Retratos Contados

Heranças


Por Nélson Mateus e Alice Vieira

Querida avó,

Como sabes hoje é dia do meu aniversário.

Mas não vou estar aqui a falar de mim, vou falar de alguém que também faz anos esta semana e de quem ambos gostamos muito: Joana Vasconcelos. Gosto imenso do trabalho dela!

Para teres uma ideia, comecei a admirá-la ainda ela andava na António Arroio, imagina.

Ainda há pouco tempo comentava com ela que me recordo de a ver numa reportagem sobre jovens promissores. Nessa reportagem a Joana estava num campo de futebol e, pasma-te, tinha feito uma baliza em croché, claro. Conquistou-me de imediato. 

Não sei se já comentei contigo, mas a Joana ‘já me levou’ a Serralves, Gulbenkian, CCB, Palácio Nacional da Ajuda, Versailles… e a Bilbau, ao Guggenheim, onde fui passar o meu aniversário há 3 anos. 

‘Levou-me’ salvo seja! A obra dela é que me levou a todos estes locais.

Pareço os fãs do Tony Carreira (nada contra), que o seguem para todo o lado.

Tenho uma profunda admiração pelo trabalho da Joana, onde é espelhado o orgulho de ser português, as suas tradições, do saber fazer, nas heranças que não podem ser esquecidas. 

Sabes que ideias não me faltam. Desafiei a Joana a criarmos um projeto para ajudar uma Casa muito querida por todos nós.

Poucos sabem que és uma máquina a fazer tricô, que a Simone de Oliveira adora fazer renda … Imagina as minhas ideias, as obras da Joana, e tu, a Simone, a Manuela Maria, o Joaquim Monchique, a Ana Bola e tantos outros a dar o seu contributo para o que tenho em mente…

Há uns anos a Joana lançou um belíssimo livro com mais de 300 páginas onde condensa 15 anos de trabalho.

Acreditas que o livro está na minha lista de presentes de aniversário há anos… e ainda ninguém se chegou à frente para me oferecer?

Bom, por falar em heranças, não te esqueças que me prometeste as peças da Rosa Ramalho e da Júlia Ramalho.

Agora vou comemorar o meu aniversário, pois a minha vida não é só isto.

Bjs e bom fim de semana.

Querido neto,

Comecemos já pelas heranças: assim que quiseres vai a minha casa e leva as Rosas e Júlias Ramalho que quiseres.

Como viste, as minhas prateleiras estão todas a abarrotar de obras de ambas, sobretudo da Rosa (mas não leves o presépio, que faz parte da minha coleção…)!

A Rosa Ramalho gostava muito de mim, a quem sempre chamou ‘menina’. E eu dela, claro. Nunca falhei uma ida à Feira do Artesanato de Cascais onde ela estava sempre.

E um dia lembrei-me de ir vê-la mesmo à terra dela. O meu marido e eu enfiámo-nos no carro e lá fomos até Barcelos.

Andei por ali um bocado à nora até que alguém nos ensinou o caminho que ia dar à casa dela, numa aldeia chamada Galegos de São Martinho.

Ela ficou muito contente de nos ver, eu fiz-lhe uma entrevista e, no fim, ela começou a encher o meu saco de bonecos.

Eu estava a ver que me ia arruinar – mas era por uma boa causa.. Quando lhe perguntei o preço de tudo, ela só me deixou pagar um boneco – o resto era oferta.

Então eu aproveitei e perguntei-lhe se ela não queria ir a minha casa, em Lisboa.

Havias de a ver na minha casa… Muito pequenina e sempre vestida da mesma maneira – saia, blusa, xaile e um lenço preto amarrado no alto da cabeça, andava pelos quartos todos e só dizia: «parece a casa de um conde!».

E quando eu a ia ver às feiras do artesanato, ela gabava-se sempre, «já estive em casa dela, é melhor que a casa de um conde!».

A minha relação com a Joana Vasconcelos é muito diferente. Era (e sou) muito amiga do pai – um dos grandes fotógrafos portugueses. Mas ainda não a conheci. Tens que tratar disso!

Gosto muito da obra dela pela imaginação e pela criatividade: ela usa os mais inenarráveis objetos para fazer as suas obras – tachos, louça, tampões, sei lá que mais. Mas também a admiro muito porque ela dá trabalho a muita gente, e não deixa morrer as memórias de Portugal, e isso raramente acontece com os artistas.

(Ah, e parabéns!)

Bjs