Cultura

Drama da Gucci chega ao cinema com Lady Gaga como 'Viúva Negra'

Conhecemos a marca, mas pouco sabemos da família. Porquê? Parece que o passar do tempo “varreu para debaixo do tapete” aquele que foi considerado o caso mediático mais conhecido de Itália – o assassinato de Maurizio Gucci por ordem da sua mulher Patrizia Reggiani. Agora, um novo filme vem tirar o pano a esta história. House of Gucci estreia dia 25 de novembro em Portugal.

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Quando se ouve o nome Gucci, é provável que o associemos imediatamente aos preços luxuosos daquela que é uma das marcas mais famosas do mundo inteiro. Malas, sapatos, perfumes, roupas, chapéus, óculos... O universo Gucci chama a atenção de quase todos, principalmente pelos vários zeros registados nas etiquetas, mas é só para alguns… A pergunta que se coloca é: como é que nunca existiram muitas informações sobre a casa Gucci? Fundada por Guccio Gucci (1881-1953) em 1921, na cidade italiana de Florença, a Casa Gucci começou com a fabricação de peças de couro feitas artesanalmente pela família. Com o passar dos anos, com a reinvenção das peças e o aumento da procura, maioritariamente por membros das elites, a marca foi crescendo. Mas isso não significa que a sua história seja apenas feita de glamour. Muito pelo contrário... A sua fama “varreu para debaixo do tapete”, aquele que foi um dos casos mais mediáticos de Itália – o assassinato de Maurizio Gucci, neto do fundador da casa de moda e herdeiro do império, por ordem da sua ex-mulher Patrizia Reggiani, conhecida até hoje por “Viúva Negra” – que agora é revisitado com a estreia do filme House of Gucci, baseado no The House of Gucci: A Sensational Story of Murder, Madness, Glamour and Greed, de Sara Gay Forden, escrito em 2000.

O filme do realizador Ridley Scott, autor de clássicos como Alien, Blade Runer ou Gladiador conta no elenco com nomes como Lady Gaga, Al Pacino, Adam Driver, Jared Leto, Jeremy Irons ou Salma Hayek, e aborda três décadas repletas de histórias de amor, escândalo, decadência, traição e até vingança levada a extremos, que nos ajudarão a compreender o que até agora parece ter estado guardado em “segredo de justiça”: o significado de um nome, o seu valor e até onde as pessoas estiveram dispostas a ir para continuar a deter o seu controlo. A produção que passou por um atraso devido ao período de isolamento social causado pela pandemia da covid-19 estreia a 25 de novembro em Portugal e já é tida como um dos filmes mais aguardados do ano.

A história de amor entre Maurizio e Patrizia Maurizio Gucci era filho de Rodolfo Gucci e neto do próprio criador da marca de luxo. Nasceu em setembro de 1948, tendo sido o chefe da marca depois do falecimento do seu pai, em 1983. A sua morte gerou uma guerra entre o seu filho único e o seu irmão, Aldo, que tinha pretensões de ficar a liderar o império. Contudo, Maurizio acabou por ganhar o caso, já que era o herdeiro principal do seu pai. Mas é preciso recuar até ao ano 1972, para perceber a “nuvem negra” em que a história de amor entre Maurizio e a socialite Patrizia, se transformou.

Maurizio Gucci e Patrizia Reggiani estavam na casa dos 20 anos e tinham ambos muito dinheiro na primeira vez que se olharam num evento limitado para os ricos em Milão. Nessa altura, as festas de elite eram consideradas os “locais perfeitos” para se conhecer pessoas e foi precisamente aí que nasceu o romance que mais tarde se viria a tornar o “pior dos pesadelos”. A verdade é que quem percebeu primeiro a existência do outro foi o neto do fundador da Casa Gucci. Maurizio avistou Patrizia, considerando-a uma mulher “extremamente bonita” e perguntando a um amigo: “Quem é aquela linda rapariga vestida de vermelho que se parece com Elizabeth Taylor?”. Após se conhecerem, do que sabe, a jovem não se interessou de imediato pelo milionário. Aliás, este teve de fazer alguns esforços para conquistar o seu coração. De que forma? Oferecendo-lhe prendas, já que esta era apaixonada por dinheiro e ostentação.

