À esquerda e à direita

Marcelo, o mau da fita

Parece óbvio que os cinco partidos querem sacudir a água do capote e que encontram em Marcelo o bode expiatório perfeito


Nunca fui dado a contas, por isso me esqueço de tantos aniversários de familiares e amigos, mas uma pesquisa rápida no famoso Google - será que também vai mudar de nome? - acaba por nos avivar a memória. E assim chegamos a 4 de outubro de 2015, quando a coligação do PSD e CDS ganhou as eleições legislativas, mas sem maioria absoluta.

O PS já antes dessa data começara conversações com o BE e o PCP para a eventualidade de conseguirem juntos uma maioria parlamentar. A 26 de novembro António Costa tomou posse como primeiro-ministro, depois de garantir ao Presidente de então, Cavaco Silva, que cumpriria com as seis questões essenciais pedidas pelo Presidente, mostrando até uma declaração assinada pelos seus parceiros de geringonça.

Avancemos agora até 27 de outubro de 2021. O Parlamento vota a aprovação do novo Orçamento do Estado, com a promessa do Presidente da República, agora Marcelo Rebelo de Sousa, de que dissolveria a Assembleia da República se o documento não fosse aprovado. O que veio a acontecer. Recuemos uns dias. A 11 de outubro, há 19 dias, portanto, o líder do CDS anuncia o congresso do partido para os dias 27 e 28 de novembro, declarando que se vai recandidatar, tendo a certeza de que Nuno Melo seria seu adversário. A 29 de outubro (ontem), Francisco Rodrigues dos Santos declara que, afinal, não vai haver congresso antes de janeiro, impossibilitando o seu adversário, em caso de vitória no referido congresso, de concorrer às legislativas.

Andemos outra vez uns dias para trás. A 13 de outubro, foi a vez do PSD anunciar as diretas para 4 de dezembro, deixando a data de 11 de dezembro para uma eventual segunda volta. O congresso que aclamaria o novo líder, Rui Rio ou Paulo Rangel, realizar-se-ia a 14 e 15 de janeiro. Uma vez que uma eventual nova liderança precisa de tempo para poder apresentar a sua equipa para concorrer às legislativas, o opositor de Rui Rio, Paulo Rangel, apelou à antecipação do congresso de janeiro para dezembro. Agora, são cada vez mais os nomes afetos a Rui Rio que dizem não fazer sentido antecipar o congresso, independentemente do vencedor das diretas de 4 de dezembro. Isto faz algum sentido? E não é que Rui Rio ontem acabou por defender que não «devem haver eleições internas»? Digamos que o PSD e o CDS querem suspender a democracia interna até às eleições legislativas. Ah! E quem é o culpado disto tudo, segundo ambos os partidos? Marcelo Rebelo de Sousa.

Olhemos para a geringonça. O PCP e o BE tentaram esticar a corda ao máximo, no que diz respeito à aprovação do Orçamento, mesmo sabendo que Marcelo dissolveria a Assembleia da República em caso de chumbo. O PS, nessa altura, assobiava para o ar, mas atualmente pede eleições o mais rápido possível para que a direita não se possa reorganizar. Com a reprovação do documento, o BE e o PCP pediram mais tempo para encontrar outras soluções. Aproveitando a boleia, António Costa assume que não se demite e que acredita que poderá governar em duodécimos. E de quem é a culpa, segundo todos os partidos da geringonça? De Marcelo Rebelo de Sousa.

Para a história se tornar mais engraçada, o PCP e o BE são agora contra eleições antecipadas. Querem tempo para encontrarem um novo caminho. E que caminho será esse? Um novo Orçamento? Um Governo de duodécimos? Um novo Governo com membros seus no Executivo? Surreal.

Parece óbvio que os cinco partidos querem sacudir a água do capote e que encontram em Marcelo o bode expiatório perfeito. Sabem, em princípio, que nas próximas legislativas o país pode ficar ingovernável, mas mais importante do que isso, pelo menos para a ex-geringonça, que o Chega pode cavalgar a onda e alcançar um resultado acima dos dois dígitos. Não deixa de ser irónico que uma solução inventada para correr com a direita acabe por ser a eventual responsável pelo enorme crescimento da extrema-direita. 

vitor.rainho@sol.pt