Cultura

Júlio Magalhães: "Já não me passava pela cabeça voltar à televisão"

Dez anos depois, Júlio Magalhães está de regresso à estação de Queluz de Baixo para apresentar em horário nobre o ‘Jornal da CNN’ Portugal. Antes de receber este convite, acreditava que o seu ciclo na televisão tinha fechado - e «tinha terminado bem!». Mas não. Em contagem decrescente para a estreia, fala sobre o novo desafio, sobre jornalismo e as quatro décadas de vida que já conta entre televisão, rádio e jornais. Sempre com a disponibilidade, simpatia e humildade a que nos habituou.


Aos 58 anos, como foi receber o convite para integrar a CNN Portugal? Muitos jornalistas falam da magia que é fundar ou fazer parte de um projeto novo… Nesta fase da sua vida é ainda mais especial integrar um projeto destes e com a dimensão que promete ter?

Foi uma grande surpresa com esta idade receber este convite, é verdade. Não estava mesmo â espera. Integrar um projeto destes aos 58 anos… Eu espero que seja um bom exemplo e uma inspiração. Se reparar, a CNN americana é feita de cabelos brancos, de jornalistas seniores, que chegam à apresentação de programas, de telejornais, depois de muitos anos de reportagem… Nós não temos muito essa cultura em Portugal.

O que acontece em Portugal é que os jornalistas com idade andam a arrastar-se pelas redações. Os cabelos brancos e pessoas com experiência - sobretudo na televisão - hoje interessam pouco. É uma cultura. Não estou a dizer que está mal. Muita gente jovem que entra na televisão tem muito valor e tem dado provas disso. Mas a verdade é que hoje chega-se a uma determinada idade e sai-se do ecrã e já não se tem lugar garantido só porque se tem mais idade.

É pena que em Portugal a experiência não conte: temos tantos jornalistas e tivemos tantos ao longo dos anos que abandonaram o jornalismo, que deixamos de os ver - na televisão, na rádio, nos jornais -, precisamente porque se achou que esta cultura, que existe hoje, é a cultura da beleza, da novidade, das pessoas mais novas… Pessoas mais novas também com valor e capacidades, mas foi pena não termos feito na comunicação em Portugal um mix e uma junção entre aquilo que é a novidade - gente jovem, que é necessário entrar no mercado - e a experiência, que é muito importante estar nas redações. 

A ditadura da imagem sobrepõe-se cada vez mais à experiência?

Muitos jornalistas ficaram pelo caminho e outros eram já vistos quase como um estorvo nas redações. Mas não se trata só da ditadura da imagem. São também as notícias. Na televisão, as notícias são para ser feitas a correr, minuto a minuto e, portanto, quase não é preciso refletir sobre elas. Há notícias a todas as horas, a todas as meias horas, a todos os minutos. E o que interessa é pôr a imagem no ar, em grande parte dos casos. A imagem tem que ir para o ar, a notícia tem que ir para o ar, às vezes de qualquer maneira. Deixou de haver reflexão e algum enquadramento sobre as notícias. E também deixou de haver memória nas redações. Os jovens hoje têm muita dificuldade em enquadrar as notícias da política, da história, da sociedade porque também não têm essa memória. Essa memória que está a desaparecer torna tudo mais difícil.

Apesar de tudo, acho que em Portugal se faz muito boa informação nas televisões, nas rádios, nos jornais. Acho que temos boa informação, os portugueses não se podem queixar. O que acontece é que a luta pelas audiências, a atualidade, a profusão de canais de notícias que têm que estar a toda a hora e todo o minuto a dar notícias e, na maioria das horas, a dar as mesmas notícias, e a meter no ar depois tudo o que aconteça de novo, tirou-nos alguma capacidade de ter uma informação mais pedagógica, que seja alvo de maior reflexão e enquadramento. Há uma ditadura da imagem, mas há também uma ditadura do imediato, que nos retirou alguma capacidade jornalística. 

No início deste ano, depois de ter abandonado a direção do Porto Canal e saído daquela estação de televisão, ao fim de 9 anos, deu uma entrevista ao programa ‘Conta-me’, da TVI, onde explicou alguns motivos que o levaram a tomar essa decisão. Falou sobre as divergências que se foram acentuando, sobretudo porque sempre defendeu um canal virado para o país e para o mundo, tendo sido sempre nessa ótica o trabalho que desenvolveu. E por essa razão, uma estação que pretendia ser um canal de clube ou local não precisava de si. Podemos dizer que a chegada da CNN Portugal tornou-se o desafio ideal na hora certa?

