Opiniao

Já vai tarde

Diz-se, por aí, que o CDS está a ver partir os seus melhores. Se estes são os melhores, nem quero imaginar como serão os outros!


Por Pedro Ochôa

Adolfo Mesquita Nunes resolveu sair com estrondo do partido que lhe conferiu notoriedade, argumentando que já não se identifica com as ideias e com a postura que hoje são a bandeira do CDS.

Diz sentir-se a mais num partido que, no seu entender, deixou de representar os valores em que acredita, acusando alguns dos seus pares de apontarem um dedo acusador a quem, no CDS, não confirme uma suposta pureza cristã.

E este é, precisamente, o cerne da questão: o CDS é, na sua génese, um partido social cristão, cujas políticas pelas quais se deve bater são as preconizadas na doutrina social da Igreja.

Acontece que o CDS nos últimos anos, mas com maior relevo durante o consulado de Assunção Cristas, no qual pontificou Mesquita Nunes, se afastou progressivamente dos valores mais caros do catolicismo, aproximando-se das teorias libertárias apregoadas pelos liberais que, supostamente, se movem no espaço político da direita.

Com Cristas, e com parte considerável da equipa que a suportava, e na qual o agora recém-desfiliado do partido se movia como peixe na água, defendeu-se, entre muitos dos seus dirigentes, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a adopção de crianças por casais homossexuais, as quotas para mulheres e muitas outras causas que estão nos antípodas daquelas com as quais o eleitorado do CDS, conservador e católico, sempre se identificou.

Em sentido contrário, abandonaram-se razões que deveriam estar na primeira linha de um partido de natureza cristã e com forte ligação à terra, como a defesa intransigente da família e a consequente recusa de todas as causas fracturantes que têm sido impostas pelos marxistas libertários, e a preservação do mundo rural, com especial incidência no respeito pelas actividades tauromáquicas e da caça.

O CDS sempre se afirmou, também, como um partido soberanista, para quem os superiores interesses da Nação se sobrepõem a quaisquer outros, sendo que a soberania nacional não pode ser questionada por pressões externas, cabendo aos portugueses, em exclusivo, a decisão final sobre os assuntos mais relevantes para a sua vida em sociedade.

Sucede que igualmente essa faceta, bem vincada nos fundadores do CDS, foi esquecida pelos liberais que agora bateram com a porta, por sinal quase todos cúmplices do passismo e, como consequência, da submissão e subordinação às ordens dos burocratas de Bruxelas e da alta finança internacional.

Na verdade, estes liberais que agora abandonaram o barco, logo que se aperceberam de que este se movia em águas mais tempestuosas, há muito que o deveriam ter feito. Foram eles, e não o actual presidente, apesar de todos os defeitos que, eventualmente, possa carregar consigo, que decretaram a morte do CDS, catapultando-o para uma expressão mínima.

Não foi Rodrigues dos Santos quem deixou o partido nas ruas da amargura, com cinco míseros deputados no hemiciclo e as finanças internas completamente depauperadas.

Foram Cristas e o seu vice-presidente, que agora se vitimiza, que herdaram um partido então com dezasseis deputados.

Não foi a actual direcção do CDS a responsável pelo aparecimento e crescimento do Chega, mas sim os anteriores dirigentes que, ao desprezarem os valores mais prementes para o eleitorado do partido, permitiram que outro viesse preencher um vazio que lhe foi oferecido de bandeja, tomando como suas principais bandeiras aquelas que em tempos foram empunhadas pelas cabeças mais lúcidas que passaram pelo Largo do Caldas.

Primeiro Portas e depois Cristas, esta última de forma bem mais descarada, descaracterizaram progressivamente o CDS, conduzindo-o para um caminho que, até então, nunca fora o seu, aproximando-o de um liberalismo desenfreado, numa primeira fase na sujeição da economia aos interesses corporativos dos principais actores do jogo financeiro, e, posteriormente, aos próprios costumes, tão caros às bases de um partido de inspiração conservadora, cristã e soberanista.

Mesquita Nunes foi-se embora. Já vai tarde, porque os estragos que provocou no CDS são irreversíveis. E irrevogáveis, usando as palavras de um dos seus padrinhos.

Com ele parte também um antigo presidente da juventude popular que, nas últimas presidenciais,  foi mandatário, imagine-se, do candidato da Iniciativa Liberal! O trajecto, obviamente, vai ser esse, e há muito estudado. Foi apenas necessário esperar pelo momento mais oportuno para que a saída pudesse provocar o máximo de ruído, causando estragos irreparáveis para a sobrevivência do partido que traíram.

Diz-se, por aí, que o CDS está a ver partir os seus melhores. Se estes são os melhores, nem quero imaginar como serão os outros!

Quem, naturalmente, estará a esfregar as mãos de contente, é Costa. Não precisa, sequer, de procurar criar fissuras dentro dos partidos que se posicionam como alternativa ao seu poder. Eles próprios se encarregam disso, envolvendo-se em guerras internas fratricidas, resultantes do excesso de ego dos seus protagonistas.

O que se passa no interior do PSD e do CDS simboliza bem o espelho que caracteriza esta cada vez mais medíocre e desacreditada classe política.

Assim que se aperceberam da inevitabilidade de eleições legislativas antecipadas, as correntes divergentes internas, ao invés de se unirem em torno da liderança instalada, deixando o ajuste de contas para um período pós-eleitoral, e focarem-se exclusivamente no objectivo prioritário, que é o de pôr termo a meia dúzia de anos de socialismo extremista, vieram a terreiro para tentarem assumir o papel principal no embate eleitoral que se aproxima.

Pouco lhes importa saberem, de antemão, que se vierem a obter sucesso nessa cruzada não estarão aptos para canalizarem a simpatia de quem decide através do seu voto, porque o escasso tempo de que vão dispor para fazerem passar as suas ideias será manifestamente insuficiente para o efeito.

A ambição destes fracos políticos falou mais alto; o interesse nacional foi relegado para segundo pleno.

Deus nos proteja desta gente!