Sociedade

As propostas dos especialistas para Portugal ultrapassar a "quinta fase pandémica"

Peritos e responsáveis políticos reuniram-se no Infarmed para avaliar a situação epidemiológica do país. Segundo a DGS, Portugal encontra-se na “quinta fase pandémica” e o reforço da vacinação foi apontado como a principal medida a adotar para evitar um maior número de casos e mortes.


Pedro Pinto Leite, da Direção Geral da Saúde, abriu as apresentações na reunião do Infarmed. A DGS confirma que Portugal está na "quinta fase pandémica", até ao momento com menor impacto na gravidade e mortalidade que as anteriores

Num ponto de situação por região, mais sistematizado do que em reuniões anteriores, o responsável assinalou diferenças de Norte a Sul, apontando um padrão diferente no Algarve, a região com maior incidência, e onde há indícios de haver já transmissão comunitária da variante e AY.4.2, associada no Reino Unido a um aumento mais rápido de casos.

As regiões Norte e o Alentejo são aquelas em que é possível ainda estabelecer maior ligação entre infetados, com link epidemiológico em mais de 80% dos casos. Nas restantes ronda os 60%.

No Norte, a maioria dos surtos está ligada a escolas e universidades (69%) e empresas (9%). No Centro predominam escolas e universidades (40%) e lares e IPSS (40%). Esta região é a que tem maior pressão nos cuidados intensivos, a 62% da capacidade definida como linha vermelha.

Na região de Lisboa e Vale do Tejo, mais uma vez as escolas dominam os surtos conhecidos (39%), seguindo-se lares (29%) e contexto laboral (12%) No Alentejo, dominam também os surtos ligados a estabelecimentos de ensino (59%), seguindo-se empresas (30%).

O Algarve é a região que foge mais ao padrão, notou o responsável, com grupos etários mais velhos a serem afetados, enquanto nas restantes regiões os grupos mais afetados são crianças até aos 10 anos e pessoas no grupo dos 20-28. No Algarve, 38% dos surtos estão ligados a escolas/universidades, 17% a contexto familiar e 16% a festas e convívios familiares.

Dando dados sobre estado vacinal, Pinto Leite indicou que em agosto, os maiores de 50 anos com vacinação completa tinham 2 a 5 vezes menor risco de ser internados. Já em termos de mortalidade, aqui com dados de outubro, indicou que pessoas com mais de 60 anos tinham um risco 1,4 a 4 vezes menor de falecer na sequência de um diagnóstico com covid-19.

Vacinação preveniu 200 mil infeções e 2300 óbitos desde maio

Henrique Barros, epidemiologista e presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), fez uma análise retrospetiva da pandemia.

O investigador considera que o país está já a entrar numa situação endémica, com esta vaga de casos com muito menor proporção de internamentos e óbitos do que em novembro de 2020.

O investigador assinalou que o maior aumento de casos se verifica nas crianças, mas abrandou na população com mais de 80 anos, a coincidir com o reforço da vacinação. Considerando haver "evidência do impacto extraordinária da vacina", disse que é preciso ter isso em conta no planeamento de novas medidas. Desde maio, estimou, a vacinação preveniu 200 mil infeções, 55 mil dias em UCI, 135 mil dias em enfermaria e 2300 óbitos.

Por outro lado, notou que se verifica um aumento no internamento de doentes mais velhos em UCI face a outras vagas, o que associou no entanto ao facto de as unidades estarem com menor pressão do que noutras vagas e poderem ponderar de outra forma a admissão de doentes.

Perante estes dados, o investigador sublinha que "é muito importante vacinar as crianças quando as vacinas estiverem inequivocamente aprovadas no nosso espaço. Vacinar as crianças é fundamental".

Em termos de medidas, defendeu a necessidade de limitar convívios com mais de 50 pessoas e preparar fortemente a resposta do lado clínico, não tanto por haver maior pressão este ano da covid-19, mas pela pressão que existe normalmente nesta altura do ano.

Sem reforço da vacina de todos os maiores de 65 antes do Natal, cuidados intensivos vão passar linha vermelha

Baltazar Nunes, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, fez uma apresentação sobre a situação epidemiológica, assinalando que a incidência de covid-19 é nesta altura interior a um terço do que acontecia há um ano, mas a transmissão está com mais força, o que associou a haver menos medidas restritivas do que então.

O perito apresentou modelos de cenários do que poderá acontecer, consoante a diminuição da proteção conferida pelas vacinas for mais rápida ou mais lenta. A conclusão, salientou, é a necessidade de acelerar o reforço da terceira dose a maiores de 65 anos.

No cenário em que a proteção da vacina diminui mais rapidamente, se a maioria das pessoas com mais de 65 anos não tiverem recebido o reforço antes do Natal, a previsão dos peritos é que o número de doentes a precisar de ser internados em cuidados intensivos se aproxima dos 600 no pico das infeções entre janeiro e fevereiro, usando como referência temporal o pico de infeções respiratórias no inverno, o que seria mais do dobro do que foi fixado pelos peritos como linha vermelha.

Recorde-se que no ano passado chegou a haver 900 doentes internados em UCI, mas para tal foram suspensas praticamente todas as cirurgias não urgentes no SNS.

Sobre a importância da vacinação, Baltazar Nunes disse ainda que não é verdade que não reduza também o risco de infeção, estimando que os vacinados tenham um risco 50% menor de infeção, além de menor risco de internamento.

