Economia

Web Summit: 59 mil compras mas retorno fica aquém

Onze milhões de euros ao ano, 59 mil compras no interior do recinto, 43 mil participantes em quatro dias, e menos 77,5 milhões de euros nos cofres do Estado. A Web Summit em números.


Onze milhões de euros. Este é o valor pago por ano à organização da Web Summit para que o evento ocorra em Portugal. Se considerarmos que o evento irá efetivamente permanecer na capital portuguesa até 2028, o valor perfaz um total de 110 milhões de euros em contrapartidas assumidas pelo Estado e pela Câmara Municipal de Lisboa, através do Fundo de Desenvolvimento Turístico de Lisboa e do Ministério da Economia.

Mas vamos a números: durante os quatro dias da edição de 2021 foram efetuadas mais de 59 mil compras no recinto, com um consumo médio de 10,33 euros.

Segundo a informação divulgada pela SIBS, foram utilizados cartões de 100 nacionalidades diferentes nos espaços da cimeira tecnológica. No total, 73,7% dos consumos foram efetuados por estrangeiros e 26,3% por portugueses. Entre os consumos realizados por estrangeiros, o destaque vai para o Reino Unido (10,5%), seguido pela Alemanha (7,4%), Brasil (4,8%), Ucrânia (4,4%), e Polónia (3,7%).

No que se refere a compras e levantamentos no distrito de Lisboa, registou-se um aumento de 4,2% em número de operações face à edição de 2019. Relativamente a operações exclusivamente de estrangeiros, verificou-se igualmente um acréscimo de 18,6%. Pelas 13h51 (hora de Lisboa) de dia 2 de novembro, no segundo dia da cimeira, foi atingido o pico de transações.

Por setor de atividade, a ocupar o topo da lista com maior número de compras verificadas estão os supermercados (31,3%), seguindo-se o setor da restauração e similares (23,3%), gasolineiras (5%), e moda e acessórios (4,1%).

Em termos de tempo de permanência em Lisboa dos estrangeiros que visitaram a Web Summit 2021, a maioria escolheu ficar apenas durante os dias do evento (65,8%), enquanto que 34,2% esteve em Lisboa desde o fim de semana anterior.

Esta edição, com o regresso ao formato presencial, contou com 42.751 visitantes, de 128 países. O número total foi, ainda assim, inferior ao registado na última edição presencial, em 2019, quando participaram 70.469 pessoas. 

Até ver não se sabe ao certo qual o impacto económico que a cimeira terá para o país, contudo, de acordo com o ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, o retorno imediato é «muito positivo» e justifica plenamente o esforço nacional, mas esse valor é menor do que o antecipado. 

As declarações foram feitas pelo governante após ter sido revelada, na quarta-feira, uma nova avaliação do Gabinete de Estudos e Estratégia do Ministério da Economia que revia em baixa o impacto financeiro de curto prazo do evento. Segundo esta nova análise conduzida por investigadores da Universidade do Minho, cuja revisão do impacto direto abarca os anos 2016, 2017, 2018 e 2019, ou seja, as quatro edições presenciais antes da pandemia, os números ficam aquém daquilo que foi estimado na primeira avaliação publicada em 2018. Uma das explicações para tal descida é um corte na projeção de participantes, feita há três anos.

Inicialmente, estava previsto que a taxa de crescimento de visitantes fosse aumentando de ano para ano, apontando-se para uma afluência média na ordem das 80 mil pessoas, o que nunca aconteceu. Em 2019, a afluência ficou dez mil pessoas abaixo da projeção. Também a afluência estimada para 2018 e o número real apresentou uma diferença na ordem dos 11 mil visitantes. 

Assim, com menos visitantes o retorno financeiro imediato também é menor do que o inicialmente previsto. Com a agravante de uma revisão em baixa no gasto médio estimado. O valor calculado agora é 1,98 euros por dia mais baixo do que o valor apontado inicialmente. 

Os resultados deste mais recente estudo revelam também uma correção em baixa no emprego e nas receitas fiscais arrecadadas pelo Estado. Em 2019, o emprego equivalente anual foi de 1692 postos de trabalho e não de 2911, como calculado no primeiro estudo. E a receita de impostos sobre rendimento foi de 14,7 milhões e não de 35,8 milhões.

Entre o acréscimo de riqueza produzida estimada de 141,5 milhões de euros para 2019 e os 69,8 milhões agora calculados para esse ano com base nos dados revistos vai uma diferença de 71,7 milhões de euros, o que equivale a um corte de cerca de 50%.

Apesar da revisão em baixa, o retorno imediato para a economia portuguesa continua significativamente acima dos custos — os tais onze milhões de euros.

«O que este estudo mostra é que o impacto direto da Web Summit, quer em termos de emprego, quer em receitas fiscais e volume de procura induzida na economia é bastante positivo em todos os aspetos, o que mostra que o retorno direto mais do que justifica o investimento que estamos a fazer», insistiu Siza Vieira, apontando ainda que há «impactos indiretos», que «são difíceis de medir», mas que, na opinião do ministro, têm de ser considerados, uma vez que «todos conhecem casos de visitantes que vêm e que investem [no país] depois de terem uma perceção melhor sobre o país».

De acordo com um estudo da Universidade Europeia, os portugueses reconhecem o impacto da Web Summit em Lisboa e apoiam o evento. Nos resultados do inquérito Impactos da Web Summit na Economia e Turismo de Lisboa, 93% consideram que aumenta o reconhecimento, a imagem internacional (89%), e a reputação (84%) da capital portuguesa.

A maioria dos inquiridos respondeu ainda que confia nas decisões por parte do Governo para o turismo quanto ao desenvolvimento de eventos (71%) e no esforço de inclusão da indústria do turismo no processo de planeamento de eventos em turismo (62%).

Além disso, mais de metade dos participantes do inquérito (54%) respondeu que concorda com a afirmação «a Web Summit reforça a coesão da indústria turística de Lisboa».

Este estudo foi realizado entre 17 e 25 de outubro de 2021, a um total de 322 pessoas.