Sociedade

Trânsito. O regresso que ninguém pediu

Lisboa e Porto estão com níveis de trânsito mais elevados do que antes da pandemia, até porque ainda há muita gente que tem receio de usar transportes públicos.


No filme Um Dia de Raiva (1993) do realizador Joel Schumacher, William Foster, interpretado por Michael Douglas, está preso no trânsito, em Los Angeles, durante o dia mais quente do ano, até que, frustrado, abandona o carro e decide fazer o caminho a pé pela cidade, enquanto provoca o caos e comete diversos atos violentos. 

Nesta longa-metragem, Foster demora cerca de quatro minutos a abandonar o carro, ora, caso o personagem vivesse em Lisboa, segundo a plataforma de análise de trânsito TomTom Traffic Index, este iria perder durante a hora de ponta, em viagens de 30 minutos, cerca 13 minutos e, à tarde, cerca de 15. No total, os condutores em Lisboa perderam cerca de quatro dias e 12 horas no trânsito, em 2020, mais dois dias e sete horas do que no ano anterior. 

Joana Carvalho, foi viver recentemente para Lisboa e conta que nunca se sentiu frustrada ao ponto de abandonar o carro, por exemplo, no meio da Segunda Circular, mas confessa-nos que, agora, gasta cerca de 30 minutos no trânsito, apesar de por vezes chegar a ficar 45 minutos parada no carro, uma mudança nova na sua vida. «Antes tinha a sorte de fazer um percurso em que quase não ficava parada no trânsito e atualmente é raro o dia em que isso não acontece». 

Confrontada sobre se já teve que lidar com um William Foster, confessa que nunca teve de enfrentar nenhum condutor violento, mas o mesmo não pode ser dito sobre os seus colegas. «Já tive colegas que relataram situações no trânsito em que o condutor chega a sair do carro para ir discutir com outra pessoa», revela. 

«Nota-se que as pessoas estão frustradas, pois à mínima falha, por exemplo, demorar mais tempo a arrancar num semáforo, existem condutores que começam automaticamente a buzinar», acrescenta.

Não será um exagero dizer que a pandemia deixou um impacto na vida de todos e nos seus hábitos, até nos hábitos de condução e no trânsito das grandes cidades, que, segundo a plataforma da TomTom, estão mais congestionadas do que antes da pandemia.

Se em março de 2020, quando a pandemia da covid-19 obrigou Portugal a encerrar portas e os seus habitantes confinados e praticassem o teletrabalho, reinava o silêncio nas principais artérias de Lisboa e do Porto. Agora, o som dos motores, das buzinadelas e até de condutores frustrados volta a reinar. 
Apesar de existirem factos que comprovam que agora existe mais trânsito nestas cidades, esta constatação é óbvia para os condutores ouvidos pelo Nascer do SOL. Joana, natural de Oliveira do Hospital, utiliza sobretudo o seu carro para se deslocar para o local de trabalho e é nestas viagens que constata a confusão que reina nas estradas da capital portuguesa. 

«Noto que existe realmente mais trânsito em comparação com aquilo que existia antes da pandemia», afirmou Joana Carvalho. «O tempo que demoro da minha casa até ao meu local de trabalho é agora maior do que antes e apanho trânsito em zonas que antigamente não acontecia», explicou, acrescentando ainda que, entre as pessoas que trabalham com ela, e que costumavam utilizar transportes públicos, agora, deslocam-se na sua maioria através de viatura própria. «As pessoas ainda têm medo por causa do covid-19 e continuam a preferir vir no seu próprio carro».

Alternativas ao trânsito
Segundo a aplicação TomTom Traffic Index, na sexta-feira, 29 de outubro, às 8h da manhã, existia um congestionamento de 72% nas estradas de Lisboa, em comparação, no mesmo dia à mesma hora, em 2019, estava em 60%, enquanto em 2020, a sete dias antes de regressar ao estado de emergência, as estradas de Lisboa apresentavam um congestionamento de 41%. E é devido a este trânsito caótico que Alexandre Santos, natural de Cem Soldos, em Tomar, que trouxe recentemente o seu carro para Lisboa, opta por utilizar transportes públicos ou alternativos. 