Sem dúvida. Ideal e na hora certa. Quando fui para o Porto Canal foi para fazer um canal generalista. Eu defendo que as regiões do país deviam ter canais de televisão e jornais e rádios. Não é nada contra o centralismo, mas está tudo concentrado em Lisboa… O que acontece é que as outras regiões não têm voz – e a melhor forma de terem voz é terem órgãos de comunicação social. Achei sempre que o Porto tem condições para ter um canal generalista, não virado contra Lisboa, não virado contra o centralismo, não virado contra alguma coisa… Do Porto para o País e para o Mundo. Há 20 canais de televisão em Lisboa e só há um no Porto. Foi nessa perspetiva que eu aceitei ir para o Porto Canal. E foram 9 anos extraordinários.

Hoje vão ao Porto Canal todos os agentes da sociedade: vai o Presidente da República, o Primeiro-Ministro… Passaram a ter o Porto Canal na agenda. No último ano e meio, o FC Porto, proprietário do canal, que na minha perspetiva tinha tido uma atitude belíssima de ter um canal de televisão não só de clube – ter lá os seus conteúdos, mas não resumir-se a uma televisão de clube -, quis ter um canal mais voltado para a cidade, para a região e sobretudo para o clube. E foi essa a incompatibilidade, que é uma incompatibilidade que é legítima por parte da administração do FC Porto. O canal é deles e isso levou-me a sair. Não foi uma saída amigável, foi uma saída civilizada. E isso é o mais importante.

O convite para a CNN Portugal veio na hora certa porque estamos a falar de uma marca que é mesmo global. Que faz televisão dos locais onde está para o mundo inteiro. Muito do que entusiasmou na CNN foi isso. Ser uma marca sem fronteiras e sem geografia, o que eu entendo que deve ser um órgão de comunicação social, neste caso uma televisão.  

Na altura disse também não depender de si o regresso à televisão, nomeadamente à TVI. Receou em algum momento não voltar a ter lugar? 

Pensei nisso, claro. Já não me passava pela cabeça voltar à televisão. Precisamente pelo histórico de muitos outros meus colegas que estavam na televisão. Eu nunca fui obcecado pela televisão, nem pelas audiências. Eu atingi os picos da minha visibilidade na TVI, com o Professor Marcelo Rebelo de Sousa. E mudei. Quando estava na RTP mudei para a TVI, quando estava na TVI mudei para o Porto Canal. Se eu quisesse ter visibilidade e estar sempre com grandes audiências tinha ficado na TVI na altura.

Fui sempre mudando e fui sempre fazendo muitas coisas ao mesmo tempo. Defendi-me sempre dessa obsessão que nós temos muito – a televisão é viciante para quem vê, mas é muito viciante e muito violenta para quem lá trabalha. Estar no ecrã, aparecer na televisão torna-se viciante para nós. É como os políticos, ficam viciados na política. Nós é igual, ficamos viciados na televisão. Toda a gente gosta de aparecer na televisão e a partir do momento em que aparece na televisão não quer mais deixar o ecrã. Porque gosta, por muito que digam que não. É semelhante a uma droga, e eu tentei defender-me disso, por isso é que mudei para o Porto Canal.

É evidente que aos 58 anos sair de um projeto que eu achava que iria ser construído ao longo de muitos anos é um revés. Nos primeiros dois meses [após a saída] percebi que voltar à televisão ia ser muito difícil. Já se sabe como são estas coisas, quando saímos do ecrã, saímos do ar, saímos de cena… Também deixam de nos ligar, até com amigos, que nunca mais me ligaram, é assim…

Hoje a vida é muito imediata, há novos valores, há nova gente… E eu também não sou daqueles profissionais de primeira linha. Eu só tenho uma carreira razoável, não sou daquelas pessoas imprescindíveis numa televisão, se é que há imprescindíveis em algum lado. Mas eu não sou. De facto, nunca me passou pela cabeça voltar à televisão e achei mesmo que não ia voltar. 

Mas essa certeza que tinha levou-o a pensar num plano B? Ou também não houve tempo para pensar nessa possibilidade, uma vez que acabou por ficar envolvido em novos projetos pouco tempo depois [da saída do Porto Canal], como na Rádio Observador?

