Internacional

Afeganistão abalado por onda de assassinatos do Estado Islâmico

A legitimidade dos talibãs, cuja grande promessa era trazer de volta segurança ao Afeganistão, está em risco.


Uma onda de assassinatos e atentados bombistas do Estado Islâmico de Khorasan (EI-K) tem aterrorizado o Afeganistão, atingindo dirigentes políticos, jornalistas, ativistas, combatentes talibãs e até mulás.

Muita da violência tem-se centrado na província de Nagarhar, no leste do país, lar de uma significativa comunidade salafita - uma vertente minoritária e fundamentalista do islão, que sonha regressar aos preceitos do tempo do profeta, base teológica de grupos como o Daesh - entre a qual o EI-K foi inicialmente acolhido. Contudo, a instabilidade ameaça minar os talibãs em todo o Afeganistão, nem que seja porque durante anos a sua grande promessa foi de trazer segurança ao país, sendo que boa parte da insegurança era resultado da sua própria insurgência.

Não espanta que o novo Governo afegão se tenha apressado a minimizar a onda de violência. “Tivemos vinte anos de revolução e invasão, e o nível destes incidentes vai baixar”, justificou o porta-voz, Bilal Karimi, à Reuters, esta terça-feira. 

Ainda assim, mensagens como a recebida pela família de Mawlavi Ezzatullah tornam-se cada vez mais frequentes. “Massacrámos o vosso Mawlavi, venham e recolham o seu corpo”, leram numa mensagem de WhatsApp enviada do telemóvel do próprio, segundo a agência americana. É um caso que mostra bem como ninguém está a salvo do EI-K. Mawlavi era militante do Hizb-e Islami, um partido jiadista, fundado por Gulbuddin Hekmatyar, conhecido como o carniceiro de Cabul, que em tempos até alinhou com o Daesh. 

Só a semana passada, imagens mostraram dois corpos pendurados, enforcados em Jalalabad, capital de Nagarhar. Há relatos que um dirigente talibã foi abatido no seu carro, com fogo de metralhadora, e dias depois soube-se que uma bomba à beira da estrada rebentou com uma carrinha de caixa-aberta, cheia de combatentes talibãs.

Contudo, estes ataques podem não passar dos últimos fôlegos de um grupo desesperado, com dificuldade em recrutar contra um inimigo que também é fundamentalista islâmico, e cujos efetivos se estima terem caído de três mil para uns 300 combatentes nos últimos anos, escreveu Rita Katz, fundadora do Search International Terrorist Entities (SITE) Intelligence Group, no Daily Beast. 

“Não têm nenhuma invasão ‘infiel’ contra terras muçulmanas contra a qual mobilizar, nem efetivos suficientes para parecer um califado”, explicou. “O Estado Islâmico tresanda a desespero neste momento”.