Desporto

Campeonato. Uma águia sem saber ler nem escrever...

O Benfica, tal como na época passada, entrou por um caminho de displicência e de futebol sem qualquer objetividade – vitória sem brilho em Vizela (1-0). É claramente, dos três candidatos ao título, o que apresenta menos trabalho coletivo e sujeita-se a ser batido por adversários menores.


Depois de uma semana entretidos com a Liga dos Campeões, os três candidatos ao título regressaram às lides nacionais, cada um deles com um peso diferente sobre os ombros, como sabemos. Goleando o Besiktas em Istambul, o Sporting parecia regressado à sua forma mais ostensiva, mas nem por isso deslumbrou na receção ao Moreirense. A superioridade esteve em campo e no resultado: 1-0 (mais um golo de Coates), mas não foi exuberante como o esperariam os seus adeptos após a viagem de luxo à Turquia de onde voltou com um dos resultados mais expressivos na sua história na Liga dos Campeões. Foi, de alguma forma, o que se pôde arranjar, e como a vitória vale três pontos, marquem-se os golos que se marcarem, o Sporting continua a par do FC Porto na sua corrida particular pela revalidação do título, o que seria algo de importantíssimo para o futuro do clube e para o seu reaparecimento como verdadeiro gigante do futebol em Portugal.

O FC Porto, por seu lado, depois de ter batido o Milan em casa (1-0) numa bela noite europeia, foi a Tondela deixar a sua habitual imagem de competência e compacidade, vencendo por 3-1, com três golos de Taremi, e demonstrando que mantém o espírito de combate que faz parte da filosofia do seu treinador, Sérgio Conceição. Apesar de algumas guerrilhas internas que se ouviram um pouco por toda a parte, a equipa não tremeu e, tendo como natural a goleada em casa face ao Liverpool, recuperou um rasgo competitivo que a faz, neste momento, e na opinião de quem assina, claro está, na mais séria candidata à vitória nesta edição do campeonato nacional. As opiniões não são para cair do céu aos trambolhões sem estruturas que as suportem. Há no FC Porto uma vontade de superação que pode vir a fazer toda a diferença nesta maratona semanal de jogos maioritariamente acessíveis para os três grandes. E, sobretudo, porque raramente dá de barato o facto de assumir a sua superioridade sem lhe juntar um toque de “raiva” que continua a fazer a diferença para os rivais.

Em Vizela, o costume O grande problema do Benfica continua a ser, tal como na época passada, a forma como passa sempre meia hora de cada uma das suas horas e meia de jogo envolto numa displicência absolutamente incompreensível. Foi assim com o Portimonense, oferecendo todo o primeiro tempo ao adversário graças a um futebol molenga e só fazendo verdadeiramente o seu papel depois de sever a perder, foi assim contra o Trofense, para a Taça de Portugal. Acabou por ser assim também um pouco frente ao Bayern, depois de ter conseguido manter um equilíbrio com o seu quê de falso durante 75 minutos – não teria sido avisado, sabendo como Sané marca os livros diretos, colocar um jogador junto do poste onde a bola do primeiro golo acabou por entrar?

Ontem era altura de deitar para trás das costas a fase nitidamente má que está a passar e que levou a ter outra vez os dois maiores opositores à distância de um bafo. Mas não foi isso que aconteceu. Um futebolzinho de passa e repassa, inócuo, bocejante, sem o mínimo interesse pela baliza contrária fez com que o Vizela se sentisse completamente à vontade para dar largas ao seu descaramento. Foi preciso esperar meia-hora para ver um jogador do Benfica criar um lance de golo, através do seu defesa direito, Diogo Gonçalves. Chega a ser aflitivo olhar para os nomes que compõem a equipa titular dos encarnados e ver como o seu jogo é pobre, sem criatividade e de agressividade quase nula. Em relação ao desastre que foi a época passada, a evolução é curta e só se nota numa maior consistência defensiva.

Em comparação com os principais rivais, o Benfica é, claramente, mais desleixado e menos objetivo. Está vários passos atrás de FC Porto e Sporting na formação de um coletivo cuja mecânica entre pelos olhos dentro e vai ficando irritantemente à espera que as vitórias surjam por obra e graça do talento de alguns dos seus jogadores, como por exemplo Rafa – que a viver um momento de baixa de forma, ainda conseguiu ser decisivo. E assim, os encarnados estão sempre sujeitos a verem-se batidos por equipas nitidamentte mais fracas, como já sucedeu com o Portimonense e esteve para suceder mais duas ou três vezes. O golo de Rafa (aos 90+7m) salvou ontem uma águia que, como se costuma dizer, ganhou sem saber ler nem escrever... Mas aguentou-se na frente. Para muitos só isso importa.