Opiniao

Elon Musk, Guterres e a professora Zulima

Ora Elon Musk, além de ser meio tolo, é um homem cruel. Perante o mundo, obrigou o Secretário-Geral das Nações Unidas a fazer contas sem poder recorrer ao seu salvífico algoritmo e sem sequer ter ao seu lado a Professora Zulima para lhe explicar a diferença entre um conjunto cheio e um conjunto vazio.


Por João Cerqueira, escritor 

A Professora Zulima foi a minha primeira docente de Matemática. Era uma excelente professora e uma senhora muito simpática. Infelizmente para ela, calhou-lhe o aluno mais nabo em contas desde a Escola Pitagórica: eu. E, assim, mau grado os esforços pedagógicos da professora, a nota do meu primeiro teste foi Medíocre – um feito, pois poderia ter sido Mau.

O que eu não sabia na altura, pois ainda não tinha sido inventada, era a fórmula infalível de resolver todos os problemas matemáticos, mais conhecida por Algoritmo Guterres: é só fazer as contas. Portanto, se em vez de tentar resolver o meu primeiro teste de matemática com respostas erradas, disparates e tolices tivesse usado o Algoritmo Guterres – é só fazer as contas – punha a Professora Zulima a resolver o teste por mim e tiraria nota máxima.

Depois, prosseguiria a minha carreira de aluno brilhante a Matemática usando o Algoritmo Guterres para pôr os professores do liceu e da faculdade a fazerem também as contas por mim. Por fim, faria doutoramentos em Princeton, na Sorbonne e em Oxford pondo de novo os orientadores a fazer as contas, a demonstrar teoremas, a provar isto e aquilo.

Aclamado como génio da Matemática, descobriria então se o Universo está a expandir-se ou a contrair-se, os mistérios da Física Quântica, e quiçá a própria existência de Deus.

Infelizmente, perdeu-se um grande matemático e, se calhar, não se ganhou nada.

Isto vem a propósito da recente declaração de Elon Musk – o inventor do Tesla e homem mais rico do mundo – que declarou estar disponível para doar 5 biliões de dólares ao programa alimentar da ONU conquanto demonstrassem que com esse valor acabariam com a fome no mundo. Ou seja, devolveu o Algoritmo Guterres ao seu inventor.

Ora Elon Musk, além de ser meio tolo, é um homem cruel. Perante o mundo, obrigou o Secretário-Geral das Nações Unidas a fazer contas sem poder recorrer ao seu salvífico algoritmo e sem sequer ter ao seu lado a Professora Zulima para lhe explicar a diferença entre um conjunto cheio e um conjunto vazio.

Imagino quão stressantes devem ter sido os dias do Secretário-Geral desde que o desafio hercúleo lhe foi lançado, pois não se trata apenas de uma questão de logística mas, sobretudo, de evitar que os biliões do Elon vão parar à conta suíça de algum ditador e da sua filha ou que os alimentos acabem a ser vendidos no mercado negro por ministros corruptos.

Mas devemos ser optimistas e acreditar que desta vez, sim, a fome vai acabar. Afinal, é só fazer as contas.