Sociedade

Quarentoons. Leonardo e Natacha precisam da sua ajuda para publicar um livro sobre a pandemia

"Acabámos por normalizar a morte e o medo", reconhece um dos autores de "uma agenda de um ano que já passou", prometendo homenagear os heróis anónimos da pandemia mas também o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo.

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Em março de 2020, a vida de todos os portugueses mudou. E a de Natacha Costa Pereira e a de Leonardo Cruz, dois amigos de infância, não foi uma exceção à regra. A ilustradora e o bancário e gestor de clientes empresariais, naturais de Alcobaça, decidiram explorar o humor num tempo de incertezas. "Por volta de 13 de março, a data em que sabíamos aquilo que estava a acontecer nos outros países e fomos quase todos mandados para casa, o Presidente da República disse qualquer coisa como 'A situação é gravíssima, portanto, acabo de marcar um Conselho de Estado para daqui a três dias'. À distância, parece perfeitamente razoável, mas naquela altura era trágico e havia uma grande incerteza. Mas também era cómico: se uma coisa é muito urgente, marcarmos para daqui a três dias parece uma piada", começa por explicar Leonardo, em declarações ao Nascer do SOL, adiantando que comentou o acontecimento com Natacha e esta convidou-o para "fazerem algo juntos".

Inicialmente, criaram a página Quarentoons no Facebook e, meses mais tarde, aderiram ao Instagram. "Permitiu-nos sair um bocado do leque dos conhecidos. O Facebook fervilhava naquela época e isso beneficiou-nos um bocadinho. Publicámos uma tira todos os dias desde 16 de março do ano passado até ao fim de maio deste ano. Houve dias em que publicámos mais do que uma: fosse por haver algum acontecimento extraordinário, como a morte de Luís Sepúlveda, a existência de um surto num lar de Aljubarrota, etc.", esclarece o licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) da Universidade Técnica de Lisboa e Pós-Graduado em Artes da Escrita pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. "Tudo era novidade: usar ou não máscara, luvas e por aí fora. Decidimos terminar em maio porque a lógica desta parceria era fazer uma coisa de cartoons sobre a quarentena e, depois, acerca da pandemia" e, como "o país estava a desconfinar de forma mais tranquila", os amigos perceberam que "não fazia sentido" continuar o projeto na medida em que a base deste era a atualidade.

"Já não havia tantas notícias porque as coisas estavam melhores: direcionávamos o projeto para a atualidade ou terminávamos de o alimentar. É mesmo difícil fazer isto todos os dias porque temos de tentar ter sempre piada. Além de tirarmos as tiras do virtual e dar-lhes uma nova vida mais perene, ao pensarmos no lançamento de um livro, a ideia foi que fosse não só essa passagem para o mundo físico, mas também um registo histórico destes tempos", continua, adiantando que, por já não transformarem as ideias em banda desenhada constantemente como outrora, Quarentoons – Uma agenda de um ano que já passou surgiu como a hipótese ideal para eternizarem o modo como brincaram com aquilo que era tudo menos engraçado. "O livro terá muita informação sobre aquilo que se passou. Como íamos fazer a edição das tiras, tinha um bocadinho no imaginário a agenda da Mafalda, que foi muito popular nos anos 80. Tanto eu como a Natacha somos grandes fãs do Quino. Uma vez que íamos fazer uma coisa com uma tira por dia, lembrámo-nos de fazer uma agenda e brincámos um bocadinho com isso: a piada é que é referente a um ano que já passou", descortina, garantindo que a criatividade da amiga formada em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e Mestre em Artes Plásticas na ESAD.CR assumiu "um papel fundamental" no modo como as palavras se conjugaram com as imagens desenvolvidas.

Para Leonardo, "a lógica é 'Estão fartos de comprar agendas para os anos que aí vêm, podem comprar uma de um ano que já passou" e, juntamente com a ilustradora anteriormente referida, juntou-se à Escafandro, que se autodescreve como "A Mais Pequena Editora do Mundo". "É uma edição de autor e a editora esta a ajudar-nos imenso. Orgulha-nos muito estar no catálogo deles. Numa semana, angariámos 1.350 euros dos 1.250 estipulados e era esse o nosso objetivo primordial, mas a verdade é que ainda não encerrámos a campanha porque estaríamos praticamente a ter um prejuízo ao lançarmos esta obra somente com este valor arrecadado", sublinha aquele que se descreve como "alguém um bocadinho apocalíptico" e, na biografia que estará disponível na edição impressa da obra, define-se de modo peculiar: "Quando o país lhe pediu para ficar em casa por um bem maior, foi dos primeiros a fazer continência perante a bandeira antes de, corajosa e abnegadamente, oferecer o corpo ao sofá", lê-se.

