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Saúde. O futuro da medicina pode passar por Big Data e inteligência artificial

O CEO da Diaverum, Dimitris Moulavasilis, explicou o seu modelo de predição de tromboses em pacientes renais, que vê como solução para melhorar cuidados e cortar custos, em sociedades envelhecidas. 


Num momento em que vasta quantidades de dados são minerados pelo mundo fora, quase como uma espécie de ouro negro do séc. XXI, permitindo prever o comportamento de multidões como nunca, talvez a mesma lógica possa ser aplicada ao corpo humano, às doenças que afligem tantos de nós. Começa a antever-se um mundo em que a investigação na medicina tanto é feita por médicos como por cientistas de Big Data, varrendo registos médicos em massa, à procura de padrões que talvez escapassem ao olho clínico, prevendo riscos, combinando-o com um foco na prevenção e em protocolos bem definidos, reduzindo pelo meio o custo desses cuidados.

Pelo menos é isso que antevê Dimitris Moulavasilis, CEO da Diaverum, um dos principais prestadores mundiais de cuidados renais. Decidiram colocar-se à frente da curva, apostando neste tipo de abordagem para os pacientes que necessitam de hemodiálise, numa tentativa de prever futuros episódios de trombose do acesso vascular, uma das principais causas e de complicações e mortalidade entre estes doentes renais. 

“A trombose do acesso vascular impossibilita o tratamento de hemodiálise, o risco de mortalidade aumenta. Então o paciente sofre, pode causar hospitalização, requerer tratamentos dispendiosos, perde-se muita qualidade de vida”, explica Moulavasilis. É para evitar isso que entra a abordagem à base de inteligência artificial. 

Nas clínicas Diaverum, “quando o paciente é tratado, todos os dados da máquina de diálise, mais os dados das análises e demográficos, vão para um sistema de modelação com inteligência artificial”, continua o CEO. “Corremos todos os dados nos nossos centros, para que os dados não saiam do nosso data center". E, depois do tratamento, os nossos médicos e enfermeiros recebem uma previsão. Pode aparecer um pop-up, ‘há um risco deste paciente desenvolver uma trombose em breve’. E aí os médicos avaliam, normalmente usando um ultrassom, e começam tratamentos preventivos”, descreve. Até agora, os resultados que a Diaverum apresenta, com recurso ao histórico de pacientes têm sido espantosos, estimando que o seu modelo preditivo detete antecipadamente uns 75% dos casos não detetados  a olho por profissionais de saúde. 

Falámos com Moulavasilis quando estava numa conferência médica em Vilamoura, a apresentar o seu novo projeto. Não escolheu Portugal apenas pela boa vista e belas praias, ainda que isso lhe tenha agradado. “Os cuidados renais de Portugal são um dos mais brilhantes exemplos no planeta, que muitos países seguem”, assegura o CEO da Diaverum. “Porque há uns anos, durante a crise financeira, avançaram para um modelo de cuidados de saúde integrados, onde o providenciador de serviços toma maiores responsabilidades pelo bem-estar do paciente, melhorando os resultados, mas também reduzindo significativamente o custo dos cuidados”.

Na prática, é essa a lógica da utilização de inteligência artificial da sua empresa, que partia com a vantagem de ter um manancial de dados de pacientes renais, com uma rede global de mais de 450 clínica e trinta anos de existência, desde que a Diaverum foi criada na Suécia, a partir da própria empresa que inventou a primeira máquina de diálise. A Moulavasilis, parece-lhe que não há futuro para os sistemas de saúde sem reduzir os custos, pretendendo como tal dar melhor à análise de grandes quantidades de dados produzidos.

“Os cuidados de saúde são bastante caros. Na Europa Ocidental estamos a pagar uma média de mais de 8% do PIB por estes serviços. Em Portugal chega aos 9,1%”, nota o CEO, alertando para o natural aumento desses custos, há medida que as populações envelhecem, e há menos trabalhadores ativos para os pagar. 

“As pessoas vivem mais tempo, há doenças associadas aos nossos estilos de vida, como a diabetes, e as pessoas precisam de cada vez melhores cuidados de saúde. E não há PIB que acompanhe isso, nem sequer o da China nos últimos anos. Por definição, os dirigentes políticos estão sobre pressão”, considera.