusionismo tem nele um histórico respeitável. 

No dia em que escrevemos, continua a ser expectável que o Orçamento acabe aprovado – mesmo que desfigurado, para englobar os apetites do PCP, do BE e do PAN –, com Carlos César, a reboque de Marcelo, a enviar recados às esquerdas fardado de ‘polícia mau’. 

Quando os dinheiros da ‘bazuca’ se evaporarem, ver-se-á que a deterioração do país se agravou, ultrapassado por todos os recém-chegados à União, vindos do Leste e que sofreram na pele a miséria da hibernação comunista.

Ora os portugueses têm o rendimento líquido mais baixo da Europa ocidental, mas pagam a sétima carga fiscal mais elevada sobre o trabalho, segundo os dados do Eurostat. 

Em contrapartida a dívida publica portuguesa mais que duplicou em duas décadas (135,2% do PIB) e é hoje uma das mais altas do mundo.

O semáforo da falência voltou a piscar. Se isto não é alarmante e não dá razão aos avisos de Cavaco, que venha o diabo… e explique.