"A agenda termina em 2021, mas tem uma última secção com uma galeria de heróis da luta contra a covid-19: o pessoal do Serviço Nacional de Saúde, os professores, os jornalistas, as pessoas que trabalharam em casa, aquelas que tiveram de sair de casa para ir trabalhar, os avós que se separaram dos netos, etc. Quando revemos estes 15 meses, lembramo-nos de coisas que já tínhamos esquecido e parece-me que esta agenda é uma boa ferramenta que nos leva a refletir", afirma, declarando que, mesmo com o valor total angariado, quem adquirir o livro até ao final da campanha beneficiará de 20% de desconto. "A campanha tem vários preços disponíveis desde o do livro digital até ao da possibilidade de ter uma tira personalizada e a compra de dois livros mais barata do que comprá-los separadamente", informa, reconhecendo que, tendo em conta que a literatura sempre foi uma das suas paixões, frequentar a pós-graduação em Artes da Escrita permitiu que contactasse com pessoas que também se refugiam nas letras. "Ter professores como o Paulo Moura, o Rui Cardoso Martins, o Rogério Casanova e o Gonçalo M. Tavares foi espectacular" e, por este motivo, sente que o esboço das personagens e o seu aprofundamento psicológico e humorístico se tornou numa tarefa menos árdua por ter aprendido com quem mais admira.

"Uma das coisas que os Quarentoons têm de engraçado são as personagens: o casal de meia-idade é o 'quarentenário', pois está de quarentena, mas não é quarentão porque tem uma idade superior. Está fechado em casa por via da pandemia e passa a vida a fazer piadas e a comentar as notícias", conta, falando, de seguida, no "comentador baralhado que aparece na televisão e comenta tudo porque todos os comentadores se tornaram especialistas em virologia, epidemiologia e outras temáticas", realçando que este apresenta algumas sugestões literárias que tentou transformar em piadas. "Apresenta livros como o 'Ensaio Sobre a Cegueira' que, naquela tira, é sobre as pessoas que usam óculos e máscaras ao mesmo tempo e não acerca da grande obra de José Saramago!", diz em tom jocoso. "Temos a menina e o gato, em que ela é muito inocente – quer mudar o mundo – e ele está farto de ter humanos à volta dele e é muito sarcástico. Temos o YouTuga, um YouTuber que fica um bocado chateado porque a concorrência aumentou bastante. Ele já defendia o fecho das escolas ainda antes da pandemia. E temos as personagens da vida real: António Costa, Marcelo Rebelo de Sousa, Donald Trump, Jair Bolsonaro e muitos mais".

Para além de figuras marcantes do panorama político, a "galeria dos heróis" é um dos pontos que os autores consideram mais relevantes. "Para além das estátuas de heróis anónimos, que mencionei, vamos inserir o vice-almirante Gouveia e Melo porque achamos que toda a equipa que se encarregou do processo logístico da vacinação merece ser homenageada", admite, aplaudindo o trabalho do homem que, na sexta-feira, não descartou a possibilidade de voltar a coordenar a task-force para a vacinação. "Eu sou militar. E, sendo militar, vou onde me chamarem", elucidou em declarações à RTP dias depois de ter veiculado que essa hipótese poderia ser vista como um mito "sebastianista".

"O livro vai ter mesmo o formato de agenda semanal: tem as páginas da semana e, depois, um espaço onde as pessoas podem escrever as 'memórias desta semana'. E o dono do livro, se quiser, pode registar a primeira vez que se isolou, que foi ao supermercado, passear o cão ao jardim, aquele tipo de piadas que todos fazíamos. Acabámos por normalizar a morte e o medo. Também há a questão de termos de viver com a pandemia: por exemplo, na Pós-Graduação percebi que era possível estarmos todos juntos numa sala a ter aulas", começa por concluir, rematando que "há um cartoon do Zé Vilhena, sobre a gripe asiática" ao qual achou piada na medida em que "refletiu de forma eloquente um determinado tempo". "Por isso, pensei: 'Se até posso vir a morrer, por que não avançar com esta ideia'” e foi isso que fiz com a Natacha".

Pode contribuir para a publicação do livro aqui.