Quase não houve tempo. Saí do Porto Canal em janeiro, em fevereiro recebi o convite do Observador, em março recebi o convite do Observador para fazer parte das manhãs da Rádio Observador – que comecei no dia 1 de maio – e em junho o convite da CNN.

Além do que estava a falar, de que quando saímos se esquecem que existimos – isso é normal, acontece com toda a gente -, o que me preocupava é que nestas circunstâncias é sempre uma desvantagem estar no Porto. E é por isso que as pessoas vão do Porto para Lisboa trabalhar, está tudo lá concentrado.

No Porto não há mercado, nem contacto com ninguém, tudo se passa à volta de Lisboa. Isso também me fez pensar que tinha fechado o meu ciclo na televisão – e tinha fechado bem. Não sendo um profissional de primeira linha, acho que fiz uma carreira razoável na televisão. 

Muito se tem falado da CNN Portugal, essencialmente nos últimos dias, numa altura em que já se faz a contagem decrescente para a estreia. Tirando o peso e a importância desde logo associados à própria marca, o que vai realmente trazer de diferente em relação aos restantes canais noticiosos?

Há uma grande expetativa em relação à CNN Portugal, tenho sentido isso nas pessoas. Parece que vem aí um novo mundo de informação. Eu queria deixar isso bem claro: não é bem um novo mundo. Não me compete a mim estar a falar da estratégia da CNN, não sou o diretor, mas era aquilo que eu dizia há pouco. Faz-se muito boa informação em Portugal, portanto não vai chegar agora um género de D. Sebastião ‘Agora a CNN veio, agora a CNN é que é’. Não é verdade isso. Vai ser mais uma boa alternativa para os portugueses e vai ser uma forma diferente de cultura informativa.

A CNN tem um rigor e tem premissas na informação que fazem parte da cultura deles e às quais nós não estamos habituados. Porque temos uma informação mais aberta, mais diversificada, mais agressiva, por isso podemos ir a tudo mas o que interessa é por a imagem no ar…

Isto não vai ser uma coisa imediata, mas acredito que o que vai mudar nos próximos anos é alguma cultura de informação e de ver informação em Portugal. Os jovens não veem praticamente os nossos telejornais e as nossas televisões. Habituaram-se a ver as televisões estrangeiras. Agora vão ter a possibilidade de ver.

A CNN pode ser um novo caminho também para aquilo que são as novas gerações em Portugal: que veem nos tablets, nos telemóveis, acompanham as notícias todas em inglês, a nível internacional… Eu espero que, pelo menos, esta seja uma das grandes virtudes da CNN em Portugal. Trazer as novas gerações para a informação – e para a informação portuguesa. Julgo que este é um caminho que a CNN vai seguir, para além de muitos outros que os diretores da CNN têm em mente. 

Estava a achar graça quando disse que não deverá esperar-se um género de D. Sebastião, mas sim olhar para este novo projeto como mais uma alternativa. Até porque se a CNN [EUA] foi pioneira quando lançou em canal noticioso durante 24 horas, em 1980, é preciso ter em conta que atualmente, em Portugal, já há mercado variado e algumas estações noticiosas de televisão contam já com duas décadas… Temos o exemplo da SIC Noticias (2001), que substituiu o CNL [Canal de Notícias de Lisboa], inaugurado em 1999. Surgiu entretanto a atual RTP3, antiga RTP Informação, que iniciou as emissões em 2004 enquanto RTPN, mas que surgiu como o embrião da NTV também no início do milénio… Uns anos mais tarde apareceria a TVI24 (2009), precisamente no ano em que foi convidado para assumir o cargo de diretor de informação da TVI. 

Precisamente. Estive também muito ligado nesse início da TVI24, fazia o jornal da meia-noite, depois de fazer o jornal na TVI. Para nós, [a TVI24] foi um grande acontecimento ter um canal com 24 horas de informação… O início foi muito difícil, com muitas falhas, muitas asneiras, não estávamos habituados. Mas os canais perduraram no tempo. Tanto a TVI24, como a SIC Notícias e a RTP3 têm 24 horas de informação e boa informação. Eu sou do tempo em que mesmo na TVI só havia jornais à uma e às oito. Portanto tínhamos que esperar pela hora. Hoje não têm que esperar porque as novas gerações também não esperam.

Mas torna-se ainda mais complicado inovar ou transmitir a mensagem que se quer de maneira diferente?

