Politica

Costa vai à luta pela maioria absoluta

Caso os socialistas não reforcem a maioria no Parlamento, a vida ficar complicada para António Costa continuar a governar, depois de as relações com o PCP e com o BE terem azedado.


Depois do chumbo do OE2022, políticos, analistas e comentadores fazem contas e tentam perceber quem poderá beneficiar mais com eleições legislativas antecipadas.  Já quanto a saber-se quem poderá sair mais prejudicado há uma quase unanimidade: BE e PCP serão os mais penalizados por lhes ser assacável a responsabilidade maior pelo chumbo do Orçamento para 2022. Resta, porém, saber em que medida pode ou não o PS sair também prejudicado. Ou, então, em que medida pode António Costa ver satisfeito o seu objectivo, confessado, de o PS sair de eleições com uma «maioria reforçada» como a que já adiantou que vai pedir aos portugueses.

O resultado ‘de sonho’ dos socialistas, e de António Costa, seria um reforço da maioria no Parlamento correspondente a uma maioria absoluta quelhe permitisse governar sem condicionamentos. Mas, mesmo que não  chegue matematicamente à maioria absoluta, António Costa pode ainda ver a sua pretensão satisfeita com uma maioria parlamentar em que lhe baste um acordo com o PAN para viabilizar um novo Governo. 

Sinais dessa aproximação entre o PS e o PAN já foram dados na discussão sobre o OE2022, onde a deputada Inês de Sousa Real se emocionou,  apontando o dedo à esquerda e acusando o chumbo do Orçamento, defendendo acreditar que «fazer oposição não é só votar contra». A mensagem foi recebida com agrado por António Costa, que, citou várias vezes o discurso da deputada do PAN durante o debate do OE2022.

Em ambos os cenários (maioria absoluta ou bastante com o PAN), António Costa ganha novo fôlego para mais quatro anos de governação e de liderança do PS.

Mas há outros cenários que os socialistas vão equacionando nos bastidores e que motivam animadas discussões.
Por exemplo, a hipótese de só uma reedição da ‘geringonça’ de 2015 permitir estabilidade governativa. 

Nesse caso, os socialistas vaticinam que, face ao que se passou nas negociações que conduziram à rutura entre o Governo de Costa, o PCP e o BE, novas negociações à esquerda só poderiam ser protagonizadas pelo socialista Pedro Nuno Santos, atual ministro das Infraestruturas e da Habitação – e lembram que Pedro Nuno Santos, no dia em que o OE foi chumbado, chegou mais cedo ao hemiciclo para cumprimentar, um a um, os deputados do PS e parar à conversa tanto com os deputados do PCP como com os deputados do BE.

Outro cenário igualmente complicado para António Costa é o de uma situação de polarização tal que só o Bloco Central permita uma solução de Governo.

Ao longo dos anos, António Costa foi sempre frontalmente contra o Bloco Central, mesmo quando Rui Rio lhe lançou a esacada. Recorde-se, por exemplo, a sua entrevista à revista Visão, em julho deste ano, quando António Costa reiterava que «andar à procura do bloco central» era a mesma coisa que «andar à procura de gambozinos».
Assim sendo, caso o resultado das eleições legislativas antecipadas aponte para essa necessidade de acordo entre PS e PSD, o problema pode colocar-se nos dois principais partidos. Isto porque também no PSD Paulo Rangel já garantiu que, caso seja ele o líder dos sociais-democratas, «não haverá Bloco Central».

Ou seja, esse cenário só seria possível com Rui Rio – que ainda ontem, em entrevista à SIC se recusou a esclarecer uma posição definitiva (tanto em relação ao Bloco Central como em relação ao Chega) – e com outro líder socialista, que nunca seria Pedro Nuno Santos.

Entre os socialistas, aliás, é o cenário em que menos se aposta, ainda que haja quem avance nomes como o do eurodeputado Francisco Assis, ou o do secretário-geral adjunto, José Luís Carneiro. Um como outro, porém, não têm tropas no partido.

Comunistas acusam PS de ‘só querer maioria absoluta’

Mas a vida não está fácil mesmo é para os partidos mais à esquerda.

Jerónimo de Sousa desfez-se em comentários e críticas aos desenvolvimentos que se seguiram ao chumbo do OE2022, durante um comício em Évora.

O líder comunista acusou, principalmente, as eleições antecipadas que se avizinham de serem «desnecessárias», responsabilizando António Costa  por promover a ida às urnas para tentar «ter maioria absoluta».

«Não desejamos eleições, nem elas são inevitáveis. Porque nada obriga a que da rejeição do OE resulte a necessidade de dissolução da Assembleia da República e de convocação de eleições», argumentou Jerónimo de Sousa, que reforçou também que existe a possibilidade de o país ser governado em duodécimos, como, segundo fez questão de recordar, já aconteceu.

«Nada impede que o Governo entre o ano de 2022 com gestão em duodécimos. Para quem tem memória curta lembremos que assim foi durante três meses em 2020, para já não falar do período ainda mais extenso em 2016», defendeu o líder comunista.

Jerónimo de Sousa apontou armas também a Marcelo Rebelo de Sousa, acusando o Presidente de manter «a intenção de convocar eleições sem necessidade para o fazer». «Se decidir introduzir elementos de instabilidade, então tem de assumir essa responsabilidade e retirar daí também as inevitáveis consequências de forma clara e com brevidade», concluiu.

Na mesma onda, Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, assinou um e-mail enviado aos militantes, onde acusou o PS de ter «conduzido o país a uma situação de crise política que resultará certamente em eleições legislativas antecipadas», numa altura em que ‘alertou’ para o discurso socialista que se adivinha associado à maioria absoluta no Parlamento, e que, apontou Catarina Martins, colocará o BE como um dos culpados pelo chumbo do OE2022.

«Em vez de cálculos eleitoralistas, o Bloco enfrenta as escolhas mais difíceis a partir da consistência do seu compromisso», defendeu a líder bloquista, que deixou ainda uma coisa clara: «Não desejámos estas eleições mas enfrentamo-las de peito aberto, com a segurança das nossas razões».