O que começou naquela noite consolidou-se em 1972, quando os dois se casaram e pareciam ser um belo e feliz casal. Mas parecia que Rodolfo estava a adivinhar o que se seguiria. O pai de Maurizio era contra o casamento, tendo tentado de tudo para o impedir, incluindo ir falar com o bispo de Florença. Porém, não conseguiu, acabando por ceder, tendo mesmo estado presente no matrimónio. Rodolfo considerava a jovem uma espécie de alpinista social, “demasiado casual”. A filha de uma mulher que lavava a loiça, que viveu na periferia pobre de Milão até ser adotada pelo segundo marido da mãe, um empresário rico do setor dos transportes. Só depois do nascimento da primeira neta (de duas), é que o, na altura, chefe do grande império Gucci, passou a acreditar no amor do casal, que não viria a durar muito tempo.

As razões do declínio do matrimónio Em 1983 a marca já havia “içado as velas”, assim como todas as marcas produzidas em Itália, mas de repente os ventos mudaram: quando Rodolfo Gucci morreu, Maurizio herdou as ações do pai e pouco depois obteve as do seu primo Paolo. Ao contrário do seu progenitor, Maurizio era conhecido em Florença e Milão (principais áreas onde a Gucci vendia), pela sua extravagância e desejo de ostentação e não foi preciso muito até que o herdeiro começasse a deixar a empresa “declinar”. Maurizio expulsou o tio Aldo, e as coisas começaram a desmoronar-se. A marca, que já nessa altura era muito popular, estava a perder-se e o herdeiro resolveu vender as suas ações aos árabes, decisão que para Patrizia foi uma “amarga desilusão”. Ao assistir ao declínio do império, Reggiani tentava “intrometer-se nos negócios da família” e isso fez com que o declínio da empresa se estendesse até ao matrimónio.

Em 1985, o casal decidiu divorciar-se, dando início a um processo complexo que chegou a durar cerca de seis anos a ser concretizado. Durante esse período, a relação entre os dois ia-se tornando cada vez mais conturbada. Segundo a própria Reggiani em entrevista ao programa Storie Maledette, o matrimónio acabou porque “o marido a abandonou repentinamente”. “Em vez de seguir o roteiro de uma viagem de trabalho a Florença, nunca mais voltou”, contou. Depois disso, em 1992, Patrizia teve de passar por uma cirurgia delicada após descobrir que possuía um tumor no cérebro. Na mesma entrevista a viúva disse que o ex-esposo não foi visitá-la e não prestou nenhuma ajuda nesse momento sensível. Tudo isso piorou quando esta descobriu que Gucci já se encontrava a namorar com outra mulher 10 anos mais nova que ela – Paola Franchi – que era amiga do casal há já alguns anos.

Embora o relacionamento com Paola Franchi pudesse ter sido o estopim para a raiva que crescia dentro de Reggiani, numa entrevista ao The Guardian, a socialite explicou que o seu maior medo era que as suas filhas “tivessem de dividir a herança”. “Eu estava chateada com Maurizio por muitas, muitas coisas naquela época. Mas acima de tudo, por isso. Perder os negócios da família... Isso foi estúpido! Foi um fracasso! Ele não deveria ter feito isso comigo!”, revelou.

O homicídio encomendado A 27 de março de 1995, em Milão, quatro tiros mataram Maurizio Gucci, que tinha deixado a sua casa em Porta Venezia para entrar nos escritórios da Via Palestro e, mesmo no hall de entrada, diante dos olhos incrédulos do porteiro, o herdeiro de uma das famílias mais famosas da indústria da Moda caiu no chão. Apesar da notícia ter estado na primeira página dos jornais durante dias, e nas aberturas dos jornais televisivos em Itália e noutros países, as investigações do homicídio ocorreram durante dois anos – a única certeza era que o assassino não era um profissional.

Desde o início, os investigadores pensaram que o assassinato fosse fruto de uma guerra financeira, até que o agente milanês, Fillippo Ninni, recebeu um estranho telefonema anónimo em janeiro de 1997 às 22h, que informava que havia escutado um porteiro noturno de um hotel a gabar-se de ter recrutado um assassino para o famoso empresário. Os olhares viraram-se então para Patrizia que teria encomendado o próprio assassinato do ex-marido. Tratava-se de Ivano Savioni e Benedetto Ceraulo, supostamente responsável por realizar o crime. Pelo que se sabe, foi a sua amiga (Reggiani) e a vidente Giuseppina Auriemma quem contactou o porteiro. Ele, por sua vez, negociou a morte com Orazio Cicala, que contratou o homicida e foi o motorista da fuga da cena do delito.