O problema é esse mesmo, onde é que se vai buscar mais mercado – sem ser andarmos a tirar uns aos outros. Mas na Europa ou em qualquer país há uma televisão em cada bairro. Cá é que a informação está muito concentrada só num sítio. É preciso trazer novos rostos, novos players para o mercado para não estarmos sempre todos à volta dos mesmos comentadores, dos mesmos especialistas... É os que estão mais à mão e onde é que estão todos? Estão na capital.

A CNN trabalha muito por janelas, com todo o mundo, e é isso que me fascina. A CNN está em todo o mundo, com todos os especialistas, vários jornalistas, vários correspondentes, que são todos diferentes uns dos outros. Cá não, os comentadores ou especialistas ora estão numa televisão, ora estão noutra e depois vão para outra ainda… O que se espera deste projeto é que traga também novos players para o mercado.

Se não houver aquela fidelidade a um determinado canal, é fácil apanhar os mesmos comentários em programas distintos…

Pois… O mercado funciona ali, e é um círculo que não sai dali. E é uma pena porque no país inteiro há gente com muita capacidade: nas universidades, nas empresas, nas instituições, cientistas… E acabamos por não dar voz a ninguém porque gira tudo à volta da mesma coisa.

Dentro do panorama atual, não podemos deixar de fora também o caso mais recente, da CMTV (2013), que assumindo-se como um canal generalista também tem uma grande aposta na informação. Desde 2017 em todas as operadoras portuguesas de televisão por subscrição tem conquistado também grande terreno. Em setembro último, as medições de audiências da GFK mostravam que a CMTV consolidou a liderança entre os canais de informação, tendo registado 4,4 % de share mensal [um crescimento homólogo de 12%]. O total do share dos concorrentes diretos (SIC Notícias, TVI24 e RTP3) era inferior ao da CMTV… Ainda que mais recente, também veio para agitar as águas…

Veio. Todos os canais e todos os órgãos de comunicação social têm um estilo próprio e a sua identidade. A CMTV aproveitou muito bem a passagem do papel para a televisão e o que pretende é competir com os canais generalistas. Tem a ambição forte de, apesar de estar no cabo, chegar àquilo que são os canais generalistas. E tem conseguido excelentes resultados, com um estilo de informação que é substancialmente diferente dos outros canais de televisão. Agora pergunta-me: ‘Mas é bom, é mau?’. Não interessa, é o estilo deles. E aquilo que fazem dentro daquele estilo, fazem-no muito bem.

O que é preciso é perceber isso. A CMTV está recheada de grandes profissionais e é mais uma alternativa que está no mercado. Quem gosta vê e, pelos vistos, há muita gente que gosta. Mas dentro de um público que é mais público dos canais generalistas do que dos canais de informação, e isso não agita tanto o mercado. Depois não dá para ter tanta gente nestes canais.

A TVI24, a SIC Noticias e a RTP3 não é aquele combate que querem fazer, com a mesma informação. Em casa temos pelo menos 200 canais nas nossas televisões e há um botão no qual somos nós que mandamos. Temos a possibilidade de escolher o que queremos. 

Sempre disse que ser jornalista é ser um contador de histórias. Acha que é por isso que as redes sociais se tornaram tão perigosas, já que qualquer pessoa pode assumir esse papel e alcançar por vezes um grande auditório?

Já temos, por exemplo, os programas de verificação de factos, como a Hora da Verdade ou o Polígrafo, que se debruçam também sobre notícias que surgiram nas plataformas digitais. E, já sem cunho informativo, vemos outro tipo de conteúdos em crescimento, como os podcasts… Tudo tem vindo a alterar-se e, por isso mesmo, não sabemos como vão ficar os canais generalistas no futuro – ou mesmo as televisões.

Mas, quando começámos a TVI24, já se dizia que os canais generalistas iam durar cinco anos, tudo ia passar para o cabo, assim como se dizia que tudo ia passar para o digital, assim como se vaticinava a morte dos jornais em papel. E ainda hoje se diz.

A verdade é que os jornais em papel continuam, com a concorrência dos jornais digitais – mas é isso, uma concorrência, mais uma alternativa -, continuam a ser lidos livros em papel, as televisões generalistas não morreram nada. O que é que há? O que há são mais alternativas e acessos à informação. Os mais jovens têm um acesso à informação em todo o mundo, nós nunca tivemos. As populações estão mais informadas, mais próximas da realidade.

