Pátio das Cantigas

A teoria da porta e das maçanetas…

Com uma curiosa teorização sobre a forma de olhar as portas, maçanetas e fechaduras, Costa anunciou que, caso não vença as eleições, deixará de ser secretário-geral do PS


O clima político está ao rubro em Portugal, em linha com o jargão da crise climática, a nova coqueluche dos tempos modernos, que mobiliza jovens ansiosos com a sorte do planeta e o seu futuro.

Sem cerimónia, com os olhos postos nas câmaras da RTP, António Costa alheou-se de Glasgow e apelou ao eleitorado para confiar nele nas próximas Legislativas antecipadas e conceder-lhe uma «maioria estável» para governar sem sobressaltos, mesmo que isso signifique a repetição da ‘carta branca’ que envolveu o país no pesadelo de José Sócrates, a partir de 2005. 

Com a memória presente dos governos em que participou ao lado de Sócrates, o primeiro ministro foi ao ponto de afirmar na entrevista, que não é «claramente perigoso» conceder uma nova maioria absoluta ao PS. Um chiste.

E, como ‘isco’ para essa tese, Costa prometeu, inclusive, entreabrir a porta à direita – não abdicando da negociação à esquerda –, mesmo que disponha da maioria dos deputados na futura Assembleia da República. E fá-lo porque «não fecho a porta a ninguém», embora há meses desprezasse qualquer aproximação aos social-democratas, para infortúnio de Rui Rio.

A partir de uma curiosa teorização sobre a forma de olhar as portas, maçanetas e fechaduras, Costa foi mais longe ao anunciar que, caso não vença as eleições, renunciará «obviamente» a continuar a ser secretário geral do PS. 

Isto significaria a mais do que provável ascensão de Pedro Nuno Santos na ala esquerda do PS, que ambiciona transformar o partido numa espécie de sucursal do Bloco, ‘encorajado’ por Ana Gomes.

No fundo, Costa confia que a hipótese seja suficiente para assustar o eleitorado socialista moderado e que a vitória nas legislativas não lhe escape, ainda que seja «por poucochinho»… 

Para os mais fervorosos defensores da aliança contranatura, recomenda-se a leitura do histórico Manuel Alegre, para quem «esta ‘geringonça’ acabou e é preciso fazer o luto».

E aconselhou até António Costa, a piscar à direita e à esquerda, porquanto «o PS não pode ser uma barriga de aluguer de partidos com menos votos e que depois procuram impor os seus programas à custa do partido mais votado».

Afinal, Alegre disse o que muitos socialistas pensam e não dizem, depois do partido andar de braço dado com os radicais do Bloco e do PCP, desde 2015, quando conveio a Costa derrubar ‘o muro’ que Mário Soares nunca transpusera. 

Os comunistas foram úteis e serviram os desígnios de Costa que, de outra forma, nunca teria chegado a primeiro-ministro. Mas exageraram na fatura apresentada, para resgatar a sua cumplicidade nas ‘travessuras’ de Mário Centeno, fingindo que não percebiam as cativações e os seus efeitos nefastos. 

O PS é assim. Pode dizer uma coisa e o seu contrário, sem sequer mudar os atores em cena. Fala da austeridade imposta pela troika como se não tivesse nada a ver com a bancarrota a que conduziu o país em 2011. Mostra agora abertura negocial à direita, quando há meses a negava perentoriamente. Há uma esponja sempre à mão. 

Se a cimeira de Glasgow não foi um sucesso, até pela ausência de representantes de alguns dos principais países poluidores, em contrapartida a feira tecnológica inventada pelo irlandês Paddy Gosgrave – e vendida com proveito, a Lisboa, até 2028, por uma bagatela de 11 milhões de euros anuais –, revelou-se novamente um palco ideal para todos testarem a popularidade, desde Cristina Ferreira a Marcelo Rebelo de Sousa, que voltou a ser recebido como ‘popstar’...

Por essas e por outras, José Miguel Júdice, na sua função de comentador na SIC, descobriu, sarcástico, em Marcelo, os heterónimos de uma vocação pessoana. E em abono da sua tese, defendeu que há um Marcelo-analista político e um Marcelo-Presidente em permanente diálogo, e até em conflito...

Ao contrário do seu antecessor Cavaco Silva, por natureza reservado e avesso a desdobrar-se e a improvisar intervenções públicas, Marcelo goza de ‘tempo de antena’ quase diário nas televisões, que alimenta até quando vai ao multibanco.

O principal ‘concorrente’ de Marcelo no espaço televisivo é António Costa, que, embora sem heterónimos, não dispensa, também, o ‘circo’ mediático, contrapondo ao multibanco uma ida ás compras ao mercado…

É neste clima descontraído, mascarando a instabilidade, que os dois principais protagonistas se revezam e disputam os favores mediáticos, enquanto, à direita, Paulo Rangel marca pontos nas preliminares das eleições diretas do PSD e Francisco Rodrigues dos Santos deita ‘contas à vida’ com o CDS por um fio; e à esquerda, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa já não disfarçam o desespero. A oposição fervilha finalmente. 

Se desta turbulência nascer a luz, com um renovado Parlamento em janeiro, sem repetir tristes figuras desgastadas, a dissolução já foi virtuosa…