À esquerda e à direita

A 'morte' em direto de Rio

Rui Rio, um homem que tinha a imagem de seriedade e (de excesso) autoritário no seu ADN, conseguiu destruir quase tudo nos últimos meses. Lançou e foi responsável de tantas chico-espertices que não se entende como ainda tem tantos a defendê-lo de forma cega.


Quando se ouve o antigo jogador e ex-treinador Octávio Machado a falar sobre Jorge Jesus pensamos que fala sobre o verdadeiro Jesus. A adoração de Octávio pelo treinador do Benfica só é comparável à de uma beata pelo filho de Maria, com todo o respeito por ambos. No campo da adoração, é o mesmo que vermos o jornalista Daniel Catalão, da RTP, falar de novas tecnologias. O homem parece que ganha outra vida quando pega num novo modelo de telemóvel ou quando está na Web Summit. 

Muitos políticos têm um grupo de seguidores que se comportam como Octávio ou Daniel Catalão. A devoção é tanta que não veem defeitos nos seus ídolos ou nos seus objetos. Quem não se lembra dos socratistas como Pedro Adão e Silva ou Pedro Silva Pereira? Ai de quem se atrevesse a dizer mal do então primeiro-ministro! Levava logo com críticas violentas e era considerado um perigoso cidadão.

 Pois bem, vem esta conversa a propósito dos fãs de Rui Rio, como José Pacheco Pereira, entre tantos outros. Como é possível as pessoas ficarem cegas e não verem o óbvio?

Rui Rio, um homem que tinha a imagem de seriedade e (de excesso) autoritário no seu ADN, conseguiu destruir quase tudo nos últimos meses. Lançou e foi responsável de tantas chico-espertices que não se entende como ainda tem tantos a defendê-lo de forma cega. E estou em crer que Rio ganharia as eleições internas do PSD com relativa facilidade se não tivesse feito o que fez - embora nada nos garanta que não vai ser o vencedor das diretas do seu partido. Vamos aos factos de uma ‘morte’ em direto. O líder do PSD marcou as diretas para 4 de dezembro, mas quando percebeu que o Governo ia cair, tudo fez para adiar a consulta aos militantes do partido, querendo que esse ato eleitoral só se realizasse depois das legislativas - impossibilitando, como é óbvio, os adversários de serem a candidatos a primeiro-ministro nas próximas eleições nacionais. Como viu a sua intenção chumbada, procurou adiar o Congresso Nacional para janeiro, impossibilitando o vencedor das diretas - que não ele - de apresentar a lista de deputados à Assembleia da República. Digamos que, mesmo perdendo, Rio queria continuar a ser ele o candidato a primeiro-ministro e a nomear a equipa, apesar da falta de legitimidade.

Quando se pensava que o antigo presidente da Câmara do Porto tinha esgotado todas as suas chico-espertices, eis que surge com mais um bluff: de acordo com os estatutos, o futuro líder do PSD, que não se aplica ao candidato Rui Rio, pois é presidente do partido,  só poderá escolher os cabeças de lista pelas distritais. Como é óbvio, se Rangel ganhar as eleições do próximo fim de semana, terá a oportunidade de escolher a sua equipa, apesar das jogadas ridículas de Rui Rio.

O presidente do PSD tornou-se um caso de estudo: de como não se fazer  em política. Rangel deve bater palmas de contentamento, pois dessa forma as suas atitudes prepotentes acabam por não serem relevadas. De uma forma mais direta: pelo menos aos olhos da opinião pública, Rangel não precisa de fazer nada. Basta fazer-se de morto para ganhar a Rui Rio, tamanhos são os disparates cometidos. Mas, como já escrevi, nunca se sabe se o povo laranja irá pensar desta forma.

P. S. O Presidente da República deu ontem um dos maiores puxões de orelhas a dois ministros de que há memória. Marcelo, à saída da reunião do Infarmed, disse com o sarcasmo que lhe é conhecido, sobre o caso dos comandos e os diamantes: «O sr. ministro, apesar de não ser jurista e de não ter ouvido opiniões de juristas, teve, a meu ver, a interpretação jurídica correta». Para apimentar os elogios, o PR acrescentou que também o ministro Augusto Santos Silva tinha seguido o mesmo caminho, concluindo: «Temos dois casos de quem não é jurista mas pensa como jurista». Noutra altura, Marcelo teria chamado António Costa e diria ao primeiro-ministro que tinha perdido a confiança nos seus dois governantes.

vitor.rainho@nascerdosol.pt