Tecnologia

Web Summit. Teletrabalho, híbrido ou voltar ao escritório?

Ninguém tem dúvidas de que o trabalho remoto veio para ficar e que vai coexistir com o regresso ao local de trabalho. Mas aumenta ou diminuiu a produtividade? E como afeta as relações interpessoais e a comunicação no emprego?


“O híbrido vai ser o futuro”. Esta é a convicção de Mada Seghete. “Há mais tecnologia para apoiar o trabalho remoto, mas há muito que se ganha em estar no escritório, nem que seja dois ou três dias, e há quem sinta falta das conexões humanas”, argumenta a cofundadora e vice-presidente de marketing da Branch, que falava a propósito da sessão “O trabalho remoto é uma fase?”, durante o terceiro dia de Web Summit.

Mada não acredita que o regresso em pleno aos escritórios volte a acontecer. “Um ano e meio a trabalhar a partir de casa é muito tempo. Estamos habituados a acordar às 8h e a fazer uma reunião de pijama e agora temos de nos arranjar e andar de transportes durante uma hora para chegar ao local de trabalho? É muito difícil”, descreve.

Na mesma linha, Jeff Maggioncalda, que partilhava o mesmo palco na conferência, confessa que tinha as suas reservas quanto a este novo modelo laboral. Contudo, após os consecutivos confinamentos durante a pandemia, não tem dúvidas de que o teletrabalho veio para ficar.

“No pré-pandemia já havia quem trabalhasse a partir de casa e daqui a 10 anos não vai estar toda a gente trabalhar remotamente, mas vão estar certamente muitas mais pessoas. A força laboral vai cada vez mais trabalhar remotamente”, prevê o CEO da Coursera, uma plataforma de cursos online.

Já Alex Bouaziz, cofundador e CEO da Deel, tem uma perspetiva mais radical: a sua empresa é totalmente remota. “Não há razões para limitar o mercado de trabalho a uma localização quando há talentos por todo o mundo”, justifica.

E a Produtividade? Ouvindo os três oradores, a ideia que fica é que o trabalho remoto vai poder coexistir com o regresso à normalidade, ou seja, ao local de trabalho. Mas a grande questão que se coloca é: este novo modelo de trabalho afeta ou não a produtividade? A reposta mais consensual é que depende.

Mada considera que o tópico é subjetivo e que convém dividir a produtividade em dois tipos: a individual e a que envolve o trabalho em equipa. “Quando se trabalha sozinho num projeto até pode aumentar em casa, mas baixa quando envolve a equipa, porque há falhas de comunicação. Vejo a produtividade aumentar quando voltamos ao escritório, porque as pessoas comunicam menos em casa”, realça.

Além disso, o facto de não haver uma proximidade muito grande entre colegas de equipa pode causar obstáculos a outro nível. “Se te surgir uma dúvida, no escritório podes perguntar ao colega do lado. Em casa muitas das vezes nem sabes quem é a melhor pessoa para te responder a essa dúvida, o que acaba por inibir os trabalhadores e pode ser muito complicado quando ainda és novo na empresa”, constata a especialista em marketing.

Apesar de reconhecer que o trabalho à distância trouxe “muita produtividade” à Coursera, o CEO da plataforma lembra que também “depende do tipo de trabalho”, alertando que “estabelecer conexões pode ser mais difícil num ambiente remoto”.

Por seu lado, o CEO da Deel diz discordar, defendendo que, para a produtividade não ser afetada, é fundamental criar processos para garantir que a comunicação funciona.

A sua empresa, que emprega cerca de 400 pessoas, tem apenas um escritório, mas todos trabalham a partir de casa. “Sempre que tenho de ir ao escritório acabo por não trabalhar porque há essas distrações que partem das conexões humanas”, brinca.

Para promover o contacto entre os seus trabalhadores que quase só se encontram em vídeoconferências no Zoom, Alex Bouaziz aposta em eventos paralelos à atividade laboral. “Mas as pessoas que contratamos também têm que ter essa mentalidade para que funcione bem”, salienta.

Um outro problema do teletrabalho é a resistência que os trabalhadores oferecem em dois sentidos. Se por um lado, há quem queira voltar ao local de trabalho pelo contacto com os colegas, por outro, há também quem esteja reticente em abandonar a sua casa.

“Tens que incentivar as pessoas a regressar ao escritório, a deixar o pijama e sair de casa, com programas divertidos para quebrar as barreiras entres colegas. Não podes obrigar ninguém a voltar se não vais perder trabalhadores”, conclui a cofundadora da Branch.