Internacional

COP26. EUA e China vão juntos em "direção ao futuro"

China e Estados Unidos assinam um acordo na COP26 que “pode não resolver todos os problemas do mundo”, explica ao i Francisco Ferreira, presidente da associação Zero, mas é um “bom sinal”.


A 6.ª conferência do clima das Nações Unidas (COP26), a decorrer em Glasgow, parece começar a dar os primeiros frutos. Ontem foi anunciado um inesperado acordo entre a China e os Estados Unidos: os dois países que emitem mais gases de efeito estufa do mundo prometeram colaborar para reduzir estas emissões.

“Este acordo é importante porque abre espaço negocial entre dois países que estavam em confronto”, disse ao i o presidente da associação ambientalista Zero, Francisco Ferreira. “Este acordo pode não resolver todas os problemas que afetam o mundo, mas é de facto muito importante”, reforça.

Estas promessas foram anunciadas num comunicado conjunto, onde ambos os países se comprometeram a tomar “ações concretas”, revelando que planeiam cumprir os objetivos estabelecidos no acordo de Paris de 2015, acrescentando ainda cortes mais profundos para reduzir as emissões até 2025.

China e Estados Unidos, que juntos emitem um total de 40% de toda a poluição de carbono global, acordaram em trabalhar juntos as emissões, metano incluído, mas também para proteger as suas florestas e reduzir a utilização de carvão.

Apesar de o Presidente chinês, Xi Jingping, não ter estado presente na COP26, o que fazia antever uma atitude renitente em tomar medidas, o enviado chinês prometeu que Pequim iria fazer um maior esforço na luta contra as alterações climáticas.

“Ambos os lados desta questão reconhecem que existe uma discrepância entre o atual esforço que está a ser feito pelos países para cumprir os objetivos do Acordo de Paris, por isso, juntos, vamos fortalecer as nossas ações para lidar com a luta contra as alterações climáticas”, disse o enviado do clima chinês, Xie Zhenhua, citado pelo Al Jazeera, referindo-se ao objetivo de manter o aquecimento global abaixo de 1,5 graus nas próximas duas décadas, uma das principais metas do acordo de Paris. 

O enviado presidencial especial para o clima dos Estados Unidos, John Kerry, elogiou o acordo assinado com a China. “Juntos, estabelecemos o nosso apoio para que esta COP26 seja um sucesso, incluindo certos elementos que promovam a nossa ambição nesta missão, mas vamos ser claros, esta declaração é um passo de forma a fecharmos uma brecha”, afirmou Kerry. “Todos os passos importam agora e ainda temos uma longa jornada à nossa frente”.

Apesar ver estes acordos com bons olhos, Francisco Ferreira não deixa de ser lançar alguns alertas. “Os Estados Unidos não são propriamente um exemplo em termos de esforço quando comparado, por exemplo, com a União Europeia”, explicou o Presidente da Zero, mencionando a falta de investimento deste país, “mas tem-se observado uma mudança enorme do ponto de vista político e dos compromissos que o Presidente Biden e a sua administração”, sublinha. 

“Ao mesmo tempo, os Estados Unidos têm criticado bastante a China que, realmente, não tem estado disponível para ir além daquilo que negociou, como atingir a neutralidade carbónica em 2060 e reduzir as suas emissões em 2030”, justificou.

“A China e os Estados Unidos são os maiores poluidores globais, portanto este entendimento a olhar para a redução de metano, aprofundar a colaboração nas questões climáticas, tudo isto são bons sinais, mas não nos esqueçamos que é à custa de um acordo assinado em setembro de 2014 que a China e os Estados Unidos se comprometeram a cumprir o acordo de Paris”, refere, mencionando um acordo assinado pelo ex-Presidente Barack Obama e Xi Jingping.

“Mais vale não haver uma decisão do que tomar uma má decisão” A conclusão da COP26 deve ser anunciada esta sexta-feira ou “provavelmente”, no sábado, mas já foi anunciado um primeiro texto sobre as negociações da COP26 onde é referido que é preciso haver um esforço para cumprir o objetivo de diminuição de gases de efeito estufa até 2030 e é lamentado o facto de os países ricos não terem cumprido a promessa de fornecer 100 mil milhões de dólares por ano em ajuda financeira até 2020 para ajudar as nações pobres com o aquecimento global.

“Este texto, a nosso entender, foi bastante satisfatório, fazendo pela primeira vez menção ao fim do carvão, dos combustíveis fosseis e é reconhecido, como uma mea culpa, que ainda não se chegou ao financiamento de cem mil milhões de dólares por ano para se gastar no desenvolvimento de tecnologias amigas do ambiente”, considera o presidente da Zero.

Uma questão que Francisco Ferreira faz questão de assinalar é a “necessidade do financiamento para a adaptação e para as perdas e danos resultado das catástrofes naturais provocadas pelas alterações climáticas”, mesmo não tendo sido “traçadas metas a ser cumpridas”, mas que acredita que farão parte do “acordo final”.

No entanto, o responsável aponta que existe um esforço “insuficiente” neste primeiro texto das negociações, sendo um dos objetivos que se encontra em cima da mesa atingir no próximo ano um “apertar” das metas para cumprir já a redução dos gases de efeito de estufa e não apenas daqui a 5 anos.

“O objetivo é fazer uma revisão dessas metas agora ou no prazo de um ano, é como se o jogo já estivesse terminado e nós estivéssemos no prolongamento a tentar ainda garantir esses valores”, ilustra, para explicar a urgência de adoção de medidas.

“Até ver foram assinados acordos importantes na área das florestas, na redução do metano, do carvão, mas ainda existem alguns aspetos limitantes, nomeadamente a ausência de alguns países no acordo do metano, onde falta a China, a Índia e a Rússia, ou no acordo do carvão, que não foi assinado pelos Estados Unidos nem a China”, explica Francisco Ferreira.

Por fim, o presidente da associação ambientalista reforça a importância de controlar o mercado global dos petróleos, com a proteção dos direitos humanos dos povos indígenas e das florestas.

“Se não existir uma rigorosa qualificação e monitorização destas ações no mercado do carbono este não terá credibilidade nenhuma”, afirma. “Portanto, para nós, caso não seja possível regular com eficácia, mais vale não haver uma decisão do que tomar uma má decisão”.