O que falta hoje é regulação. Qualquer cidadão pode hoje ser jornalista nas redes sociais: em qualquer lado diz o que quer, faz o que lhe apetece, à hora a que lhe apetece, inventa notícias, insulta pessoas… Ainda hoje na rádio dei um exemplo disso: o Tribunal de Vila Verde condenou uma mulher a pena de prisão efetiva por, depois de ter tido uma altercação, ter insultado duas assistentes sociais nas redes, mas com os piores impropérios que existem… Nas redes não se pode inventar notícias, não se pode insultar de qualquer maneira, a coberto do anonimato ser-se o que apetece… Quer dizer: poder, pode-se; tem é que haver regulação.

E no dia em que houver regulação não vai morrer tudo, vai é continuar tudo. Se houver regulação, as pessoas têm a possibilidade de ver tudo em todo o lado. Para termos também cidadãos bem informados, bem-educados e sobretudo com espírito de cidadania. À conta disso, hoje os jovens concentram-se muito em matérias que são importantes: a sustentabilidade, o ambiente, não ter carro… Os jornais, as rádios, as televisões… quanto mais houver, melhor. O que falta mesmo é regulação.

Mas a possibilidade da existência de uma legislação nesse sentido não parece ainda uma utopia?

Apesar de agora ainda ser um bocado utópico, acredito que vai ser mais rápido do que parece. O problema é que, às vezes, estão a trocar a regulação pela limitação dos direitos e dos deveres. Estas polémicas dos Facebooks e dos WhatsApps vieram alertar o mundo e, em vez de estarem preocupados a perceber a forma como podem regular bem, a ideia passa por proibir ou impor limites, suspender ou punir, retirando o acesso. Isto também é uma adaptação de toda a gente, dos Estados, dos Governos, das instituições…

Mas a sociedade não pode continuar a viver dentro deste sistema. Por exemplo, os músicos não conseguem vender porque são disponibilizados nas plataformas, ou sai um filme novo… como é que o cinema vai sobreviver se, de repente, esse filme já está nos nossos telemóveis? Esta regulação tem que acontecer e tem que ser apertada. Agora: regular é uma coisa, limitar e proibir é outra. Estou esperançado que aconteça, agora a certeza também não posso ter.

Olhando quatro décadas para trás, para o início da sua carreira, e tendo vivido com estas transformações todas até agora…

É como uma onda… É incrível. É uma viagem extraordinária. Comecei no O Comércio do Porto, onde o jornal era feito em chapa, depois imprimido e nós esperávamos até às cinco da manhã à porta, para conseguir ler ainda antes de ser distribuído… Desde ai até agora, o que já aconteceu… O jornalismo morreu? Claro que não. É decisivo.

Ainda na semana passada, o Papa homenageou dois jornalistas vaticanistas porque disse que, se não fosse o jornalismo, as questões dos abusos sexuais não tinham saído de baixo da carpete da Igreja. E que foi o jornalismo que contribuiu para isso. E deu ainda um recado aos jornalistas muito importante e que acho que devíamos reter: vocês [jornalistas] saiam das redações, façam reportagens e façam-nas olhos nos olhos das pessoas, não se escondam nos mails, na internet… Saiam para a rua e façam reportagens. É o que nos tem faltado: sair para a rua e fazer reportagem. Eu sou um adepto de jornais.

O sítio onde mais gostei de fazer jornalismo foi nos jornais – é onde se pode fazer bom jornalismo: enquadrado, com opiniões diferentes, refletido. A televisão não dá muita margem para isso. Eu continuo a comprar os jornais todos e a ler o jornal em papel. O que é que eu vejo? Há demasiada opinião nos jornais. Há notícias, mas há muita opinião. Parece que é o mais fácil, encher páginas de jornais…

É importante ter opinião, mas antes não era assim: jornais eram jornais de notícias e de reflexão e, depois, se fosse necessário, uma opinião sobre determinado assunto ao lado. Hoje temos páginas e páginas de jornais cheias de opiniões. 