Todos eles acabaram por ser condenados e presos. Reggiani e Cicala receberam sentenças de 29 anos cada, e Savioni e Auriemma foram condenados a uma pena de 26 e 25 anos, respectivamente. Nenhum deles passou pela condenação inteira, sendo liberados antes do previsto.

As declarações da “Viúva Negra” Segundo os promotores legais encarregados de dar seguimento ao caso em tribunal, os motivos de Reggiani para o crime envolveram ciúme e ressentimento pelo facto de se considerar abandonada pelo ex-marido.

“Costumava perguntar às pessoas, mesmo às da mercearia, se havia alguém disposto a acabar com a vida do meu marido. Mas não pensei que alguém o faria. Eu não tinha pontaria, e não conseguia apontar uma arma, por isso precisava de alguém que o fizesse por mim, sem falhar. E alguém o fez!”, revelou mais tarde Patrizia. “Mandei matar o Maurizio por rancor”, explicou. No dia do funeral, a viúva chegou mesmo a seguir o caixão do seu marido ao lado das suas duas filhas, mesmo tendo estado por detrás do assassinato.

Reggiani saiu da prisão mais cedo do que o suposto por bom comportamento. Em 2013, chegou mesmo a afirmar em entrevista ao jornal italiano Il Giornale: “Naquela época (1995), estava convencida de que uma criatura como ele não merecia viver. Por quê? Nunca contarei”.

Atualmente, a viúva tem 72 anos e vive numa bela vila em Milão com um pequeno cão e um papagaio. Concordou em contar a sua história no documentário Lady Gucci: The Life of Patrizia Reggiani, no Discovery + e não nega nada sobre o seu passado. Passou 16 anos na prisão milanesa de Saint Vittore, rebatizada Residência São Victor porque – declara Reggiani – “lá estava muito bem, podia até cuidar do seu furão”. Como a própria admite, hoje vive uma “vida incrível”. Tem uma penthouse na Quinta Avenida de Nova Iorque (com um Bentley e motorista à porta), quatro chalés em Saint Moritz, uma casa em Milão na Via dei Giardini, organiza festas estratosféricas e é uma habitué no jet set internacional, recebendo ainda presentes como o barco Creole, que pertenceu ao armador Stavros Niarchos.

Lady Gaga e a busca pela personagem Além de cantora, Lady Gaga tem percorrido um caminho pelo munda da sétima arte. Dentro dos papéis que representou, destacam-se trabalhos como a série televisiva American Horror Story: Hotel (2015-16), que lhe rendeu um Globo de Ouro de melhor atriz, e o filme A Star Is Born (2018), no qual atuou ao lado de Bradley Cooper e para o qual contribuiu também com a banda sonora. Após o lançamento do filme, a artista foi aclamada pelos críticos, nomeada ao Óscar de melhor atriz e vencedora na categoria de melhor canção original, à qual levou a estatueta pela música Shallow.

Agora, dá vida à Viúva Negra que a obrigou a uma exigente preparação para encarnar o papel. Questionada sobre a evolução da sua personagem no evento Deadline’s Contenders Film: Los Angeles, que decorreu no dia 14 de novembro, a cantora contou que o grande desafio na sua construção foi “o de não haver informações sobre Patrizia Gucci antes da morte de Maurizio Gucci”. “Foi assim que ela se tornou famosa para o mundo. Fiz um trabalho intensivo quase jornalístico, onde li principalmente exposições sobre ela, assisti a cada clipe de cada entrevista que deu após o assassinato, estive atenta aos seus maneirismos, tentando perceber quando é que esta estava a mentir ou a dizer a verdade”, explicou. Gaga acredita que se assistirmos a entrevistas suficientes de alguém, ficamos “em sintonia com o seu quociente emocional”. “Ela mentiu muito”, sublinhou a artista.

A cantora revelou ainda que escreveu um caderno, em estilo diário, com cerca de 80 páginas sobre quem era Patrizia e como ela manipulou os membros da família e contou que se inspirou em alguns animais para se aproximar do papel. Numa conferência de imprensa, antes do lançamento cinematográfico nos EUA, a atriz declarou que “pediu ajuda ao reino animal para retratar cada fase da vida de Reggiani”. “No início da sua vida, eu canalizei-a como um gato, um gato doméstico; no meio do filme, eu era uma raposa e então estudei a maneira como as raposas caçam (elas são muito brincalhonas quando o fazem); no final, estudei as panteras, assisti a muitos vídeos sobre a forma como esses animais caçam. São sedutoras para depois atacarem”, elucidou aos repórteres.

