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Rui Rio, as circunstâncias dele e as nossas

Há um alinhamento entre o sentimento dos portugueses, as circunstâncias políticas e Rui Rio


Quando Rui Rio ganhou a liderança do PSD, na sequência da derrota autárquica de 2017, o partido ainda estava em estado de choque. Depois de ter governado no período da troika (desde 2011), de a ter mandado embora em 2014, e de ter ganho as legislativas de 2015, o PSD não se tinha refeito do trauma de ter visto António Costa montar uma ‘geringonça’ com o Bloco e o PCP. Entre 2015 e 2017, aqueles dois anos em que Passos Coelho liderou o partido na oposição, foram de mágoa e ressentimento para esses deputados e ex-governantes. O que até se compreende: como é que um governo que executa uma missão patriótica de resgate, e ganha as eleições legislativas, se vê arredado do poder por uma coligação que inclui partidos extremistas anti-euro e anti-Nato?

Mal comparado, o PSD não estava diferente daquele choque de muitas pessoas quando se divorciam: ‘Se eu fiz tudo bem, como é que isto correu tão mal?’ ou ‘eu sou tão bom porque é que ela já não gosta de mim?’.

Rui Rio ganhou o partido em 2018 com uma estratégia clara: afastar-se desses anos de má memória e recentrar o partido. Ou seja, fazer esquecer aos eleitores que o PSD havia sido governo nos anos da troika. Pela frente tinha o Governo de António Costa, sustentado no Parlamento pelo Bloco e pelo PCP – aos quais Cavaco Silva tinha exigido um acordo escrito formal que os unisse na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. 

Chegados às legislativas de 2019, o PS ganha as eleições, forma Governo, mas consuma-se a separação, desta feita os três partidos não se entendem e António Costa governa sozinho. O presidente Marcelo Rebelo de Sousa, ao contrário de Cavaco Silva, não exige um acordo escrito não calculando que escassos dois anos depois, o divórcio se dá na Assembleia da República quando já não se entendem para fazer passar o Orçamento e oferecem ao país o espetáculo deprimente das recriminações mútuas.

Chumbado o Orçamento, dissolvida a assembleia, convocadas as eleições legislativas antecipadas, podemos constatar estar perante uma década de extremos. De 2011 a 2021 foram quatro anos violentos de troika na sequência da bancarrota socialista, a que se seguiram seis anos de uma retórica de esquerda que a conveniência e a realidade esgotaram. 

Rui Rio, no passado sábado no Conselho Nacional em Aveiro, disse várias vezes que era o Homem e as suas circunstâncias. Assim sendo, Rio soube esperar pelas circunstâncias certas: depois de dez anos de governos mais extremados, com uma linguagem agressiva de ‘nós vs eles’, extenuados pela pandemia e dois confinamentos, os portugueses querem paz, sossego, bons serviços públicos, prosperidade e nenhuma algazarra.

Por fim, há um alinhamento entre o sentimento dos portugueses, as circunstâncias políticas e as circunstâncias de Rui Rio como ainda não tinha havido desde que foi eleito em 2018.
São alinhamentos desses que dão vitórias eleitorais.