«Costumo deixar o carro na garagem e só o utilizo quando preciso de ir às compras e para regressar à minha terra natal ou para dar uns passeios», começou por explicar ao Nascer do SOL. «Moro numa zona mais periférica de Lisboa, quase no seu extremo, quando preciso de ir ao centro da cidade é muito raro utilizar o carro, já sei que vou apanhar muito trânsito e prefiro utilizar meios de transporte públicos, como o metro ou o autocarro, ou as bicicletas da Gira».
Segundo Alexandre, o seu local de trabalho situa-se no «coração de Lisboa» e, por isso, «dúvida» que compense utilizar o seu carro para se deslocar até este local, mas também não é algo que o preocupe, justificando que as «alternativas» nunca o desiludiram. 

«A melhor alternativa são sempre os transportes públicos, apesar de toda a segurança e conforto que o carro oferece, o stresse que o próprio trânsito acaba por gerar no condutor não compensa, uma pessoa acaba por passar o resto do dia frustrado», confessa. «Prefiro usar transportes públicos, onde vou mais relaxado, posso ouvir uma música ou um podcast descansado e rapidamente chego ao meu destino», esclareceu, revelando ainda que também utiliza as bicicletas da Gira, apesar de nem sempre estarem disponíveis. 

«Quando é possível, utilizo as bicicletas da Gira, porque, com a pandemia, muitas pessoas criaram conta nesta plataforma e, muitas vezes, quando tento utilizar uma bicicleta logo pela manhã já não existe nenhuma disponível nas suas estações», afirmou, revelando a sua frustração, mesmo considerando que é uma grande inovação para a cidade.
Quando questionada se pondera seguir o exemplo de Alexandre, Joana é perentória: «Atualmente não me vejo a andar de transportes para o meu trabalho. Primeiro, não tenho transportes diretos entre a minha residência e o meu local de trabalho, o que implicaria demorar quase o dobro do tempo nesta deslocação», justificou, acrescentando que ainda tem receios devido ao estado da pandemia em Portugal. «Não me sinto totalmente segura num transporte público em hora de ponta», confessou. 

Alexandre vive uma situação oposta, este desloca-se para o trabalho numa bicicleta ou de metro e, até ao momento, sente-se seguro neste transporte público. «Como as pessoas estão a usar mais o seu próprio carro, sinto que o metro está um pouco mais vazio durante a hora de ponta, o que é bom, porque permite manter o distanciamento de segurança perante as outras pessoas». 

As mudanças 
Algo que ambos concordam é que poderiam ser feitas mudanças para simplificar as deslocações na capital portuguesa e para descongestionar o trânsito. 

Para Alexandre, a otimização desta questão passa pela melhoria e aposta na utilização de bicicletas na cidade. «Gostaria que fosse feita uma otimização das ciclovias, com uma maior ligação entre os vários pontos da cidade, e que os municípios oferecessem um incentivo à compra de bicicletas elétricas, por exemplo, ao cobrir uma certa percentagem deste transporte a cada cidadão, isto poderia motivar as pessoas a deixar o carro em casa e a utilizar mais este meio de transporte alternativo e amigo do ambiente, não só ia ajudar a descongestionar o transito, mas também é uma solução amiga do ambiente».

Na opinião de Joana, que considera «que Lisboa estagnou muito nos últimos anos no desenvolvimento da rede de transportes públicos», deveria ser feito um investimento para melhorar e ampliar a rede de transportes. 
«É difícil de perceber porque é que há zonas de Lisboa, que têm um elevado número de residências e de empresas, e que quase não têm acesso através de transportes ou que o que existe é residual», questiona-se. 
«É importante melhorar e ampliar a rede de transportes, que poderia ser uma ajuda para diminuir o número de carros na estrada, mas também, aumentar a frequência dos transportes, por um lado, tornava mais fácil a gestão dos horários e, por outro, pensando em relação à covid, acredito que as pessoas sentir-se-iam mais confiantes, pois à partida os passageiros estariam distribuídos pelos vários autocarros».

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