O perito do INSA apresentou outras informações sobre o que terá sido o resultado da vacinação nos últimos meses, apontando para números mais elevados do que Henrique Barros, estimando que as vacinas terão prevenido mais de 3 mil mortes.

O cálculo do INSA teve por base a eficácia estimada da vacinada já na população portuguesa, com base nos inquéritos serológicos feitos pelo instituto.

63% dos idosos com mais de 80 anos já tomaram 3ª dose. Falta dar o reforço a um milhão de pessoas

O coronel Carlos Penha Gonçalves, responsável pelo núcleo de coordenação da vacinação após saída de Gouveia e Melo, apresentou o ponto de situação sobre o reforço da vacinação da covid-19 e vacinação da gripe.

No caso da gripe, 1,4 milhões já tomaram a vacina, com 73% da população com mais de 80 anos abrangida. Há 730 mil pessoas para vacinar para garantir cobertura de 75% acima dos 65 anos.

No caso da vacina da covid-19, o atraso é maior, com apenas 63% dos idosos com mais de 80 anos elegíveis abrangidos, percentagem que baixa para 24%. A adesão tem sido de 80% dos convocados, mas para ser total falta serem administradas um milhão de doses.

Penha Gonçalves defendeu a necessidade de acesso a mais dados sobre doentes hospitalizados para priorizar e organizar a vacinação. Nos gráficos, surgia com prazo para esta campanha de vacinação 19 de dezembro, sendo este o objetivo que a coordenação de vacinação pretende atingir.

"Devíamos ter chamado atualização vacinal e não reforço, dá ideia que nos enganámos na dose"

Margarida Gaspar de Matos, coordenadora da Task Force de Ciências Comportamentais aplicada ao contexto COVID-19, fez um ponto de situação, considerando positivo o trabalho feito, mas apontando falhas. “Criou-se o mito de que o cidadão já sabe fazer”, disse, dando como exemplo o uso inadequado de máscaras e chamando a atenção que a par da informação é preciso manter a motivação na adoção de medidas. Salientando que os jovens acham que já não há risco e que os mais velhos sentem que a vacinação não serviu para nada, defendeu que a escolha do termo reforço para a terceira dose foi mal feita. “Devíamos ter chamado atualização vacinal e não reforço, dá ideia que nos enganámos na dose”, disse.

Para a especialista, esta poderá ser uma das explicações para a menor adesão à terceira dose. “Temos de continuar a motivar e vêm aí várias barreiras, é o Natal, são os visitantes que nos vêm visitar, o frio que impede a nossa capacidade de arejamento e a gestão do bem-estar. Sou psicóloga e isto incomoda-me muito porque vejo o sofrimento, um em cada dois jovens têm sinais de sofrimento psicológico”, salientou Margarida Gaspar de Matos, investigadora da Faculdade de Motricidade Humana.

“A comunicação tem de ser clara a virada para ação”, apelou, defendendo que haja informação e o acesso a máscaras nos locais de maior risco.

E é mais uma vez a defender que sejam dados mais dados, nomeadamente quem são os doentes em UCI, quem morreu com covid-19. “Estes dados têm de ser divulgados e normalmente não são divulgados na comunicação social”.

Simplificar o mais possível os SMS de convocatórias, instruções claras sobre quem é ou não elegível, são outros reptos. E garantir que se chega à população migrante.

Margarida Gaspar de Matos disse que para melhorar comportamentos, é preciso retirar-lhes barreiras e arranjar facilitadores, falando por exemplo de transportes para ir às vacinas.

"Os portugueses confiam nas instituições, vacinaram-se imenso. A confiança nas instituições tem a ver com as pessoas se sentirem que são informadas. Estamos numa altura em que temos de gerir expectativas. Não há uma vacina que nos cure para sempre. E é preciso almofadar o país do ponto de vista dos afetos", frisou.

Raquel Duarte fez a última intervenção da reunião antes de ser pedido aos jornalistas que deixassem a sala, para o momento de perguntas que o Governo faz à porta fechada.

A pneumologista que lidera a equipa que apresentou propostas de medidas para o desconfinamento desde o início da pandemia recuperou muitas das recomendações que já tinham ficado patentes na última apresentação, salientando a necessidade de acelerar o reforço da vacinação, simplificar o acesso a testagem, aumentar a cultura de auto testes e defendendo a utilização de certificado digital em contextos de aglomeração interior e sem máscara, juntando-se um teste inferior a 48 horas, embora não tenha sido especificado em que locais poderia ser utilizado.

Já no caso das fronteiras, a equipa defende que além do certificado digital seja feito um teste à entrada no país para permanências superiores a 48 horas.

Uma aposta séria na ventilação e climatização de espaços interiores foi outra recomendação deixada. Nas visitas a lares, garantir uma avaliação de sintomas de visitantes, a apresentação de certificado digital e a testagem regular de trabalhadores.

Raque Duarte salientou assim cinco eixos: vacinar, promoção da qualidade do ar interior, distância, máscara e testagem.

Quanto ao uso de máscaras em espaços públicos, a recomendação dos peritos é que sejam usadas em função do risco e sempre que não for possível manter a distância. Quanto às empresas, recomendam que sempre que possível seja mantido o desfasamento de horários e teletrabalho.

Nos restantes setores, recomendam que sejam reforçadas as medidas gerais, mantendo-se especial atenção nos transportes e nos lares.

Notícia atualizada às 17h10.