Retratos Contados

As Horas

Os ponteiros dos relógios (os mais novos já não sabem o que são ponteiros de relógios uma vez que nasceram a olhar para relógios digitais), marcam o minuto do nosso nascimento, as horas de alegrias e sofrimento, de angústia, de amor… e irão certamente marcar a hora da nossa morte.


Querida avó, Este fim de semana chega o (detestável) horário de inverno. Que nervos. Anoitece muito mais cedo e existem dias que às 17h já é noite. Não gosto nada!

Quando terminam com isto de andar a mexer nos horários duas vezes por ano?

Já que não podemos ter sempre o bom tempo, pelo menos que nos deixem ficar eternamente com o horário de verão!

Recentemente, numa visita a um Museu li: «Um martelo muito grande, bate 24 vezes num sino de acordo com o número das 24 horas do dia e da noite; de modo que à primeira hora da noite dá uma pancada; à segunda duas, à terceira, três, e à quarta, quatro; e assim se distingue uma hora da outra, o que é da maior necessidade para todo o género de homens».

Os ponteiros dos relógios (os mais novos já não sabem o que são ponteiros de relógios uma vez que nasceram a olhar para relógios digitais), marcam o minuto do nosso nascimento, as horas de alegrias e sofrimento, de angústia, de amor… e irão certamente marcar a hora da nossa morte.

Gosto imenso da passagem do teu livro Se Perguntarem Por Mim, Digam Que Voei quando falas da entrada de Olinda Dulce pela primeira vez na Casa dos Três Anjinhos e descobre que todos os relógios estavam parados.

Recordo-me que na escola muitas vezes líamos o trava-línguas:

«O tempo pergunta ao tempo

quanto tempo o tempo tem.

O tempo responde ao tempo

que o tempo tem tanto tempo

quanto tempo o tempo tem».

Um dos meus personagens preferido de Alice no País das Maravilhas é o Chapeleiro louco que anda sempre agarrado aos relógios. Gosto quando ele diz: «Já é tempo de perdoar ou esquecer, ou esquecer e perdoar. O que vier primeiro ou o mais conveniente».

Agora, se não te importas, vou ver se cá em casa é necessário acertar a hora a algum relógio. Já te disse que detesto o horário de inverno?

Bjs

 

Querido neto, Aqui está uma coisa em que nunca estaremos de acordo. Eu acho que a mudança de hora está muito bem assim. Há coisas que requerem mesmo a noite – que graça tinha andarmos nos bares ainda com sol? Mas adiante.

Achei graça quando te referiste a uma personagem chamada Olinda Dulce, do meu livro Se Perguntarem Por Mim, Digam que Voei.

Como estás farto de saber, em miúda eu nunca falhava uma revista do Parque Mayer. E adorava uma atriz, que devia ser pouco mais velha do que eu, que enchia os palcos. Ela dançava, cantava e, como andava pela minha idade, eu até pensava que podia ser eu a estar ali aos pulos.

Chamava-se Olinda Dulce. Depois crescemos e ela desapareceu dos palcos. Muitos anos depois perguntei ao Luís Francisco Rebello – que era quem mais sabia de teatro entre nós, se sabia que era feito dela.

Para meu grande espanto, ele diz-me que nunca tinha havido nenhuma artista de teatro com aquele nome, eu devia estar confundida. E foi buscar-me livros e mais livros onde, realmente, não havia ninguém com aquele nome. Os meus amigos atores também me diziam o mesmo.

E eu convenci-me que aqueles anos todos que tinham passado me tinham feito baralhar o nome da miúda. E escrevi um pequeno texto no Diário de Notícias, onde então trabalhava, “vejam lá a nossa memoria, bastam alguns anos para baralharmos tudo, até imaginei que havia uma jovem atriz chamada Olinda Dulce que afinal nunca existiu,” etc...

No dia seguinte recebo um telefonema na redação, de uma senhora a dizer-me que tinha lido o meu texto, e que a Olinda Dulce tinha existido, claro, era sua irmã, tinha-se retirado dos palcos muito cedo e estava a viver na Suíça – e que tinha ficado muito contente por saber que havia alguém que ainda se lembrava dela!

E por isso resolvi homenageá-la dando o seu nome a uma personagem de um dos meus livros. Ainda bem que gostaste. Tu acerta os relógios! Estás quase a celebrar mais um aniversário…

Bjs