O mundo em calções

O mais longo caminho para casa

"Nem os pés de Deus poderiam alguma vez imitar os de Quaresma. Enrolavam-se um no outro como cobras no nó das fintas"


Uma noite quente instalou-se sobre o Sado neste Verão tardio que teima e aquecer-nos a alma. Na minha varanda da qual se abrange toda Alcácer e os campos de arroz para lá do rio, fico à escuta, atento aos sons que me chegam de longe, entrecortados. Canções ciganas, dolentes, uma guitarra, o ritmo das palmas. Uma espécie de embalo que me leva à Águeda da minha infância e aos ciganos que acampavam para lá da ponte, no Sardão, e acendiam fogueiras ao lado das carroças por entre o tagarelar das mulheres, os gritos das crianças e o ladrar dos cães sarnosos. Uma vez vi um cigano canhoto tocar enlouquecido, dedilhando as cordas como se tivesse sido feito prisioneiro do duende de García Lorca. Nesse tempo eu ainda não sabia quem era El Lebrijano, criador da Debla, nem sequer a velha bailarina La Malena. Ficava fascinado com as chamas do fogo que se prolongavam nos dedos finos do cigano canhoto subindo e descendo como aranhas no braço da viola e desejava um dia saber tocar assim músicas como aquelas que iam por dentro de nós, bem ao fundo, ao lugar onde começam a nascer as lágrimas.

Gosto de ciganos. Estou-me nas tintas que andem nos autocarros sem pagar, os transportes públicos deviam ser gratuitos para todos, e a gente, lá nos Olivais Sul, fazíamos os possíveis e impossíveis para nunca pagar nos autocarros ainda que, para isso, tivéssemos de mergulhar os tickets pré-comprados em água quente para fazer desaparecer os carimbos e fazê-los passar de novo no obliterador, com outro por baixo de forma a fazer funcionar a maquineta que cortava um dos cantos.

Vieram um dia dos confins do Leste, da Índia, e espalharam-se pelo mundo decididos a não terem regras e a viverem à margem da sociedade no mais longo dos caminhos para casa.Esse espírito libertário nunca me deixará de encantar. E a sua capacidade de terem duende, que é o ponto mais alto da arte que vem da alma e se desenvolve sem matemáticas nem equações, sem senos e cossenos. «O duende não está na garganta; o duende sobe por dentro a partir da planta dos pés». O duende arrepia. Como uma brisa que viesse das estepes do Don e me fizesse, por segundos, tremer nesta varanda sobre o Sado de onde oVerão se recusa a sair e onde chegam, vindos de longe, os tons melancólicos das canções ciganas que, como as gaivotas noturnas, pousam suaves nas águas do rio.

O meu amigo Carlos Lopo, que era dos Olivais Sul mais de baixo, da zona do Chafariz, costuma contar uma história maravilhosa. Em garoto, também fascinado pela música dolente de um grupo de ciganos, juntou-se-lhes, à escuta. Quando o ritmo de bater os peitilhos, ou seja, fazer estalar os dedos, entrou por ele adentro, sentiu-se mais um por entre tantos. Quando as palmas estralejaram acompanhando a guitarra, não resistiu a juntar-se-lhes. Até que, a seu lado, um homem alto, cabelo negro e escorrido, se virou para e disse, calma mas resolutamente: «Quem na sabe bater na bate».

Os ciganos dançam quando estão alegres para comemorarem a celebração da vida; os ciganos dançam quando estão tristes para transmitirem os seus sentimentos e emoções.

Gosto muito do Quaresma e ele sabe disso. Tem aquele jeito manso de falar e um espírito de menino eterno. Nunca vi ninguém dançar no campo como ele. Ah! «Que chorró está el chibé que non pueden andar los chiqueles!». O duende tomava conta dos seus pés que, por vezes, pareciam estar ao contrário, e não havia nada que o parasse. Lorca escreveria sobre o seu futebol meio enlouquecido: «Espírito da terra, o mesmo duende que abraçou o coração de Nietzsche, que o buscava em suas formas exteriores sobre a ponte Rialto ou na música de Bizet, sem encontrá-lo e sem saber que o duende que perseguia tinha saltado dos misteriosos gregos às bailarinas de Cádiz ou ao dionisíaco grito degolado da seguiriya de Silvério». Vi-o marcar golos dignos de um prestidigitador, o prestidigitador dos pés. Magia pura e simples. Não ficava nada por explicar. Era ele e o seu duende e nada mais!

Os jambos, os estranhos, corriam atrás dele, mas parecia que não queriam tirar-lhe a bola, só ver de mais perto possível o que o Ricardo iria inventar com ela. Tenho saudades dos seus golos em elipses, desenhadas com a parte de fora do pé. «Mira lo que querela, Otibé!». («Vê o que fazes, Deus!»). Sim, porque nem os pés de Deus poderiam alguma vez imitar os de Quaresma. Enrolavam-se um no outro como cobras, desfaziam o nó das fintas, e criavam um arco-íris ao qual não faltava nenhuma cor. E o céu brilhava de azul cada vez mais longe de casa...