Sociedade

Doentes sem resposta da Segurança Social entopem Amadora-Sintra

Amadora-Sintra fechou ontem a urgência ao INEM e bombeiros, com ocupação acima dos 90%. Internamentos sociais estão em nível recorde e dificultam a resposta à procura crescente. Tempos de espera estão acima do limite em vários hospitais de Lisboa. 


Ainda o outono/inverno não chegou à fase mais crítica e o Hospital Amadora-Sintra voltou ontem a fechar a urgência ao encaminhamento do Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU), depois de já ter fechado na semana passada, à semelhança do que tem acontecido no Hospital de Loures.

A situação caótica foi relatada ao i por um elemento ligado ao transporte de doentes urgentes, revelando que os doentes estavam mais uma vez a ser encaminhados para Santa Maria, com os tempos de espera a subir em vários hospitais da grande Lisboa – ultrapassando o tempo recomendável para atender doentes graves.

Questionado pelo i, o Hospital Dr. Fernando Fonseca na Amadora confirmou o encerramento da urgência a doentes enviados pelo CODU do INEM, sem previsão de reabertura. 

O problema no Amadora-Sintra não se prende apenas com a elevada afluência às urgências, em níveis pré-pandemia e pautada por um elevado número de doentes que não precisariam de ser atendidos em contexto de urgência. É também um problema crónico que está agora mais uma vez a dificultar a gestão das camas: doentes que já poderiam ter tido alta clínica mas que não encontram resposta em tempo útil por parte da Segurança Social, que supostamente devia fazer a ponte em tempo útil com lares e cuidados continuados.

Ontem ao final da tarde o Amadora-Sintra tinha 17 doentes internados que se inserem na definição de “casos sociais”, o equivalente a mais de metade de uma enfermaria, mas isto já depois de ter contratado 20 camas em lares para retirar  do hospital duas dezenas de doentes. Há assim neste momento 39 internamentos sociais no Amadora-Sintra, um número recorde segundo fontes hospitalares ouvidas pelo i, e aos quais não é dada resposta. 

Numa altura em que há também uma enfermaria alocada à covid-19, a perspetiva do aumento de necessidades de internamentos que continuam a exigir circuitos separados e o prolongamento dos internamentos sem ser por razões clínicas faz antever semanas de forte perturbação. O hospital já está com uma taxa de ocupação superior a 90%, indicou ao i fonte hospitalar, mesmo com apenas 12 doentes internados com covid-19. 

No final de outubro, em entrevista ao i, Nelson Pereira, diretor da Unidade Autónoma de Gestão de Urgência e Medicina Intensiva do Centro Hospitalar de São João, já tinha alertado para os chamados casos sociais e para o regresso à rotina. “Durante a pandemia houve uma mobilização imensa de uma série de instituições e da Segurança Social e conseguiram resolver-se muitos casos pendentes mas a situação está a voltar à inércia”, alertou. Um repto que até aqui não motivou qualquer mudança de estratégia, embora seja cíclico. 

Na proposta de Orçamento para 2022, chumbada no Parlamento, estava prevista a “definição do modelo de responsabilidade financeira por utentes que se mantêm internados em hospitais do SNS por falta de resposta social”, dossiê sobre o qual não houve avanços esta legislatura. Nos últimos anos vários hospitais têm avançado com a contratação de camas em instituições sociais, mas não existe um plano nem dotação financeira à partida para o fazer.

Com o inverno a chegar, o i tentou perceber junto da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo quantos doentes estão internados por motivos sociais nos hospitais de Lisboa, por que motivo se deixa chegar os hospitais a este ponto, e que medidas vão ser tomadas, sem resposta. 

Tempos de espera excessivos Certo é que ao início da noite de ontem, o Amadora-Sintra, já com a urgência fechada, tinha ainda duas horas de espera para doentes urgentes, que devem ser observados em 60 minutos. No Santa Maria, hospital de fim de linha para onde são encaminhados doentes de toda a região, contavam-se já mais de três horas de espera para doentes urgentes e o mesmo em Loures, três vezes acima do limite. Tanto no Santa Maria como no Beatriz Ângelo fontes hospitalares têm relatado ao i o aumento de casos mais complexos e graves. 

No caso do Amadora-Sintra, à saturação do internamento continua a somar-se o problema das idas evitáveis às urgências, com a maioria dos casos triados com pulseira verde e azul e que poderiam ser atendidos fora do hospital. A região de Lisboa continua a ser a mais desfalcada em médicos de família, com o agrupamentos de centros de saúde da Amadora e Sintra, servidos pelo Hospital Dr. Fernando Fonseca, a registar dos piores indicadores.

Segundo os dados publicados em bruto pelo Ministério da Saúde, que o i analisou, em setembro o ACES da Amadora e o ACES de Sintra contavam mais de um quarto dos doentes sem médico atribuído, num total de quase 150 mil utentes (148.568) sem médico de família. A nível nacional continua a haver mais de um milhão de utentes sem médico, representando só os amadorenses e sintrenses 14% deste total. 

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