No Meio de Nós

Triste sociedade!

É mais fácil resolvermos o sofrimento com o suicídio assistido – chamado eutanásia – do que investirmos no amor.


Virá o tempo em que quem vos matar há de pensar estar a prestar culto a Deus» (Jo 16,2). Esta semana lembrei-me desta frase que disse Jesus no evangelho de João a propósito da perseguição que os cristãos haviam de sofrer por parte do judeus e dos romanos.

Hoje as coisas não são muito diferentes. Uma ‘santa inquisição’ está a levantar-se de novo na sociedade. Vejo com preocupação a sentença do tribunal sobre a situação daquelas crianças do norte do país cujo pai não permite que frequentem as ‘aulas’ (com muitas aspas) de uma suposta cidadania ou, pelo menos, sobre uma certa visão de cidadania. 

Trata-se de uma endoutrinação de um Estado que, em tudo, se deveria dedicar a instruir as crianças (pois é para isso que nós lhe pagamos) e deveria manter-se neutro em matérias de educação para a cidadania que, como sabemos, é um direito e um dever dos pais. 

Aquelas crianças, segundo a sentença, apesar de estarem no quadro de honra, terão de recuar nos estudos, porque os pais se recusam a deixar que frequentem as aulas de cidadania. O Estado, supostamente neutro e respeitador das liberdades individuais, organiza uma ‘santa inquisição’ para obrigar a que todos os cidadãos tenham o mesmo pensamento do atual ministro da Educação que, em breve, e bem, se há de esfumar. Dai-lhe o eterno descanso!

Eu em tudo sou muito liberal. Em tudo! Sou filho único e detesto que me obriguem a fazer o que quer que seja. Por isso, o respeito pela liberdade e a escolha dos homens e das mulheres do nosso tempo é um dos valores mais importantes conquistados pelos nossos pais. Por isso, não consigo compreender esta situação… não é geografia… não é matemática… não é português… é cidadania!

Há, no entanto, outra notícia que me preocupou. Supostamente liberal, oferece-se o suicídio assistido a quem o procura. É triste que, a quem sofre, a sociedade apenas tenha para oferecer o suicídio sem dor. É triste que, a quem sofre, não haja outra solução senão acabar com a vida.

Alguns poderão perguntar porque razão eu sou tão liberal na educação das crianças e tão inquisidor na questão do suicídio assistido, isto é, porque é que eu acho que o Estado deveria dar opção para que uma criança frequente as aulas de cidadania e não deveria ser tão liberal para aqueles que, querendo, pedem para se acabar com a sua vida.

Parece ser uma contradição e, de certa maneira, até é! Não tenho dúvida. Mas que liberdade pode haver num homem e numa mulher que estão a sofrer, cuja sociedade não tem mais para dar do que a morte? Porque não investimos mais nas estruturas de amor, nas estruturas familiares e nas estruturas de assistência psicológica e espiritual? 

Já tentaram marcar uma consulta de psicologia para uma criança ou para um jovem ou mesmo para um adulto? É quase impossível! É medonho e triste a incapacidade que os centros de saúde e os hospitais têm de assistirem a saúde mental dos seus utentes.

Claro que é mais fácil resolvermos o sofrimento com o suicídio assistido – chamado eutanásia – do que investirmos no amor. Nós, na verdade, desistimos de amar. E, claro, se não há amor, para quê sofrer, para quê estar vivo? 

Eu estive a ler as mudanças na lei… o que é sofrimento psicológico insuportável? O que é sofrimento espiritual insuportável? Quem vai medir isso? Quem vai avaliar?

Triste sociedade!