Mas também há aqueles casos de leitores que compram um jornal apenas para ler determinada crónica ou opinião…

Em 20 autores de opinião, há talvez dois ou três que as pessoas seguem e compram porque os querem ler. Mas olhamos para os jornais e têm muitas [colunas de opinião]. Às vezes dá-me a sensação que não se vai à procura de mais notícias e aquilo dá jeito para encher. E tenho pena que isso aconteça. Se houver três/quatro artigos de opinião é mais fácil ler esses quatro e estarmos a par do que as pessoas pensam do que se tivermos 10/15. Onde é que vamos ter tempo? Aquilo que as televisões têm a mais de notícias, os jornais têm a menos, na minha opinião. 

Em contagem decrescente para o dia 22 de novembro, a CNN já deu a conhecer a grelha e os respetivos pivôs, com o Jornal da CNN [das 21h às 22h] a ficar a seu cargo e da Judite Sousa, alternadamente, cada semana.

A Judite é um nome muito impactante para a CNN. Vai ser uma redação constituída também por gente muito jovem. Alguns com mais experiência, mas também ainda jovens. E é bom que as pessoas olhem para aquele jornal das 21h e vejam dois seniores.

Sou eu e a Judite, como há muitos outros que também poderiam estar ali – que já estiveram na televisão e já não estão hoje, desanimaram, desalentaram-se, desistiram porque, se calhar, perceberam que a redação já não é aquele lugar onde se sentem jornalistas. Vou fazer esse jornal e espero dar o meu contributo. Eu vou ser colaborador da CNN, não vou ser quadro, vou estar lá semana sim, semana não. 

Quando foi oficializada a sua contratação, o anuncio feito pela CNN dizia: «O jornalista traz o seu carisma e empatia com o público» para o projeto. O carisma e o facto de ser empático são dois dos seus grandes trunfos?

Acho que foi nessa perspetiva que me convidaram. O único mérito que posso ter aqui é que acho que fiz uma carreira razoável e séria. Sem lobbys, sem fretes, sem almoços ou jantares, sem viagens, sem reuniões… Vivo no Porto, fui fazendo a minha vida sempre de uma forma tranquila, séria. Por isso é que digo: há apresentadores e jornalistas muito melhores do que eu, mas acho que nisso tive algum mérito. Quando me dizem que sou um jornalista empático, eu costumo dizer isso mesmo: «Eu não sou um grande profissional, mas sou muito simpático!» [risos]. E isso em televisão também é importante. 

Neste momento, que ambiente é que se vive na redação da CNN Portugal?

As vezes que lá tenho ido, é impressionante, é frenético. Não ia à TVI há 10 anos, também não apresento um jornal há 10 anos, e já não me lembrava de ver uma redação em que está tanta gente entusiasmada. Já não conheço nem metade das pessoas que lá estão. Conheço as que são do meu tempo, só que já nem são metade.

É impressionante, sobretudo, ver aquilo que é um contraponto daquilo que é hoje a comunicação social, ou seja, fazer mais com menos – é o que nós vemos hoje, nas televisões, nas rádios, nos jornais. As administrações é: se podemos fazer muito mais com 10 por que razão havemos de ter 20? Mas é preciso ter 20, porque depois os 10 trabalham arduamente e perdem qualidade.

A grande surpresa que eu senti foi essa: de repente entro numa redação e digo ‘Caramba, estão aqui dois canais de televisão, gente toda misturada, mais velha, mais nova, menos ou mais experiente… tudo muito frenético’. A gente nova está desde os últimos 30 dias em contagem decrescente para o início. Vão entrar num projeto novo e ter provavelmente o primeiro grande desafio profissional.

Para nós, como eu e a Judite, é um projeto extraordinário mas já estamos habituados, portanto não é a mesma ansiedade. Eles estão com a ansiedade que eu tinha quando comecei a trabalhar nos jornais e, depois, quando fui para a televisão... É engraçado ver isso.

Quando abrimos o site [cnnportugal.pt] aparece o logo e uma frase em maiúsculas: «EM TODAS AS FRENTES». É o que o público pode esperar, a presença da CNN em todas as frentes?

Eu não sei se é isso, eu espero que seja. Ando há muito tempo a lutar – esse é outro mérito que eu tenho – para que em Lisboa e no Porto, nas televisões em que eu estive…. que não se esqueçam que há um país inteiro. Sou absolutamente a favor da descentralização e de uma informação mesmo sem fronteiras e sem geografia.

Espero que a CNN seja isso mesmo. O país inteiro e as ilhas e o mundo. Que não tenha mesmo barreiras. Não sei se é disso que as pessoas estão à espera. Eu estou à espera como profissional da CNN e igualmente como espetador de televisão.