À esquerda e à direita

A pirueta de Rio e o convencimento de Rangel

E como são os militantes de base que vão decidir tudo, fazer prognósticos poderá ser bem arriscado. Parece claro que Rangel tem mais barões do seu lado e terá já conquistado algumas concelhias. No entanto, citando um clássico do futebol, prognósticos só no final do jogo.


Quem sair vencedor das eleições de 30 de janeiro terá uma tarefa pela frente pouco invejável - não contando para já com um hipotético agravamento da situação pandémica. O mundo vai enfrentar uma crise gravíssima e Portugal não é um oásis. E o mais grave é que ninguém ainda conseguiu dar um sinal de esperança para ultrapassar a crise que se adivinha - tudo, ou quase, devido à famosa transição energética.

Não é preciso ser um génio para perceber que os produtos estão a aumentar e que coisas tão simples como comprar um carro utilitário pode levar mais de um ano até ser conseguido. E se todos os produtos vão aumentar em cadeia, coloca-se uma questão muito simples: e os ordenados? Como é óbvio, não vão crescer e muitas famílias vão ficar em maus lençóis. 

Nos últimos dias fizemos várias reportagens nos templos de consumo e constatámos que os produtos mais caros é que estão a escassear. sejam as bebidas alcoólicas ou os jogos de computador. Daí não virá mal nenhum ao mundo, e a crise geral até poderá ser uma oportunidade para os produtores portugueses. Vão faltar champanhes e gins estrangeiros? Os produtores portugueses terão uma palavra a dizer. Também os ambientalistas mais radicais poderão começar a comer fruta e legumes nacionais em vez das quinoas da vida. 

Perante este cenário, o desafio do partido vencedor das eleições legislativas, que se prevê que não alcance a maioria absoluta, terá de optar por fazer coligações que não estariam nos seus planos ou então deixará o país ingovernável. 

O que hoje mais se fala é numa aliança parlamentar entre os dois principais partidos, mas não me parece que isso vá acontecer. O PS deverá continuar a precisar do BE e do PCP e o PSD terá de ver como conseguirá a maioria, com ou sem Chega.

Todos os jogadores foram obrigados a colocar as cartas em cima da mesa depois de Marcelo Rebelo de Sousa ter marcado as eleições legislativas para 30 de janeiro.

Rui Rio, que tudo fez para que as mesmas se realizassem a 16 de janeiro para impedir o seu adversário interno de concorrer, e que defendeu ao lado de Domingos Abrantes as eleições para meados de janeiro, tendo depois feito a rábula de abril, após Cavaco Silva ter defendido finais de fevereiro, deu uma volta de 180º e aparece a dizer que se deve antecipar tudo no seu partido. Eleições diretas e Congresso Nacional. Parece-me que a jogada é boa para o povo, mas não deixa de ser mais uma chico-espertice. Pois se não queria eleições a 4 de dezembro, porque quer agora que sejam antes dessa data?

Claro está que, por agora, as conversas andam à volta dos conselheiros e ilustres militantes que poderão decidir este fim de semana em Aveiro o que muito bem entenderem. A que dia se realizam as diretas e o Congresso.

Mas parece óbvio que Rui Rio se tem portado como um verdadeiro bailarino que vai dançando de acordo com a música que acha que está a dar. O antigo presidente da Câmara do Porto só fez a mudança de 180º porque sabe que os militantes de base poderão ser seduzidos por essa conversa. E como são os militantes de base que vão decidir tudo, fazer prognósticos poderá ser bem arriscado. Parece claro que Rangel tem mais barões do seu lado e terá já conquistado algumas concelhias. No entanto, citando um clássico do futebol, prognósticos só no final do jogo.

Até porque, olhando para as entrevistas que ambos deram, Rio à TVI e Rangel à SIC, parece que o atual presidente do PSD ganhou aos pontos. Rangel já está com um ar de campeão que não devia ter e os seus conselheiros têm de lhe explicar que não se olha para o lado quando se fala. Já Rio vestiu o papel de Rambo e quer levar tudo à frente. Veremos então como reagirá o povo laranja. 

vitor.rainho@sol.pt