Politica

Inês Sousa Real continuou sócia de empresa da qual disse ter saído em 2013

A porta-voz do PAN e o marido aumentaram o capital da Berry Dream, em 2019, 11 meses antes de a deputada ter, diz, avançado com a cessão de quotas.


Inês Sousa Real confirmou, na passada sexta-feira, estar completamente separada da Berry Dream Lda., e em processo de cessão de quotas na Red Fields, Lda. A notícia caiu como uma bomba no país, e a deputada defendeu que esses dados estão bem explícitos na sua Declaração de Interesses como deputada. As datas fornecidas ao i, no entanto, não batem certo: a deputada entrou no aumento do capital da Berry Dream em 2019. 

Na sexta-feira, Sousa Real garantiu ao Nascer do SOL que “foi detentora de 50% do capital e sócia-gerente [da Berry Dream Lda.] até 12 de outubro de 2013, tendo procedido à cessão de quotas”. Ainda assim, até onde o i conseguiu apurar, a deputada, em 2019, participou no aumento do capital da empresa. No seu Registo de Interesses, disponível no website do Parlamento, continua a aparecer como sócia da empresa em questão, tal como o seu marido.

Em 2013, Inês de Sousa Real deixou de ser gerente na Berry Dream, mas não deixou de ser – junto do marido – sócia. Aliás, na segunda-feira, em resposta ao i, a deputada esclareceu, novamente através da assessoria de comunicação do PAN, que “não tem desde 10 de dezembro de 2019 qualquer relação com a empresa Berry Dream, data em que ficou concluído o processo de cessão de quotas”. Na página de atos societários do Ministério da Justiça, porém, não consta qualquer alteração na composição da sociedade.

De qualquer modo, fica a confusão: a data de fim da sua relação com a Berry Dream foi, afinal, em 2013, ou em 2019? Em resposta, a deputada diz que “a data de 12 de outubro de 2013 corresponde, como consta da resposta, ao fim do exercício do cargo de sócia-gerente”, [...] tendo cedido as quotas, conforme referido, em dezembro de 2019”, continuou, apesar de, na sexta-feira passada, ter garantido ao Nascer do SOL que a cessão de quotas tinha acontecido em 2013.

Já sobre a Red Fields Lda., empresa em que Sousa Real chegou a possuir 25% do capital social, o processo de cessão de quotas encontra-se “em fase de finalização”, garante, o que significa que é ainda sócia. Sousa Real continua a surgir como sócia desta empresa no seu Relatório de Interesses, e até em documentos da Red Fields, datados de novembro de 2020. Sobre este assunto, e questionada sobre a data em que terá iniciado o processo de cessão de quotas, não foi possível obter resposta até ao fecho desta edição, mas Sousa Real garantiu “não ter nunca exercido funções de sócia-gerente”.

Demissões... O drama entre Inês de Sousa Real, porta-voz do PAN, e o secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal, Luís Mira, não parece ter fim. O i noticiou, na edição de segunda-feira, que o responsável da CAP exigiu a demissão de Sousa Real, apontando-lhe o dedo por “enganar as pessoas” no caso em que é acusada de ser dona de duas empresas que usarão, alegadamente, métodos de produção agrícola intensiva.

Em resposta, a deputada e porta-voz do PAN virou o argumento, e exigiu ela própria a demissão de Mira. “Se o secretário-geral da CAP não sabe a diferença entre uma estufa, um túnel ou até mesmo um estufim, e também não sabe distinguir a diferença entre pequenos produtores e produtores de grande escala (...), claramente parece-me que quem tem de pedir a demissão ou que está no sítio errado é o secretário-geral da CAP e não a líder do PAN”, disse aos jornalistas, na Covilhã, distrito de Castelo Branco.

“Estamos a comparar o incomparável e só mesmo a má-fé é que poderá levar a estas declarações”, acusou a porta-voz do PAN. 

Uma acusação afastada de imediato por Luís Mira. “Não pratiquei nenhum ato para ter que me demitir. Este retribuir de Inês Sousa Real mostra um desespero. Não vejo outra interpretação. Fui objetivo na questão que coloquei relativamente aos factos que me levaram a dizer que ela não tinha condições para continuar à frente do partido pela incoerência que demonstrou”, refere ao i o secretário-geral da confederação.

E insiste em apelidar a estrutura que a líder do PAN tem no Montijo, apelidou-a de estufa, em Odemira. “Não só é ela como todos em Portugal, mesmo quando se explicou que aquilo eram estruturas para produzir mirtilos e framboesas, o mesmo que ela produz. Estranho que, naquela altura, não tenha vindo a público dizer que era especialista naquela matéria a dizer: ‘atenção isso não são estufas, são túneis’”, acrescentando ainda que estamos a entrar numa questão semântica.

O responsável diz ainda que este tipo de intervenções que estes partidos têm “colocam uma carga negativa em cima das estufas, como se estas fossem uma coisa a exterminar, a acabar, mas as pessoas enquanto consumidores têm que perceber que se não houvessem estufas não tinham hortícolas frescas durante o inverno”. Quanto ao “comportamento” de Inês Sousa Real, não hesita: “Até às eleições vai ser uma dor de cabeça porque já todos perceberam que ela diz uma coisa e faz outra”, garante ao i. 

Túneis ou estufas? A polémica em torno de Inês de Sousa Real surgiu, no passado sábado, através de uma denúncia publicada pelo Nascer do SOL. Em causa estaria, além do envolvimento nestas empresas, o uso de pesticidas, embalagens de plástico e estufas nas mesmas. A deputada negou que a produção nestas empresas fosse feita de forma intensiva, esclarecendo que as estruturas montadas nas mesmas são túneis, e não estufas.

Duas realidades aparentemente diferentes, segundo fez questão de esclarecer, em declarações ao i, explicando que os túneis, ao ser abertos, “permitem a entrada do ar, circulação de animais, respiração do solo e circulação das águas da chuva. Podemos dizer que coabitam harmoniosamente nos dois locais animais como toupeiras, cobras e outros repteis, coelhos, diferentes espécies de aves – algumas das quais nidificam inclusivamente no interior dos mesmos –, e de insetos. Ao passo que uma estufa fechada não é compatível com o aumento da biodiversidade”.

Salários precários? Nas várias reações que foram sendo feitas estas informações, uma destacou-se: a deputada foi acusada, por entre os internautas, de pagar salários precários aos trabalhadores nas empresas referidas. 

Numa das acusações através das redes sociais, Sofia Afonso Ferreira, que foi candidata à Câmara Municipal de Lisboa nas passadas eleições autárquicas, acusou que a Red Fields, Lda., empresa da qual a deputada diz estar ainda em processos de cessão de quotas, terá despendido €56.780,35 com 7 empregados, o que daria uma remuneração, por colaborador, de cerca de €8.111,48.

Relativamente a esta acusação, a deputada explicou ao i que “não é nem nunca exerceu o cargo de sócia-gerente [na Red Fields, Lda.], pelo que não tem nem nunca teve competências em matéria de gestão da mesma”, e relembrou a ‘sazonalidade’ do tipo de trabaho em questão.

A acusação surge após a deputada ter garantido, ao i, que ambas as empresas possuem vários certificados, nacionais e internacionais, entre eles o GRASP, “um certificado voluntário, desenvolvido para avaliar as práticas sociais na quinta, tais como aspetos específicos da saúde, segurança e bem-estar dos trabalhadores”.