Os problemas com o sotaque italiano Depois de adiantar à Vogue britânica que passou nove meses a falar com sotaque italiano para conseguir encarnar a sua personagem da forma mais realista possível, Lady Gaga recebeu recentemente uma crítica por parte de uma vocal coach (treinadora vocal) em relação ao seu sotaque. Francesca De Martini disse ao Daily Beast que, apesar de se “sentir mal” com a sua opinião, “o sotaque de Lady Gaga não é propriamente italiano”. “Soa mais a russo”, considerou.

A vocal coach foi chamada ao set de House of Gucci para ajudar Salma Hayek com o seu papel de Giuseppina “Pina” Auriemma e disse estar surpreendida por um filme daquela dimensão não ter um vocal coach no set, revelando ainda que o que aconteceu foi que, depois de contracenar com Gaga, Salma sentiu que precisava de alguma ajuda: “Eu acho que ela se apercebeu de que o sotaque não era o correto e ficou preocupada – ela queria sair-se bem”.

Quando De Martini ouviu as cenas protagonizadas por Salma e Lady Gaga apercebeu-se de que a sua “aluna” tinha razão e que o sotaque não era de facto o mais correto: “Eu apercebi-me quando estava no set, porque eu tinha headphones a trabalhar com a Salma, para ouvir o que ela estava a dizer e poder ajudá-la, e por isso ouvi a Lady Gaga também”. “Quando vês o trailer apercebes-te de que há muitos sotaques diferentes”, referiu a vocal coach acrescentando que o sotaque de Al Pacino soa mais a um nova-iorquino/italiano e que o sotaque de Adam Driver é praticamente inexistente.

Jared Leto, por sua vez, além da busca pelo personagem (Paolo Gucci), teve de suportar seis horas de maquilhagem todos os dias para se transformar no playboy rechonchudo e careca filho de Aldo Gucci e primo de Maurizio. “Usei essas seis horas como uma forma para trabalhar a vida interior do personagem”, disse Leto. “Eram ótimos momentos para me focar e meditar no personagem”.

Patrizia amava Maurizio? O filme é dirigido pelo diretor britânico Ridley Scott, responsável de alguns dos filmes mais celebrados dos últimos 40 anos. Contudo, de acordo com Salma Hayek, que interpreta a mãe de Reggiani, foi a sua esposa que o pressionou durante muitos anos para que o filme fosse feito. “Sou muito amiga da Giannina Scott e vi-a lutar por isto durante 20 anos”, explicou Hayek numa entrevista coletiva com o elenco. “Ela queria contar a história de uma mulher que todo mundo vê apenas como uma garimpeira mas que, na verdade, amava realmente esse homem”.

E Lady Gaga concordou que há mais nesta história do que apenas ganância: “Ela não amava apenas Maurizio, mas também a maneira como ele a empoderou dentro dos negócios da família e quando isso lhe foi tirado, ela reagiu de uma forma que a maioria das mulheres não faz (a maioria das mulheres não manda matar os seus maridos)”, defendeu Gaga, admitindo que, no entanto, acredita que “naquele sistema, com esse tipo de opressão sistémica, isso aconteceu porque ela estava simplesmente muito ferida”.

Reações da família Gucci A família Gucci já começou a reagir à produção de Scott, não se mostrando muito contente com o resultado do filme.

Em declarações à agência Associated Press, Patrizia Gucci, prima de Maurizio, fez saber-se “verdadeiramente desiludida” com aquilo que já teve oportunidade de ver sobre o novo filme de Ridley Scott, tendo mesmo feito uma queixa, tal como explicou. “Estão a roubar a identidade de uma família para ganhar dinheiro e gerar ainda mais lucro à estrutura de Hollywood. A nossa família tem identidade e direito à privacidade. Podemos falar de tudo, mas há linhas que não podem ser transpostas”, referiu. A queixa em causa tem que ver com o facto de o filme ter sido feito sem a colaboração da família Gucci. Segundo Patrizia Gucci, esta terá tentado contactar o realizador, mas não obteve resposta. Além disso, considera que o livro em que o filme se baseia “está repleto de incongruências”. A porta voz da família Gucci disse ainda que decidiria que ações tomar, judicialmente falando, depois da estreia da produção.